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No seguimento de um artigo de 21 de Novembro de 2016 (vide aqui) e como não devo ter que fazer num Sábado de Janeiro, volto a abordar um tema que me interessa bastante.

 

As intervenções ao nível da gestão baseadas nas artes podem assumir um sem número de formas que vão desde o teatro organizacional, workshops de teatro passando pela poesia, pintura, escultura, dança e até formações musicais dirigidas por maestros ou agrupamentos.

 

No entanto, ainda não percebemos o porquê desta importância. O que mudou? Porque são efectivamente necessárias as artes? Serão elas a solução? Será que as artes enfrentam também o dilema de se assumirem como um instrumento de desenvolvimento e sustentabilidade nas sociedades pós-modernas? Destaco alguns pontos, e acrescento outros, com base num estudo de Adler (Adler, 2006):

 

  • O modo como estamos interligados actualmente: o mundo gira de forma tão rápida e está de tal modo ligado que as técnicas de planeamento analíticas e pragmáticas não bastam, bem como uma simples oferta de produtos. É preciso inovar porque eventualmente os MBA como os conhecemos actualmente poderão estar obsoletos.

 

  • Domínio das forças de mercado: o sector privado é agora o grande actor internacional, com cerca de metade das 100 grandes economias a serem multinacionais e não países. Além de que os países estão mais limitados na prossecução de um estado providência. Como então garantir o sucesso da economia actual, garantindo a cidadania activa participativa e livre? A sociedade actual está em construção, é o momento dos artistas se afirmarem nessa construção com inputs válidos e benéficos para todos. Além disso, estes já não trabalham, como em épocas anteriores para regimes autoritários ou Estados tendo de voltar-se agora para o mercado.

 

  • Ambiente turbulento, complexo e caótico: o ambiente controlado já não existe, ou seja a melhoria contínua já não é suficiente. O que hoje é o “último grito”, amanhã estará obsoleto. Existe assim a profunda necessidade de ter o processo criativo em constante movimento dentro das empresas. Não basta gerir, é preciso criar e, não é por acaso que é lugar comum dizer que os artistas tendem a estar à frente do seu tempo. Acresce a questão da organização dentro das próprias empresas que já não funcionam em pirâmide (hierarquia) mas em rede. Também o trabalho “isolado” é neste contexto forçado a ser um trabalho em equipa. Aqui, os artistas podem desenvolver um papel preponderante, senão vejamos uma peça de teatro ou uma orquestra e imaginemos as lições de consistência e sucesso que daí podemos tirar no que concerne ao trabalho em equipa. Uma outra nota para o planeamento que não é mais o que era: improvisar e bem, saber reagir, estar atento são cada vez mais as palavras de ordem. Em tempo real é preciso reagir muitas vezes perante o fracasso do planeamento ou até diante da inutilidade do mesmo face a determinada adversidade. Para tal acontecer, é preciso criar relações entre as equipas assentes na confiança e na interacção. O planeamento sequencial está obsoleto. Quem melhor que um actor de teatro, por exemplo, para passar o conhecimento de como improvisar sem vacilar, atingindo o sucesso da peça?

 

  • A tecnologia reduz o custo da experimentação: mais que experimentar, actualmente procura-se criar, aliás os dois conceitos chegam a confundir-se. É fundamental que o espírito criativo esteja presente, posto que a própria tecnologia já é um garante de experimentação low-cost.

 

  • Sucesso: já não chegam os bons salários ou até o status laboral. São cada vez mais os indivíduos que procuram com o seu trabalho mudar as vidas de alguém, perceber que todo e qualquer acto tem a sua marca e muda alguma coisa. Esse tem sido um dos focos dos estudos sobre motivação no trabalho. Humanizar é preciso. O antigo Presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy já dizia que “se os políticos soubessem poesia, e mais poetas soubessem de política, estou convencido que o mundo seria um lugar melhor para se viver” (Palavras proferidas num discurso na Universidade de Harvard a 14 de Junho de 1956 ainda como senador).

Teria Kennedy razão naquilo que dizia?

 

O estudo de Adler: 

Adler N. J. (2006), “The Arts & Leadership: Now that we can do anything, what will we do?” Academy of Management Learning & Education, Vol. 5, No. 4, 486-499.

 

Fonte da Imagem: www.pixbay.com

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2 comentários

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De Francisco Freima a 15.01.2017 às 10:54

A propósito de as artes se assumirem como um instrumento de desenvolvimento nas sociedades pós-modernas, penso que é viável. Li o post de 21 de Novembro, e apesar de defender a «arte pela arte», existe também lugar para uma mais dirigida ao mercado. Camilo Castelo Branco escreveu livros magistrais e estava condicionado na sua liberdade criativa pela necessidade de ganhar dinheiro, tal como Dostoiévski, que tinha de pagar as suas dívidas. Talvez o que falte actualmente sejam as vanguardas. O marketing, por exemplo, deve muito ao Futurismo.
Quanto à frase do Kennedy, penso que tinha razão
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De Robinson Kanes a 15.01.2017 às 14:25

Concordo em absoluto.

Fugindo um pouco ao tema, pois é algo que pretendo abordar mais tarde, é importantes que os artistas, nos dias de hoje, também se adaptem à realidade... como outros, terão de entender que será necessário tornarem-se empreendedores e procurar financiamento fora da esfera estatal... já alguns o fazem, mas ainda não é a mentalidade vigente.

Indo ao encontro das tuas palavras, refiro que os tempos de Camilo e do próprio Dostoiévski eram tempos mais fechados, mais duros... hoje em dia, ,mesmo estando condicionados por uma realidade diferente, os "inputs" que os artistas podem trazer para as organizações e para a sociedade serão mais bem acolhidos... sem perderem a sua identidade, mas no fundo, estando ligados a uma realidade diferente.

Também acho necessário, contudo, e é a minha opinião, que muitos artistas saiam da "concha" e procurem aproximar-se daqueles que muitas vezes os financiam...

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