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Je Suis Palmira... Je Suis Aleppo...

por Robinson Kanes, em 17.12.16

6fev2016---os-recem-casados-nada-merhi-18-e-hassan

 

 

Je suis Palmira ou Je suis Aleppo não é tão pomposo como Je suis Charlie Hebdo ou Je suis Bataclan e existem algumas razões, nomeadamente...

 

Em Aleppo e Palmira não se compram discos, não se arranjam empregos e há pouca gente interessada no local onde fomos jantar ontem. Os “famosos” não encontram, aí também, gente que esteja muito interessada nestes - ou seja, gente que não permite que os primeiros se perpetuem com pequenas mensagens egoístas de solidariedade – mas gente que somente procura fugir da guerra e isso não é lucrativo para a imagem de bom cidadão das redes sociais mas que nem se levanta da cama se a casa do vizinho estiver em chamas.

 

Dar um concerto de “solidariedade” no Bataclan é mais interessante para as vendas do novo disco, do que arriscar a pele num Estado Árabe.

 

Aleppo e Palmira estão cheia de gente esfarrapada que convive “bem” com a morte e (in)felizmente está até preparada para morrer. Na Europa e na restante sociedade ocidental, a morte é somente um espectáculo a que todos gostam de se associar. Fica bem dizer que estou solidário com uns atentados na Alemanha, mesmo que não entenda o contexto em que os mesmos ocorreram... afinal, para os canais noticiosos é mais fácil e... barato... conseguir imagens praticamente em directo de todos os acontecimentos cá em casa do que esperar três dias para que os preços praticados pelas grandes agências noticiosas baixem e estes possam adquirir uma versão low-cost do que se passa lá tão longe. Aquela morte espectáculo chega-nos com outro impacte.

 

“A Síria é longe, quero lá saber”... é verdade, mas também é verdade que foi por ali perto que cedo se ficou a conhecer o termo “civilização”. Ou seja, como sociedade que somos devíamos estar gratos por ser ali a nossa génese (como organização de pessoas).

 

Também é verdade e... paradoxal, que num mundo globalizado, onde estamos todos interligados olhemos para esta realidade como... distante... A Síria faz fronteira com a Turquia que por sua vez ocupa também um espaço na Europa e onde em menos de meia dúzia de horas é possível chegar de avião.

 

Morrer na Síria e em massa... ou em muitos outros países não é notícia, não é uma tragédia... nem é uma estatística como diria Estaline, é ignorar... é não existir. Morrer na Europa é diferente, é alguém que morre na nossa casa, é um cidadão que tinha nome, vida, família e um sem número de características que a sociedade ocidental tem e os outros não... os outros não, pensamos nós de forma arrogante... Morrer na Europa é caro, morrer na Síria sai barato.

 

Na Síria morre-se porque sim, não existe uma ideia para dar ao gatilho como dizia Vergílio Ferreira, morre-se sem saber porquê... um tiro, numa conjuntura destas, nunca poderá ser eficaz.

 

Falar da morte de Mário Soares (poderia ser outro) antes do mesmo morrer efectivamente, mesmo que mais de metade dos portugueses não nutram por este grande simpatia, é mais lucrativo e sempre abre mais umas portas do que pensar no que se passa ali ao lado, também em hospitais (hospitais?) da Cruz Vermelha, mas com tanta gente como nós que... humildemente só quer paz.

 

De facto, pensar nas coisas não é algo que se partilhe nas redes sociais, mas talvez permita construir seres-humanos mais atentos à realidade. A verdadeira rede social somos todos nós... independentemente da localização ou do credo.

 

Fonte da Imagem: http://imguol.com/c/noticias/5d/2016/02/06/6fev2016

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19 comentários

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De Maria Mocha a 17.12.2016 às 11:54

Tocas em aspetos muito importantes. Continua a pensar nas coisas e partilha, sim! É importante que haja quem aborde esta (des)humanidade que se vive cada vez mais.
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De Robinson Kanes a 17.12.2016 às 21:53

Muito Obrigado!
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De fashion a 17.12.2016 às 17:23

Excelente post! De facto é pena que a maioria das pessoas não pense e continuem a seguir o rebanho.
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De Robinson Kanes a 17.12.2016 às 21:55

Muito Obrigado!... não penso que seja somente uma forma dos "ovelhoas" seguirem o rebanho. Penso que também tem de partir de cada um de nós, mesmo que sejamos mais um "ovelhoa"...
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De fashion a 18.12.2016 às 00:33

sim, talvez...
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De O ultimo fecha a porta a 18.12.2016 às 11:57

Hipocrisia...
Quando foi os atentados em Paris, as marcas, os media e as pessoas de uma forma geral no Facebook associaram-se à causa (até mudaram a imagem de perfil). Em Aleppo, com vídeos aterradores e desesperados de homens e mulheres à espera da morte, que podíamos ser nós ou os nossos filhos ou pais, a sociedade ocidental assobia para o lado.
É natural que a distância geográfica justifica, mas todos temos direito à paz.
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De Robinson Kanes a 18.12.2016 às 13:30

A distância geográfica, penso, nunca deverá justificar o desinteresse pela perda de vidas humanas, sobretudo numa guerra sem ideias.
Hipocrisia, é sem dúvida um bom ponto de partida para analisar este problema, porque é um problema, não da Síria, mas de todos nós como sociedade.
Será que se fosse permitido fazer selfies em Homs ou Raqqa e partilhá-las numa onda de "solidariedade" as coisas ficariam mais facilitadas? Será que as partilhas, as acções têm algum efeito para além do "eu sou solidário, partilho fotos"?
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De HD a 18.12.2016 às 18:50

A conveniência da solidariedade é repugnante...
Fico revoltado com as ondas solidárias comercializadas ao máximo!!!
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De Robinson Kanes a 19.12.2016 às 07:43

Existe quem veja a "solidariedade associada a uma certa dádiva" como uma espécie de egoísmo, isso daria "pano pa mangas".
Se por um lado, as instituições têm de sair da dependência dos apoios estatais também têm de se reinventar e não obedecer sempre ao mesmo critério... pedir sem mais quê nem porquê. Além disso surge ainda a questão do Empreendedorismo Social e outras abordagens que podem ser muito mais eficientes e com reais impactes naqueles que precisam...
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De HD a 19.12.2016 às 20:05

Decididamente, há pano para mangas no que concerne as verdadeiras intenções desta vertente social!
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De Chic'Ana a 19.12.2016 às 09:43

Infelizmente a Europa olha para a Europa e para quem a possa afetar diretamente. Este acontecimento é tido como distante, quase inexistente.. Mas.. são vidas á mesma, são pessoas com famílias, trabalho, tão iguais a nós..
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De Robinson Kanes a 19.12.2016 às 15:10

E bem vistas as coisas... aqui tão perto.
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De mami a 19.12.2016 às 18:29

amei o teu texto.
é duro de ler, porque é real, é verdadeiro.
atira-nos à cara uma cruel realidade que ignoramos por conforto: é mais fácil não saber!
não lido bem com a estupidez da guerra, com a injustiça das vítimas, com a inatividade das nações (pois há sempre outros interesses que se sobrepõem aos da vida humana).
sou cobarde. fecho os olhos. viro a cara. a impotência cega-me.
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De Robinson Kanes a 19.12.2016 às 19:30

Obrigado!

Viramos a cara porque é mais fácil, quero acreditar que é sobretudo por isso. De facto, a vida continua, não podemos ficar parados à espera que o mundo mude e consequentemente ficarmos por esse afundamento.

Queremos ignorar porque pensamos que nunca nos baterá à porta... mas poderá bater. Pessimista? Pelo que aprendi a estudar História não assistimos a nada de novo.

Não será com manifestações, nem pseudo-concertos de meninos de bem, não será com partilhas nem textos como este que as coisas vão mudar, pois as nossas prioridades continuam e continuaram a ser, neste momento, por exemplo, as prendas de Natal.

Será mais fácil ignorar... mas hoje... um pouco antes destes comentários, o terrorismo vestiu-se de fato e gravata e abateu um embaixador russo num país, não da União Europeia, mas da NATO e da OCDE... afinal as coisas não estão assim tão distantes que não possamos olhar para elas.

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De mami a 19.12.2016 às 23:51

Sei que não estão distantes. Sei que são palpáveis. Sei que acontecem.
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De Robinson Kanes a 20.12.2016 às 15:17

A falares disso e... ontem... bem perto...
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De mami a 21.12.2016 às 20:23

olha ainda agora ... ao ver o telejornal, no meio de uma crise europeia (mundial) empresas de segurança do aeroporto fazem greve... não consigo compreender ou aceitar esta postura (mesmo sabendo que lutam pelos seus direitos)... eles têm eticamente um dever para com os cidadãos!
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De Robinson Kanes a 22.12.2016 às 09:13

Concordo. Confesso que não sei os motivos da greve, pelo que me custa opinar. No entanto, acredito que os serviços mínimos estão garantidos.
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De mami a 22.12.2016 às 09:23

espero que sim... mas é sempre um motivo de stress desnecessário nesta época!

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