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Do Dia dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 31.10.17

IMG_0672.jpg

Fonte da Imagem: Própria.

 

Independentemente das convicções religiosas, o "Dia de Todos os Santos" é um dia em família e de alguma reflexão que, em Portugal, tende a ficar transformado numa espécie de Carnaval dos Mortos com o toque de "Halloween" ou "Dia das Bruxas". 

 

É por respeitar as diferentes culturas que sou levado a aceitar que esta é mais uma daquelas importações que jamais deveria ter saído dos países anglo-saxónicos. Podemos alegar que também tem raízes cristãs, o que seria discutível porque há quem aponte os celtas e outras tradições pagãs, muito antes de alguém ter decidido criar uma religião! Transformamos tudo numa festa que mais parece um filme de comédia de terceira linha. Querem fazer festas com mortos? Vão ao México, ou então até muitas regiões de África, aí sim vão ver como estas coisas se fazem e com uma componente étnica e cultural digna de registo. Substituir o "Pão por Deus" ou outras tradições mais bem enraizadas por algo forçado e completamente fora da nossa realidade é, no mínimo, triste! Portugal parece estar na moda desde que se transforme numa colónia de importações "baratas".

 

Eu sugiro até que possamos celebrar o "Halloween" em todos os velórios. Pela forma como tenho visto alguns, além de ser um enfado para muitos que só lá estão para ficar bem perante a sociedade, é também uma festa para outros. O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?

 

Recordo-me sempre do "Dia dos Mortos" como aquele dia que era passado em família, com um passeio, mas sem esquecer aqueles que já não estão cá. Não era um dia alegre, não era um dia triste, era sobretudo uma forma de celebrarmos a vida sem andarmos vestidos como se de repente entrássemos no Carnaval de Torres Vedras ou num desfile da "Moda Lisboa". E não, não lhe chamem saudosismo que ainda não estou em idade para isso... Talvez valorizasse o convívio genuíno ao invés dos efeitos distractores.

 

E como é feriado, para o "Dia dos Mortos", nada como uma sugestão! Talvez o meu requiem preferido (esqueçam o de Mozart que é sobrenatural e não entra nestas contas), "Ein deutsches Requiem, Op.45" ou em português "Um Requiem Alemão, Op.45" de Johannes Brahms! Dividido em 7 partes, é a maior obra do compositor, dedicado à sua mãe e também a Schumann. Ao contrário de outros requiem, este baseia-se na tradução da bíblia encetada por Martinho Lutero, um requiem verdadeiramente protestante.

 

 

Admito que me sinto abençoado por já ter ouvido o mesmo ao vivo num Domingo de Páscoa. Na Alemanha, não precisamos de pagar para assistir a concertos porque basta assistir a algumas cerimónias religiosas para ter momentos sinfónicos de uma qualidade que não lembra a ninguém. Um destes locais é a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) em Munique! Ainda hoje consigo colocar a música de Brahms nos ouvidos e recordar aqueles momentos singulares em que nos sentimos a ficar sem ar perante tamanho arrebatamento e força com que aqueles coros e aquelas orquestras nos contagiam e ecoam pelas paredes das austeras igrejas da Baviera.

 

Bom feriado...

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38 comentários

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De Maria a 31.10.2017 às 09:41

Estou a ouvir mas terei de interromper para já... Arrebatador!
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 10:01

Quando chegares ao minuto 16:40 ainda mais arrebatador vai ser :-)
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De Maria a 31.10.2017 às 10:18

A seguir ao almoço será aminha banda sonora.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:12

Não é alegre, mas depois conta...
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De Maria a 31.10.2017 às 17:24

É lindo... lindo...
consegui ouvir agora.

Lindissimo!
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De Marta Elle a 31.10.2017 às 09:54

O Halloween é ( mais ) uma forma de os comerciantes venderem. Em todo o caso, parece-me que só algumas crianças o festejam, os adultos não estão para aí virados.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 09:58

Nem é só por aí... Também nos está a ser impingido.

As crianças de hoje, serão os adultos de amanhã, as mudanças nas tradições e nas culturas não se fazem de um dia para o outro.
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De Marta Elle a 31.10.2017 às 10:08

Os miúdos acham piada a mascararem-se e a pedirem doces, mas não estou a ver que cresçam e mantenham o interesse.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:12

Transmitirão o interesse aos filhos... Mas sim, esperemos que tenhas razão.
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De Sílex a 31.10.2017 às 11:31

Olá, é simplesmente extraordinária. Das inúmeras clássicas, deste e de outros compositores que deixa um arrepio na pele ao ouvir e nos eleva a alma tão alto, que parece ganhar-se asas. É uma sensação que culmina, no rasar.nos os olhos de lágrimas por tanta beleza. Permite e não leves a mal que te cite neste pedaço, por favor:
"...O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?"
Não acrescento ou retiro nada a isto! Chega a ser patético um velório ou um funeral. Sabes que nem levo muito a "mal" que se "adopte" o Halloween, para mim é tão aceitável, ou mais, que o S, Valentim esse, então, uma parvoíce pegada e uma forma de vender e de incitar as pessoas (vais-me perdoar) à cópula como se não fosse bom e se devesse praticá-la todos os dias sem ser num hotel, motel, spa de luxo com morangos e champanhe e eu sei lá que se inventa para "legitimar" o amor. Isto (tudo que envolve o S, Valentim) para mim não é amor nem uma festa para se homenageá-lo ou a quem amamos. Amar não carece publicidade e não é por ir para um resort ou comprar uma jóia cara que se ama. E aqui dava pano para mangas a conversa, mas já disse que um dia enxotas-me farto de mim. Se o Halloween serve para as crianças se divertirem e aprenderem o espírito da partilha (dar e receber) sem se olhar de onde vem e a quem se dá (mesmo por trás de uma máscara) acho bem. Já os adultos... mas porque também não podem extracasar, desde que com respeito e sem lesar ninguém? A vida é tão curta. Devímaos celebrar e agradecer mais vezes! Um excelente dia. Um bom Feriado e uma semana óptima cheia de tudo que te preencha. E obrigada pela tua visita e companhia. Desculpa o testamento vou tentar moderar-me.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:22

Brahms é dos preferidos cá de casa... O "requiem" é qualquer coisa de fantástico, mas também outras obras nos deixam perplexos.

Concordo contigo, só não podemos é procurar eliminar algo nosso para impor o que não é. É óbvio que o outro meu lado acha bem que se dinamizem estes dias com outras actividades e consequentemente gerem algum consumo, no entanto, não concebo que se acabe com algo tão nosso só porque algo descabido e sem sentido algum é "cool"... "Cool" porque alguém se lembrou de dizer que era.

Honestamente, não acredito que o "Halloween" traga qualquer lição de valores aos miúdos.

Celebrar e agradecer mais vezes, eis a questão... Mas em muitos sectores e indivíduos da nossa sociedade (portuguesa), agradecer e celebrar são palavras que não constam no dicionário.

Obrigado eu e sem desculpas. É um gosto ter-te por aqui.



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De Sílex a 31.10.2017 às 11:36

Valham-me, os deuses! Eu queria dizer extravasar, saiu extracasar se calhar fugiu-me a tecla para a verdade. E as vírgulas no S. Valentim, perdoa... já estou cegueta, às 11 e 30 da manhã, vê lá como será logo (eheheheheheheh). Desculpa!
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:23

E quando é o sistema que corrige e depois vamos a ler e exclamamos: "eu não escrevi aquilo!".

Não peças desculpa, não há nada que o justifique :-)
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De Corvo a 31.10.2017 às 12:03

Não podia concordar mais consigo.
A morte quando verdadeiramente sentida por aqueles que perderam entes queridos, não se publicita, não se celebra, não se exibe como se de um troféu se tratasse. Sente-se.
Recordo a minha mãe, nesse dia, estranhamente chorar menos do que nos outros, levar flores às campas das filhas, as minhas duas irmãs, e eu acompanhá-la sempre.
Não pela bebé; tinha dois anos e pouco me dizia, mas a outra, a mais velha, essa dizia-me tudo. A minha protectora, a minha defensora sempre a assumir a responsabilidade das minhas asneiras. A minha mamã só mais velha do que eu dois anos. Querida mana, morta por um estúpido engano do destino.
Penso estar a afastar-me do contexto do post e por isso peço desculpa, mas recordando-a sempre desde há quase setenta anos, quando penso nela mais intensamente perco-me na consciência do meu remorso.
E como não sei mais o que dizer, nem sempre as palavras me ocorrem, termino como comecei.
A morte não se celebra. Recorda-se e sente-se, ainda que chorada com as lágrimas vertendo para dentro.
Um abraço.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:26

Não acrescente mais nada, já acrescentou tudo... Sente-se e partilha-se esse sentimento.
Obrigado pela partilha "Corvo", estou-lhe muito grato pelo testemunho. Recorde os bons momentos, sem remorso...

Um abraço e que este dia seja junto daqueles que mais gosta, mesmo que nem todos possam estar juntos... Também sei o que é.
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De O ultimo fecha a porta a 31.10.2017 às 12:12

Eu não ligo muito ao Halloween, nesta espécie de Carnaval temático de Outono.
A primeira vez que ouvi falar foi no 7º ano nas aulas de Inglês. De lá para cá, cada vez mais fui ao ouvindo falar desta festa no nosso país. Penso que a globalização e a necessidade das marcas em garantir vendas na mid season levaram o consumidor e sobretudo a criançada a entrar nesta brincadeira. No entanto, acho que as pessoas tb precisam de ter momentos para se divertir e há opções para todos os gostos. Este ano, talvez por andar mais atento, sei que há vários trails e atividades outdoor previstas para esta noite. Tudo faz parte do negócio, mas não me choca.
Quanto à critica às pessoas que vão picar o ponto ao cemitério e vão bem apresentadas, é um facto. O sentimento passa para segundo plano. Vai-se atrás da componente social. Outros vão para ver as campas alheias e ter assunto de conversa para os dias seguintes. E isso no nosso país, sobretudo nos meios mais rurais, é mais do que certo.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 12:36

Carnaval de Outono :-)

Sem dúvida, embora eu para ter momentos divertidos não preciso que me digam quando e como :-)

Essas actividades podem ser interessantes, com sorte ainda encontras algumas bruxas no meio da serra :-)

Os velórios passaram a ser:

1- Acontecimento social para ostentar, chorar e mostrar sofrimento ou simplesmente "picar o ponto";
2-Uma palhaçada;
3-"Estava a ver que não, bem vamos ver o Benfica?"

:-)
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De O ultimo fecha a porta a 01.11.2017 às 19:30

Bingo!
Hoje joga o FC Porto :)
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De Beia Folques a 31.10.2017 às 14:16

Um bom feriado.Partilho 100% da tua opinião sobre este tema.
Gosto absorver das outras culturas aquilo que nos complementam, nos melhoram e acrescentam.
O Halloween não acho que nos melhore em nada é um carnaval de Outono como li e coincide com um momento tão nosso como o Dia de Todos os Santos, o Pão por Deus e o Dia de Finados.
Adorei o teu "Ein deutsches Requiem, Op.45" de Johannes Brahms, simplesmente wunderbar. Danke schön.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 15:39

Danke schön... Embora a perita em alemão cá em casa seja a Alemã com cara de Francesa e paixão mediterrânica.

Exaltamos algo destruindo o que é nosso... Aí não posso concordar, de facto.

Obrigado mais uma vez...
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De Sérgio Ambrósio a 31.10.2017 às 15:21

Tenho lido atentamente os teus posts e tenho adorado a forma intensa e apaixonada com que escreves! Muitos parabéns!
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 15:40

Eu é que agradeço a presença e o facto de acompanhares este espaço :-)
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De Maria Araújo a 31.10.2017 às 15:25

Hoje, no cemitério de Braga, passa música de Brahms. Embora não conheça completamente a sua obra, sei que é deste compositor o que ouvia.
Penso que muitas pessoas que por lá andavam a enfeitar ( escrevo enfeitar porque é do que se trata. A maioria das pessoas gasta rios de dinheiro para mostrar que a campa da sua família está mais bonita que a do lado e eu detesto isto. Não vou ao cemitério no dia 1 de Novembro, vou quase de 15 em 15 dias porque quero. Se tivesse de alterar as coisas, era o mesmo sistema dos EUA. Não haviam cá "casas de luxo" , e talvez tirasse a fotos, também), campas, nem se apercebem da música.
E eu que adoro ouvi-la nas igrejas, leva-me para outros "mundos".
À medida que escrevo este comentário, vou escutando este vídeo.
Quanto ao Halloween, não sou de todo contra visto que foi nas escola que tudo começou, de uma forma simples ( os miúdos arranjavam em casa os disfarces mais giros que podiam, muitos sem quaisquer recursos , levavam as abóboras faziam trabalhos giríssimos, concursos alusivos) sem que algum dia se pensasse que viria a ser um comércio.
Sou a favor do Halloween improvisado mas não comprado.
Também, hoje, na rua, vi grupos de miúdos dos infantários que passeavam, alguns vestidos, outros não, o que me fez pensar num mini carnaval, embora este seja mais soft.
Finalmente, os mortos: faço vénias ao seu texto, à sua forma de escrever, e não retiro nada de nada ao que escreveu.
Um bom feriado, Robinson.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 15:45

Há bom gosto por Braga :-)

A arquitectura tumular é interessante, no entanto, para os dias de hoje não sei se já fará grande sentido, até porque as campas recentes, de bom gosto têm pouco. E sim, pessoalmente, prefiro que gastem o que têm a gastar comigo vivo e não depois de morto.

Sem dúvida que as Igrejas são uma óptima sala de espectáculos... Sempre que posso. Por cá já se vão fazendo muitas iniciativas dessas.

"Sou a favor do Halloween improvisado mas não comprado."

Subscrevo e acrescentaria que uma coisa não deveria tirar o lugar à outra, sobretudo quando não há qualquer benefício ou razão que o justifique...

Um bom feriado, Maria.
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De C.S. a 31.10.2017 às 18:17

No dia de todos os santos, no Alentejo, recordavam-se os que já partiram, sempre com muito respeito e alguma tristeza, e às crianças davam-se os Santos, que eram frutos secos da época e romãs. É assim que me lembro do dia 1 de novembro.
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De Robinson Kanes a 31.10.2017 às 18:33

Bem interessante... ;-)

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