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É Santo António e Lisboa é Portuguesa!

por Robinson Kanes, em 12.06.17

 

IMG_7918.jpg

 Fonte da Imagem: Própria

 

Aí está a noite de Santo António (quem quiser até tem banda sonora lá em baixo)! Um pouco por todo o país já se festeja este santo casamenteiro e folião! No entanto, vou focar a minha atenção em Lisboa, perdoem-me aqueles que vão estar em Pádua ou em Setúbal - em Setúbal, o Santo António também é um gáudio e sem padrinhos “famosos” que não fazem mais que figura de parvos de um lado para o outro, mas sim com madrinhas que cantam e dão vida ao desfile na Avenida Luísa Todi.

 

As festas de Lisboa têm a duração de um mês, no entanto, é a noite de Santo António o ponto alto das festividades. Pessoalmente, também é a noite em que não vou aos “santos”.

 

Mas como eu adoro esta época, a capital mais bonita do mundo fica toda engalanada, é devolvida aos seus e deixa de ser, por um mês, aquela metrópole do sul para ser mais uma cidade com um toque popular e mediterrânico. As marchas vão percorrer a avenida, bela herança de Leitão de Barros e António Ferro, porque as marchas são obra dos tempos da ditadura, uma forma de valorizar a nação portuguesa, mas sobretudo a cidade de Lisboa. Espanta-me até, como muitos críticos de tudo o que é anterior a 1974 se deixem contagiar por esta vida e por todo espírito que se estende por cada bairro e abracem esta causa com fervor.

 

O Santo António por aqui é festejado com vinho e sangria, deixam-se as boas garrafas e compra-se vinho barato ou daquele que está no fundo do barril... Comem-se as sardinhas no pão, como manda a tradição, assa-se o “chóriço” e o “córato” e as bifanas tendem a cheirar e a saber a sardinha. Caldo verde não é tradição, pelo menos por estas bandas, ao contrário das festas em Lisboa, mas são-no os peixinhos do rio e até os ovos mexidos com tudo o que houver no mercado.

 

Chego a comparar esta época ao Natal, só que com aquela alegria única e verdadeira - sem presentes, sem fretes com familiares que nem nos dizem muito e com o sol a despedir-se só lá para perto das dez da noite. As noites quentes e a lua reflectida nas águas do Tejo fazem o resto. Depois é a música! De preferência música marialva ou popular. É nestas alturas que fico a conhecer os novos talentos da música pimba e consigo ouvir uma música do Toy até ao fim. Cante-se o fado alegre e deixe-se o triste para o Natal. Ai Cristo, que celebramos com tanto formalismo o teu nascimento, mas é o Santo António que nos faz perder a cabeça e entrar na verdadeira festa. Ou então é o profano que se mascarou de religioso... E o profano sempre é mais genuíno e próximo do homem do que o religioso.

 

Nestes dias não entram por aqui as tradições gourmet, os pães com todas as sementes e mais algumas ficam à porta! Também à porta ficam as bifanas sem gordura e fininhas com molho de mel e mostarda de Provence em cama de pão pita de Mikonos. Quem quiser molho ponha mostarda do Aldi! A sardinha? A sardinha é com cabeça e come-se toda! Tenho conhecimento de algumas tendências (tendências!!!) que até tiram a pele à sardinha. Faz-me impressão como é que com tanta formação em paladar, nutrição, chique food, nouvelle cuisine e "cozinha armante"  se tirem as peles à sardinha!

 

As festas de Lisboa ainda são uma herança do antigo regime, de facto, e é desse modo que também são um reforço de uma identidade que se tende a perder na cidade, pois não sou daqueles que coloca tudo o que foi feito anteriormente num caixão, o solda a chumbo e o tapa com betão armado. Lisboa é lisboeta... É alfacinha!

 

Deixemos, para o mal e para o bem, que seja a nossa tradição a vingar, pelo menos nestes dias. Não sejas francesa minha Lisboa, tu és Portuguesa e é assim que tens de continuar... É disso que o teu verdadeiro povo gosta e os turistas também! Carne no pão com molhos estranhos há em todo o lado, mas o sabor da tua bifana só em Marvila e o cheiro da tua sardinha só em Alfama. E até mesmo em Xabregas ou na Graça, em Sapadores ou em Chelas o teu cheiro e o teu sabor não se podem encontrar em mais algum lado. Acho que nem no Parque das Nações, é o que me dizem... Até o cheiro a urina em Santos é diferente do cheiro a urina em Sevilha ou em Roma!

 

É Santo António e o acordeão já entoa as marchas para mais logo!

 

Nota: Não é grande coisa, mas haver festa há! É por isso que os artigos desta semana serão dedicados inteiramente à capital mais bonita do Mundo: Lisboa!

 

 

 

 

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22 comentários

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De Chic'Ana a 12.06.2017 às 10:12

Lisboa mantém uma tradição de anos e anos!! =)
Tem inúmeras vantagens para o comércio, mas nem quero pensar como os moradores dos bairros típicos conseguem sobreviver a um mês de autêntico rebuliço...
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 10:19

Conseguem. Junho é um mês especial na cidade e o espírito também é outro...
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De Maria a 12.06.2017 às 11:10

Adoro esta altura do ano! Abre a época oficial do Verão assim que se sente o cheiro a sardinha (que não como porque tem espinhas)
Adoro a animação "dos Santos". Só já não me apanham é em Alfama, na Bica, etc. por estes dias

E sim, Lisboa é LINDA!
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 11:44

Eu gosto do Verão, mas aquela parte "silly season", não me encanta muito :-)

A cidade vai estar à pinha, mas todos querem tirar a "selfie" por estes dias, é "cool".
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De Maria a 12.06.2017 às 13:49

sim, percebo-te ;) é cool, mas dispenso as "coolices".
Na margem sul também se festeja (até porque a maior parte das pessoas trabalha em LX e desta forma é mais fácil festejar no Sto António do que no S. João). Tenho a parte boa dos Santos sem ser arrastada pela multidão :)
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 14:34

Sim, ao que sei por aí as coisas são mais tranquilas e sem operações STOP na 25 de Abril :-)
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De MJ a 12.06.2017 às 11:29

E nós temos a sorte de ser portugueses, e mais - ó sorte das sortes!:) - lisboetas.
O "retrato" que fazes do nosso Santo António, das festas e autênticidade que lhe são inerentes, a comparação entre a genuidade desta festa com o Natal, é notável. Não há dúvida, o Natal é, em muitos casos, uma imensa hipocrisia.

Depois? Bem, depois ainda conseguiste fazer-me rir com gosto.:) Essa do cheiro da urina em Santos ser diferente do cheiro da urina em Sevilha ou em Roma é de "mestre".:)
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 11:49

Sim, e se tivermos nascido no aviário central ainda mais :-)

O Natal devia ser de festa, mas é sempre algo muito contido em meu entender. Eu gosto muito do Natal, do espírito e das oportunidades para estarmos com os outros.

Então não? Em Santos o cheiro a urina é mais nosso…
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De Fred Somiar a 12.06.2017 às 11:33

Acredito que deva ser uma festa vivida intensamente!
Aqui no Norte é o S. João, que para além de não ter a mesma dimensão, não o vivo com entusiasmo.
Bom Sto. António.
Eterno Sonhador
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 11:46

É pois, mesmo para quem não mora em Lisboa.
Também festejo o S. João, mas aí de modo ainda mais profano e com saltos por cima das fogueiras (não sei porque o faço).
Obrigado!
E obrigado pela visita!
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De Kalila a 12.06.2017 às 14:19

Meu querido Rob, como já deves ter percebido eu sou alfacinha, não de gema, cresci em Cascais, mas nasci em Lisboa. Cabe-me a terrível tarefa de repor a "verdade" dos factos.
"Pois que" essas conotações que estás a dar aos "Santos" não são completamente verdadeiras, visto que o "estado novo" nasceu com a aprovação da constituição de 1933 e data do ano anterior o desfile das marchas populares com o cariz que tem hoje mas... já era tradição desde o século XVIII haver uma marcha por cada bairro, que se visitavam nesta noite e até competiam entre si.
O desfile delas todas juntas só começou em 1932 por iniciativa de um grupo que não tinha grande coisa a ver com política mas sim com cultura, muito embora o regime simpatizasse com eles (Leitão de Barros incluído). Devo acrescentar que esta questão de "simpatia", na altura, dava muito jeito para se conseguir ir em frente, todos os que não eram assim "simpáticos" não conseguiam coisa alguma. O grupo não era fascista mas sim muito inteligente. Devo também dizer que nesse tempo (década de 30) o novo regime ainda era bom , isto é, o país estava de tal forma mergulhado numa barafunda imensa que o que apareceu foi até bom, o despotismo e tudo o que sabemos só veio depois, porque cá neste cantinho sempre foi assim, ao fim de um tempo tudo abusa.
No tempo dos nossos avós os "Santos" resumiam-se às marchas e copos nas tascas dos bairros. Sardinhas também, porque era o mais barato e o povo estava na miséria. Tal como o bacalhau no Natal, a tradição vem da pobreza, o bacalhau era mesmo muito baratinho.
Resumindo, as nossas tradições são de miséria, já viste?
Beijinhos, amigo.
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 14:33

Mas convenhamos que a sua difusão e manutenção se ficaram a dever ao regime… aliás, prova disso são os filmes portugueses da época que vincaram bem essa vertente :-) E… as revoluções não nascem de um dia para o outro. O desfile acabou por ser uma espécie de promoção e exaltação da identidade portuguesa e lisboeta, bem ao gosto da propaganda… Mas sim, de facto já no século XVIII eram uma tradição, "tendes" total razão :-)

Já pois, embora comer bacalhau e sardinhas nos dias de hoje não esteja propriamente ao nível de uma miserável :-)

Eu não diria tanto que a tradição viesse da pobreza. Eu diria mais que vinha de um "status quo", de uma vida que era aquela que seria possível. Se por um lado a fome chegou a ser um facto em Portugal, por outro a abundância repentina com que somos confrontados hoje também nos faz interpretar mal a "fotografia" de épocas anteriores. Pensamos que comer uma sardinha é miséria quando somos confrontados com o desafio do "quem come mais sardinhas numa noite".

Penso que hoje em dia é isso que já muitos procuram: um "tasco" onde comer uma sardinha e beber uns copos de forma descontraída… Além de que nós temos a sardinha, mas em muitos países onde a miséria é uma realidade, o marisco é a iguaria dos pobres :-)

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De Kalila a 12.06.2017 às 14:56

Verdade, amigo, na maior parte da África nem se liga ao marisco por ser tão corriqueiro...
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De HD a 12.06.2017 às 18:39

Hoje é mesmo dia de festarola rija por aí :)
Eu tenho de aguardar até ao S. João ;p
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De Robinson Kanes a 12.06.2017 às 18:49

Sempre!
No S. João, salta por cima do cão!
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De HD a 12.06.2017 às 18:53

Tu hoje estás mesmo empolgado, nice :D
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De Robinson Kanes a 13.06.2017 às 07:58

Aproveitar que "tristeza não tem fim, felicidade sim" :-)
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De Luis costa a 12.06.2017 às 23:11

Não o tinha como tao festivaleiro.
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De Robinson Kanes a 13.06.2017 às 07:58

Tudo nas devidas proporções.
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De Rita a 13.06.2017 às 11:19

Gosto bastante desta altura do ano em Lisboa. Ontem lá fui até à noite de Santos, mas já não fico até às tantas da noite nem tenho paciência para grandes confusões.
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De Robinson Kanes a 13.06.2017 às 11:51

Tem sobretudo piada enquanto as sardinhas ainda reinam...

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