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Empreendedorismo Social não é Dádiva.

por Robinson Kanes, em 26.01.17

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Hugues Merle, Uma Mendiga (Museu d'Orsay)

 

 

Ainda existe a tentação, sobretudo em países da Europa do Sul, de que o Empreendedorismo Social tem de estar ligado à dádiva.

 

A própria "promoção" do mesmo ainda assenta na base do chamado apoio aos mais carenciados tendo, em pano de fundo, os seus próprios promotores que não se coíbem de aparecer como os "salvadores do mundo" e que nada auferem em troca pelas suas práticas - na verdade, não é assim. Não existem almoços grátis e na área social também não! Mas porque é que temos receio de falar nisso?

 

Vejamos algumas conclusões de instituições e peritos que suportam estas afirmações... antes que digam que tenho mau feitio.

 

Hockerts, numa visão mais aproximada da Schwab Foundation traz a ideia de que o Empreendedorismo Social assenta em business ventures com propósito social ou seja, “empresas híbridas que estabelecem ligação entre o for-profit e o non-profit bem como as próprias organizações públicas. No entanto, não encaixando em nenhuma destas três esferas” (Mair; Robinson & Hockerts, 2006:5).

 

Na visão de Perrini, inspirada em Laville, existe uma decisão democrática e participativa levando a que os interesses próprios de um ou mais não condenem a actividade principal da empresa social (Perrini & Vurro; 2006: 64). Para Dees a empresa social não é uma empresa de dádiva até pela forma empresarial que pode tomar, mesmo não visando o lucro primordialmente (Dees, 1998:5) .

 

Já o Institute for Social Entrepreneurs (ISE) define o empreendedor social como “um indivíduo que usa o retorno do seu trabalho para prosseguir objectivos sociais e simultaneamente procura um retorno financeiro e social. Pode ser um indivíduo que esteja, ou não, no sector non-profit (ISE, 2002). Aqui, o espectro alarga-se e finalmente a questão financeira é colocada verdadeiramente em cima da mesa, além disso, a definição vai ainda mais longe ao colocar a hipótese da actividade de empreendedorismo social não estar ligada ao non-profit. É esta visão que, em Portugal, ainda assusta muita gente ligada à "causa social".

 

Também a RIPESS, com vasta experiência, sobretudo no campo da Economia Social e Solidária, apresenta uma visão mais clara e enquadrada com o conceito anterior do que é o Empreendedorismo Social. A empresa social apresenta-se como uma empresa que tem, obviamente um fim social. Gera retorno pela venda que faz de bens e serviços ao invés de depender de financiamentos externos e com benefícios que revertem para a missão social, mais que para os accionistas (RIPESS, 2015). Neste campo, a mesma entidade vem também a apontar para a necessidade de esclarecer que as empresas sociais não podem substituir o Estado em serviços essenciais, como não devem ser um meio de absorção de fundos. Tomando como base a definição da própria organização, estas organizações têm de ser capazes de gerar dividendos por si próprias, não excluindo o suporte de outros mecanismos de financiamento, mas tendo sempre como prioridade a venda de bens e serviços que permitam garantir a sustentabilidade das mesmas

 

Neste enquadramento teríamos verdadeiras organizações empresariais com cariz social a actuar num mercado concorrencial com as demais organizações empresariais e equiparadas não só legalmente mas sobretudo fiscalmente.

 

Contudo, uma nota para o facto deste processo permitir que estas organizações não venham a perder a sua vocação social, mas trabalhem para melhores resultados, menor dependência externa e acabem por gerar um afunilamento que levará à exclusão de muitas instituições que são somente sorvedouros de fundos e cuja eficiência não justifica os elevados investimentos realizados pelos Governos, pelas organizações empresariais e sobretudo pela comunidade civil. Os recursos são escassos e muitos deles não estão efectivamente ao serviço de quem mais deles necessita.

 

Perante muitos paradoxos, a que ainda vamos assistindo... teria Vergílio Ferreira razão quando no seu "Em Nome da Terra" dizia a Mónica que "o maior prazer de quem precisa, é haver quem  precise mais"?

 

Para quem quiser saber mais:

  • Perrini, Francesco; Vurro, Clodia (2006), “Social Entrepreneurship: Innovation and Social Change Across Theory and Practice”, em Mair, Johanna; Robinson, Jeffrey e Hockerts, Kai; Hampshire (orgs.), Social Entrepreneurship e New York, Palgrave Macmillan.
  • Dees, J. Gregory; Haas, Peter; Haas, Miriam, (1998), The Meaning of “Social Entrepreneurship, s.l.; s.n.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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5 comentários

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De Chic'Ana a 26.01.2017 às 10:58

Tenho um amigo que é presidente de uma fundação. O seu fundo de maneio consiste essencialmente em dádivas da Igreja, se eu concordo? Até certo ponto, sim, até ao ponto em que existe uma forte relação entre a fundação e a instituição. Mas, por outro lado, a fundação deveria fazer algo para obter os seus próprios rendimentos, assim, fico com a ideia que é uma parasita.
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De Robinson Kanes a 26.01.2017 às 11:12

Tu o disseste... (como teria dito Judas a Cristo :-) )

Não conheço a fundação nem a área de actuação para tecer algum "parecer", no entanto, entendo a tua visão. As dádivas da Igreja são outro mundo... existem mais fundações, associações e IPSS que organizações empresariais... aliás, costumo dizer a brincar, que são mais aqueles a "ajudar" do que aqueles que necessitam.

Quando o dinheiro/apoio cai do céu (confesso que não pensei no facto do mesmo vir da Igreja) é perfeitamente natural que o desleixo subsista.

Além disso, é interessante ver como são muitas as empresas que não conseguem produzir riqueza porque vivem, em alguns casos, esmagadas por impostos e outros custos e... muitas fundações/associações/IPSS subsistam com excelentes remunerações e outras tantas regalias estatais.
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De Chic'Ana a 26.01.2017 às 11:16

Eu tenho mais do que confiança com ele para ser sincera, e quando as situações me incomodam, tenho mesmo de falar. Já lhe disse várias vezes que não concordo com o modelo de gestão, mas... ele está bem! Tem rendimentos, e muito bons (uma fundação para ajudar os outros a pagar o salário que ele tem é obra), tem tempo livre, tem um emprego de luxo!
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De Robinson Kanes a 26.01.2017 às 11:26

E no final somos todos nós que pagamos isso... a apatia, o desleixo em querer ir mais além, advém do simples factor do dinheiro cair do céu. Além disso, em Portugal, falar de "Social Return on Investment" uma espécie de ROI social ainda afugenta muita gente. Milhares ou milhões ainda são justificação só para alimentar duas ou três pessoas... Um bom cálculo do SROI iria fazer fechar muitas instituições...

Quanto ao teu amigo, espero que ele seja muito feliz a fazer uma vida de luxo à custa dos que trabalham e lhe colocam o dinheiro nas mãos... porque sim :-)

Vai partir de nós, cidadãos, uma mudança de paradigma. Esse é, aliás, um dos motivos que me levou a deixar de "dar" seja para o que for. Quando tenho que ajudar, ajudo pessoalmente, baseado na minha análise dos factos, causas e necessidades...

Temos receio de falar em "dividendos" na área social, mas não temos pudor em alimentar as nossas contas bancárias sob a égide do "pobrezinho que precisa"...

Uma nota: existem também instituições a fazer um bom trabalho.
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De Chic'Ana a 26.01.2017 às 11:28

Ora nem mais! Eu ajudo e sempre ajudarei, mas mais facilmente gasto 100€ em comida para instituições (que mesmo assim não sabemos bem o tratamento que ela tem) do que em 5€ para a Igreja...

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