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 Peter Paul Rubens, A Virgem - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Uma das tendências, perdão, "trends" (Portugal está na moda mas a língua portuguesa não, esqueci-me desse detalhe) para muitos é utilizarem os filhos como arma de arremesso contra tudo e contra todos.

 

Para estes, ter filhos passou a ser um estatuto tal que quem não os tiver perde o direito de opinião ou, em alguns casos, à própria vida em sociedade - eu já fui filho, já tomei conta da minha sobrinha e sou tio de mais dois! Apesar disso, o melhor do mundo são as crianças, pelo que são aceites gritos, correrias, faltas de educação, é aceite não conseguir estar num restaurante e um outro sem número de privações de direitos porque são... Apenas crianças. Eu fui criança e não me era permitido incomodar quem quer que fosse.

 

Ter filhos é um direito (para alguns uma obrigatoriedade e eu diria até um patamar de status), não tê-los é uma afronta à sociedade, sobretudo se ao invés de um filho tivermos, por exemplo, um cão! Com este dilema lido todos os dias... "Como é possível ter um cão e não ter um filho, não gosta de crianças!". Já me aconteceu ver um cavalheiro com o filho a pedir para que eu me retirasse de uma zona pública com o meu pastor-alemão. Utilizava o argumento de que era um cão perigoso e de grande porte, isto enquanto a adorável criança arremessou duas pedras ao cão (não acertou) e o mesmo ficou sereno... Espero que um dia não precise do pastor-alemão para encontrar ou lhe salvar o filho...

 

Mas uma das questões que mais me agrada é a utilização dos filhos como arma de arremesso contra aqueles que queremos criticar ou denegrir. Amor aos filhos é isso, usar os mesmos como escudo contra aquele indivíduo que não gostamos.

 

Eu entendo que gostar dos filhos é falar do amor pelos mesmos e usar isso contra os outros mas não hesitar em circular a mais de 150km hora com o filho na cadeirinha e o autocolante a dizer "bebé a bordo" ou "cuidadinho vai aqui o meu paizinho" - este último bem mais egoísta e que coloca o filho no lugar de cuidador dos pais. Ou então, amor aos filhos pode ser sempre passar por criticar o "puto Vitor" (hoje em dia Vitor já não se usa, Santiago, puto Santiago ou Mateus) que é "explorado" pelo pai na vinha da família, mas elogiar aquele que coloca o filho na televisão ou explora o mesmo através de um blog... E há quem os explore sem sequer eles aparecerem... E há quem os explore não para ajudar a sustentar a casa mas para se auto-promover e procurar ser aceite por outros seja no mundo virtual ou no mundo real. Amor aos filhos também é dar-lhes um tablet para as mãos disfarçando o "não me chateies" pelo "estou a educá-lo para as novas tecnologias".

 

"Não ande aí com o seu cão, existem aqui crianças" ou "Isto é inadmissível quando há crianças que podem ser influenciadas", ou ainda "esta gente não tem respeito nenhum pelas crianças" ou "desampare-me a loja, mas como não tenho argumento, preciso de fazer chorar as pedras da calçada e influenciar quem me ouve para tomar partido por mim em caso de zaragata, lá vou ter de dizer que é por causa do meu filho e das crianças" são das coisas que mais se ouvem. Isto é o ideal quando existe um grupo de cidadãos com direitos (muitos deles também pais, mas conscientes e sem filhos metidos em bolhas de ostentação)  e nós queremos tirar partido de uma sociedade onde a infantocracia reina e eu tenho todos os direitos e o outro não. É por estas e por outras que defendo sempre a participação do povo na vida pública mas jamais que o poder possa um dia cair na rua.

 

Porque existem bons pais (e muitos) talvez a mensagem seja sobretudo para aqueles que gostam tanto, mas tanto dos filhos que até se esquecem que os mesmos não servem para servir os seus intentos. Começem a falar por vós, mesmo agora que a moda é criticar quem deixa as fezes dos cães no passeio! Eu concordo com a "luta", mas mesmo eu que não gosto, piso muito mais vezes as ditas fezes que muitos. Se andarem por onde eu ando, não só pisam fezes de cão, como de cavalo, bovinos, caprinos e um sem número de bicharada... Até hoje não morri e uma das coisas que o médico disse à minha mãe quando esta me via com as mãos cheias de borbulhas por mexer em tudo o que era porcaria, terra e lixo foi para ela não se apoquentar e deixar andar - nunca tive alergias nem nada que se pareça! E sim: quem tem animais tem também de garantir a higiene pública, e até, em último caso, não dar argumentos àqueles que encontram um "cocó" no passeio mas já dizem que não se consegue circular na cidade - sim, porque por norma são suburbanos (sem ser em tom depreciativo) ou vivem dentro das cidades.

 

Em suma, não tenham medo de dizer o que vos incomoda sem colocar a criança na arena, isso não é gostar do filho, é gostar demasiado de si! Lembrem-se, quando forem comprar brinquedos ou roupinhas caras para os vossos filhos, que os mesmos são, muitas vezes, fabricados pelos filhos de outros. Lembrem-se que quando querem tramar o vosso colega que até vos ajuda, esse também tem filhos para alimentar... Lembrem-se também que quando usam os vossos filhos para ter prioridade, aquele que espera pode ter o filho em casa e que já não vê há dias... É que gostar só do nosso filho, ou utilizar o mesmo contra os outros, ou fazer dele uma espécie de "Rei-Sol" não é gostar de crianças e muito menos ser bom pai e cidadão... É gostar demasiado do seu umbigo, ser egoísta e falso moralista.

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1 comentário

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De naomedeemouvidos a 12.10.2017 às 11:42

Concordo com quase tudo que tu disseste, excepto que há muitos donos de cães que são piores que "donos" de filhos. O meu filho tem completo pavor de cães e uma das coisa que mais me tira do sério é quando alguém com um cão quer, por exemplo, entrar num elevador onde eu e ele já estamos (se formos nós os "de fora", não entramos) e eu digo, desculpe, não se importa de esperar, o meu filho tem muito medo, e me respondem, ah, ele/a não faz mal, como se as fobias fossem coisas racionais e bastasse uma palavra ou uma frase para desaparecem. Os cocós no chão, principalmente nos passeios, ciclovias e zonas do género, deixados por cães com dono, seja um ou sejam muitos, são, para mim, completamente inadmissíveis, mas esta é apenas a minha opinião. Em relação às prioridades de que falas, com crianças, usei-as sempre que pude usufruir desse direito, e não me envergonho. Sempre que pude em situações de obrigação, entenda-se, como repartições de finanças e afins. Não o reclamava se ia comprar coisas supérfluas, mas não critico quem o faça. Porque, se é verdade que há pais e mães que podem deixar os filhos com alguém, eu e o meu marido pertencemos ao grupo de pessoas que não tem o privilégio de viver perto dos pais ou de outros familiares próximos.
No resto, acho que estás coberto de razão

P.S. Acho que nunca escrevi um comentário tão longo Sorry

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