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Antidepressivos e Caras de Atum...

por Robinson Kanes, em 08.06.17

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Amadeo de Souza-Cardoso - Promontório cabeça indigo MARES D'OSSIAN Rose orange (Colecção Particular/Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado 2017)

Fonte da Imagem: Própria

 

Porque é que andamos de mal com a vida? Aparentemente olho para o povo português como um povo de bem com a vida, senão vejamos:

 

- o interesse na política e nos destinos do país é baixo, ou seja, não temos qualquer problema em abdicar de direitos tão importantes em prol de quem nos governa. Supostamente, é porque está a fazer um bom trabalho.

 

- uma grande fatia da população viaja, tem casas, automóveis e outros direitos e regalias com as quais os nossos pais nunca sonharam sequer.

 

- os restaurantes estão cheios, os hotéis estão cheios, os bares e cafés estão cheios, gastamos mais dinheiro em telemóveis, televisões e brinquedos para adultos (sem serem eróticos) do que alguns países em equipamento militar ou infraestruturas básicas. E isto não é mau, até é bom para a economia!

 

- somos um povo tranquilo e sempre a dizer que no nosso cantinho é uma paz.

 

- muitos de nós vendem a alma ao diabo e a honra porque afinal não vale a pena perder muito tempo com valores.

 

Mas depois...

02d45587-4af1-45b6-854c-e51803cf824b-large.jpegDepois temos uma das mais altas taxas do mundo no que concerne a consumo de antidepressivos. E não apresentem a desculpa da crise, pois países como a Grécia, a Turquia, Hungria, Estónia ou até a Eslováquia consomem menos antidepressivos que nós! De 2000 a 2015, Portugal foi dos países que mais viu o consumo aumentar na dosagem diária. De cerca de 38 habitantes por cada 1000, no ano 2000, passamos para 95 em 2015 (ver gráfico à esquerda)! Somos, na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), o terceiro maior consumidor. Só somos ultrapassados pela Islândia (afinal os nórdicos não são assim tão felizes, a Suécia está em quarto e a Dinamarca em sétimo) e pela Austrália (os tubarões na água e os crocodilos nos rios, eu entendo). As coisas complicam-se quando a média da OCDE é de 65 indivíduos! Será porque somos fracos a lidar com os problemas? Será que temos dinheiro para gastar então vamos varrer tudo para debaixo do tapete com medicação? Ou será porque estamos habituados a um nível de vida material e emocional que...

 

010f3645-0661-4580-bb7d-2ce0097b58f4-original.pngMas deixemos esta questão que mereceria outra atenção mais profunda. Então e os níveis de felicidade, ou melhor, de satisfação com a vida? Também somos os terceiros, mas a contar do fim! Piores que nós só a Índia e a África do Sul. Numa escala de 0 a 10 estamos com 5! A média da OCDE são quase 7 (ver gráfico à direita)! Interessante que para os nórdicos os antidepressivos trazem resultados - também aqui, continuam no topo da tabela.

 

Eu pergunto, sobretudo tendo em conta as caras de atum que vejo todos os dias: vivemos numa sociedade de aparências? Nunca estamos satisfeitos com o que temos? Andamos a ser enganados? Ou gostamos de ser coitadinhos que é sempre algo que traz vantagens num país como o nosso (desde que os vizinhos e os amigos não saibam)? Um colega alemão, Chairman, responderia a esta questão da seguinte forma: “os portugueses? Podes aumentar o salário de 500 para 5000 euros, daqui a um mês já estão tristes e a dizer que o dinheiro não chega!”. Gosto de pensar que está errado, mas infelizmente são muitas as vezes em que também tem razão.

 

Afinal, o que é que nos fará um pouco, não direi mais felizes, mas pelo menos mais alegres com isto tudo? Porque parece que não são os gadgets (adoro esta palavra, existem pessoas que quando a pronunciam sobem aos céus), os automóveis, as casas, as viagens, as roupas caras, as jantaradas e tantas outras coisas que nos ocupam o tempo e nos fazem até hipotecar o peixe laranja que temos no aquário. E a família, o trabalho, os amigos?

 

Andaremos é mal habituados ou não damos o mínimo valor ao que temos?

 

Fonte dos Gráficos:

Gráfico 01: OECD Health Statistics 2015.

Gráfico 02: Gallup World Poll in Society at a Glance 2016. 

Autoria e outros dados (tags, etc)


66 comentários

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De fashion a 08.06.2017 às 09:15

Excelente! Vivemos vidas de ilusões, sem dúvida!!! Para além disso o enfoque dessas vidas é no material e não no valorativo. beijinhos
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 10:22

Confesso que procuro entender estes números… São vidas camufladas? Será que se "sofre de fartura" como diria o Grilo na obra "A Cidade e as Serras"?
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De Chic'Ana a 08.06.2017 às 10:47

Não tinha a mínima ideia / noção desses valores... Incrível!
Será que os outros países apostam em métodos que não os químicos!? Existem tantas terapias, acompanhamentos que podem ser feitos e que exigem trabalho, mas que fogem ao facilitismo dos quimícos..
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 11:11

Eu sabia que os números eram altos, não sabia que eram assim tão altos… Fiquei espantado, tal como tu.

Os outros países apostam e nós também. Confesso que não tenho fundamento cientifico para o afirmar claramente, mas penso que o problema está mais num modo de vida do que propriamente numa necessidade de terapia, mesmo alternativa.
Efectivamente os antidepressivos também devem ser uma alternativa, mas quando todas as outras estão esgotadas… Os problemas não se resolvem com comprimidos… Os comprimidos podem ajudar a enfrentar, mas não resolvem o problema.

E a verdade é que, não é por isso que estamos mais felizes.

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De Chic'Ana a 08.06.2017 às 11:14

Os comprimidos deveriam ser uma ajuda complementar, um auxiliar a tratamentos mais profundos e intensos, mas não a única forma de tratamento.. Assim apenas estão a disfarçar um mal que se encontra enraízado na pessoa e que de dia para dia vai ficando mais forte..
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 11:41

A pessoa também tem de querer colaborar e, infelizmente muitas vezes não quer.
Dou-te um exemplo com conhecimento de causa: um indivíduo que acha barato comprar um telemóvel por 9o0 euros (nada contra) é o mesmo que acha caríssimo pagar 50 euros por uma sessão num psicólogo. A saúde mental é desvalorizada, acredito piamente que muitas vezes é por não ser palpável e por não permitir que se ostente o "produto".
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De golimix a 08.06.2017 às 10:52

Provavelmente o consumo de anti depressivos justifica a apatia e desinteresse geral. Até se preocupam, e berram no café, mas depois dá muito trabalho reagir mais do que isso. É o marasmo em que deixam os anti depressivos.
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 11:08

Eu até concebo a utilização em situações devidamente justificadas mas temo que muitas vezes não o seja.

E… Por muito que nos custe a aceitar, os antidepressivos podem ajudar, mas não resolvem problemas .-)
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De golimix a 08.06.2017 às 11:11

É preciso saber a origem do que leva a tomá-los. Não a descobrindo volta a cair-se no seu uso. Mas a pressa nas consultas a isso leva.
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 11:38

Nem iria tanto por aí. O paciente também tem de colaborar :-)

A questão está sempre na origem, como dizes. A psicologia tem aí também um papel fundamental (pois não prescreve medicamentos), embora os bons psicólogos sejam cada vez menos. Depois também existem os "coach" e aí temos um mercado onde vale tudo e… muito perigoso.

Depois também acredito na educação. Penso que uma boa educação resolve muitos problemas futuros.
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De MJ a 08.06.2017 às 11:52

Acreditas que esses números não me admiram rigorosamente nada?!
Somos (será genético?) uns eternos insatisfeitos, nunca estamos bem seja qual for a situação.
Os ricos, muitos deles, morrem do vazio que o dinheiro não cobre, não preenche.
Os pobres por necessidades várias, das económicas, a todas as outras inerentes à carência das suas vidas.
Desta insatisfação, deste "fado", resulta essa coisa tão portuguesa: a nostalgia, a tristeza, a tendência para a depressão. E aqui chegados o que resta? O recurso aos "benditos" anti depressivos.
Há como que uma incapacidade em ser feliz, um bloqueio que nos impede de tirar partido de coisas simples, mas por vezes tão gratificantes.
É o nosso fado, nada a fazer.
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 13:32

Acredito, claro!

Eu acho que somos "eternos" insatisfeitos porque provavelmente o meio que nos rodeia tal proporciona. Talvez porque séculos de transformação terminaram com este "homo lusitanus".

Bem, o que é ser rico e o que é ser pobre? :-)

O recurso aos antidepressivos, mas indirectamente (de modo intencional ou não) focaste que a cura é tão simples :-)

Há sempre algo a fazer! :-)
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 12:11

Muito bom,Robinson.
Nunca estamos contentes com nada, mas vamos para as redes sociais aparentar felicidade mostrando os bens que temos, de preferência, melhores que os do vizinho do lado.
A questão está, também, que os médico receitam antidepressivos com facilidade, não sei se porque lhes convém ( as farmacêuticas).
Lembremos, também, que passamos e ainda estamos (um pouco com a arrogância governamental que até recuperamos, e estamos no bom caminho) por uma crise em que os cortes afectaram muitos
de nós.
Eu sofri bastante com isso, mas adaptei-me ao menos que passei a receber, e cumprindo na mesma com os meus compromissos. Não "chorei", como muitos meus colegas, alguns no topo da carreira, tive que me virar.
Contudo, muitas famílias foram-se abaixo. Tudo lhes foi tirado, mas sabemos que muitos faziam vida de ricos.
O que quero dizer com isto, é que, recentemente, notou-se uma recuperação da economia.
O que vejo? Carrões, gadgets fabulosos, roupas xpto, e tudo o que mencionou no texto.
E porquê?
Por que escuto na rádio, na TV nem por isso, porque só a ligo à hora de jantar, a publicidade das entidades bancárias que voltou de novo a aliciar ao consumo.
Já escutou?
Comento tantas vezes para o meu decote: " como é possível a banca estar mal, as notícias são o que se vêem e ouvem, e vem esta gente aliciar de novo ao marasmo dos créditos?"
Penso que o povo português vive do agora. Amanhã, logo se vê.
Depois vem o descalabro e recorrem aos antidepressivos, às baixas médicas, ao pedido de ajuda.
Muito deste povo não aprendeu a viver com as dificuldades.
Eu vivi com elas, não fui, nem sou, pobre, mas fui educada a não viver de excessos.
Beijinho



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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 13:52

As redes sociais, a infelicidade e o narcisismo. Ando a recolher informação cientifica sobre isso. Quem sabe aborde esse tema um destes dias :-)

A medicina ainda olha para o doente como um "objecto", tem de ir mais longe nessa observação. Talvez por aí venham essas prescrições… A neuropsiquiatria, ao contrário da psiquiatria pura já vai mais longe nessa observação.

Eu sofri mais depois da crise. Perdi os meus tempos da "crise" a ajudar os outros e depois da crise fui eu que me "tramei" :-). No entanto, e defendo que, se for de forma honesta, cada um possa adquirir o que quiser, faz-me confusão que depois os níveis de felicidade dos mesmos sejam tão baixos. Claro que aqui apontámos para a questão material, obviamente. Contudo, basta ir à base, a Maslow, para perceber que é preciso algo mais.

A banca ou qualquer outro negócio desempenham os respectivos papéis. Isso não me espanta e é positivo, a economia tem de funcionar, no entanto o consumidor tem que ser mais inteligente e… Mudar isso não é fácil. Em marketing e gestão chocam-se duas abordagens: a de que o marketing muda o comportamento com a do marketing tem que acompanhar a mudança do comportamento. Eu aposto que ambas se devem apoiar mutuamente :-)

Em relação ao viver com dificuldades e, aqui numa visão muito pessoal: não dou nada como certo ao contrário de Pascal que dizia não ser certo que tudo fosse incerto.
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De Maria Araújo a 09.06.2017 às 17:20

Eu não critico quem recorre a empréstimos e ainda bem que os há, senão o investimento não existia.
Pedi várias vezes empréstimos ( casa, carro e outros), mas nunca ultrapassei o limite do valor que precisava.
Desde que nada de grave me acontecesse e que me impedisse de cumprir o pagamento, felizmente, sempre correu bem. Uns meses mais apertados, outros menos, mesmo assim, liquidei tudo antes do prazo.
Também não dou nada como certo, mas antes do 25 de Abril de 1974, os meus pais não facilitavam a vida e as maiores dificuldades senti-as após a morte da minha mãe.
Mas são outras histórias.
Bom fim-de-semana.

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De Robinson Kanes a 09.06.2017 às 18:50

Um dia tem de contar, pode ser que possamos aprender com as mesmas :-)

Bom fim-de-semana.
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De Maria a 08.06.2017 às 12:25

Excelente!!
só fico preocupada com uma questão que colocas: "vivemos numa sociedade de aparências? "
Oh mestre, sábio, supra sumo e ser mais do que perfeito... então não sabes que sim? :(

A familia e os amigos são contactados através de um gadget. O trabalho?... nem se comenta...


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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 13:34

Aparências com retoques de narcisismo?
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De Maria a 08.06.2017 às 13:43

Com um banho completo de narcisismo. Ou, como eu gosto de lhe chamar, Umbiguismo!
pessoas com umbigos gigantes, que giram á volta dos mesmos...
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 14:44

"Umbiguismo" e quando vamos a ver é só cotão (do umbigo). Eu chamar-lhe-ia insegurança, necessidade de mostrar/camuflar.
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De Maria a 08.06.2017 às 15:40

Sim, mas não deixo de achar que é porque o seu "Eu" é maior do que eles próprios. :(
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 17:52

Sim, e quando assim é… Temos más pessoas :-) Aliás, tudo tem o seu limite.
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De Luis costa a 08.06.2017 às 12:49

Os numeros chocam.Mas chocam mais os seus reparos.Nao os perdoe eheheh
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 13:33

ahahahahahah

Não me estou a atirar a ninguém, não me meta em trabalhos ahahahha
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De Francisco Freima a 08.06.2017 às 14:26

Também não sei porquê, calculo que seja difícil avançar uma explicação para tantos casos. O que eu vejo nos Portugueses é uma grande incapacidade de lutar, de irem até ao fim por aquilo em que acreditam. Podem andar tristes e deprimidos, mas ao menos que lutem por alguma coisa, seja na política, no seu local de trabalho ou noutra área qualquer :D
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 14:46

"Lutar" até pode ser uma fonte de ânimo, de dar algum sentido à vida.

A ausência de luta já requer outras coisas. Para lutar também nem sempre é fácil, há coisas cuja luta requer muito empenho e muitas, mas muitas guerras… Nem todos estão dispostos a isso.
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De HD a 08.06.2017 às 18:38

O povo português perfeitamente dissecado em gráficos e comportamentos :)
Desde que haja algum para ostentação e show-off, sempre sob o efeito de fármacos... está tudo na maaaaaaaaaaaior :D
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 19:02

Apesar de tudo é uma estatística. Será interessante deitar os olhos a outras.
Mas sim, é sem dúvida uma grande realidade.

As pílulas salvadoras :-)
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De HD a 08.06.2017 às 19:03

Que já passam de geração em geração... isso sim é muito alarmante :\
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 19:15

Sabes, acho que ás vezes é o não haver tempo para sofrer. E mal ou bem, em muitas situações, o nosso organismo (como um todo) tem o seu tempo de "restauro" e que naturalmente o consegue fazer e praticamente sem sequelas.
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De HD a 08.06.2017 às 19:25

Também quero pensar assim, mas quando vejo os filhos a tomarem a mesma medicação que os pais... já fico transtornado! -.-
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 21:15

É a herança do futuro… Ou do passado...
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De HD a 08.06.2017 às 21:23

Será já uma blood strain heritage? :\
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 21:30

Acho que é mesmo "parvoíce heritage" dos pais.
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De HD a 08.06.2017 às 21:33

Quero subscrever esta tua fórmula: it checks :D
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 21:44

Infelizmente é pouco aceite pela comunidade cientifica. ahahahah
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De HD a 08.06.2017 às 21:46

Experimenta dar um nome mais catchy à 'parvoíce' ;p
...e as farmacêuticas virão ter contigo :D
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De Robinson Kanes a 09.06.2017 às 09:16

ahahahahahah


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De Kalila a 08.06.2017 às 18:56

Excelente post!
Pois bem, os anti-depressivos atacam a depressão, não instalam a felicidade! Criam habituação e dependência e, por consequência, mais tristeza. Que já não sendo depressiva é pelo menos "chata" e desestabilizadora para quem os rodeia e não pode fugir.
Geneticamente, somos "coitadinhos", "pobrezinhos", pequeninos e desgraçados. Começou nos descobrimentos, uma coisa boa mas que desgraçou quem cá ficava meses à espera dos que iam, passando também pelos próprios. Nasceu nos navios a palavra "saudade"...
Dos descobrimentos veio a riqueza mas a má gestão e o absolutismo monárquico mais o terramoto encarregaram-se de disseminar foi a tristeza. O "fado" nasceu no pós-terramoto, depois de se tornar desgraçado um tipo de divertimento do povo que já assim se chamava mas era alegre. Na província quase feudal e nas cidades infelizes pelas enormes diferenças das classes sociais veio pousar o "estado novo" mais a guerra colonial, mais a PIDE e mais tudo o que se sabe. O "fado" ficou cada vez mais triste porque tudo o que fugia ao "canto da desgraçadinha" era reprovado pela censura. Deu-se a revolução mas com a ignorância colossal por anos e anos de obscurantismo não conseguiu de repente tornar as pessoas felizes. E até o próprio "fado" veio a sofrer com isso, de "alma de um povo" passou a outras conotações menos dignas e como o fado é o destino, em qualquer dicionário, o nosso é triste, segundo dizem, porque já faz parte da nossa genética.
Depois vêm os turistas e dizem que somos muito simpáticos e sempre de sorriso pronto... Prestamos vassalagem, que também nos está no sangue!...
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 19:11

Que grande resenha histórica :-)
Sem dúvida um resumo importantíssimo para a discussão.

Sim, realmente os antidepressivos devem ser tomados como qualquer comprimido, com extrema moderação.

Concordo com a questão dos navegadores e das famílias, mas também era um povo que vivia na miséria, nada tinha a perder e, mal ou bem, lá se aventurou. Alguns também o fazem ainda hoje… E ainda bem :-)

A má gestão, aí está o efeito crónico e que nos tornou numa potência sem relevo até deixarmos de ser efectivamente uma potência. A riqueza acumulada com os descobrimentos foi de uma monta tal que parece impossível imaginar como tanto se perdeu. E não falo só de "ouro".

A "província" sempre esteve muito sobre o jogo "estatal". A iniciativa pública, ainda hoje é fundamental para que as pessoas possam aí viver. Existem concelhos que eu acredito que desapareceriam do mapa se os serviços públicos deixassem de empregar e apoiar. Este é um dilema que tem vindo a ser adiado e que tem consequências: baixo empreendedorismo, desertificação e criação de pequenos feudos públicos geridos por homens da política.

Tivemos também a guerra colonial, mas outros países também a tiveram… Aliás, outros países têm um historial de guerra bem maior, além de que passámos ao lado da 2ª Guerra e na 1ª tivemos uma participação "reduzida". Em Espanha irmãos lutaram contra irmãos…

E agora em tom de provocação: será que a revolução trouxe a felicidade prometida? (não me interpretes mal que eu defendo a liberdade).

Também nunca percebi de quererem à força puxar pelo "Fado" triste. Se o de Coimbra é de nos atirarmos ao Mondego em sofrimento, Lisboa, por exemplo, tem fados extremamente animados. Será que somos nós que queremos ver o fado sempre de negro? Se sim, porquê? Ou será que nos querem vender essa lógica e nos nem damos por isso?

Obrigado pelo teu precioso comentário :-)
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 19:13

Leia-se "jugo estatal" e não "jogo estatal".
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De Kalila a 08.06.2017 às 19:43

Estou fora e sem tempo, meu querido amigo, mas cá vai, resumido:
A revolução trouxe euforia e exagero só na altura precisamente porque as pessoas vinham da escuridão de anos e anos de analfabetismo e muito pouco desenvolvimento de espírito. Pecou pelas mesmas razões, não havia cabeças à altura do que era necessário. É claro que foi uma coisa excelente mas exigia todo um outro nível de desenvoltura.
O "fado" explica muita coisa porque acompanhou os acontecimentos e fado é destino. Há toda uma mítica associada, mil explicações para o fenómeno, escrevem-se livros sobre o assunto e chegam-se a conclusões de desconhecimento das origens porque é anti-comercial o que se vai descobrindo.
Tanto a nossa "depressão" é histórica (e o fado antigo por arrasto) que, e aproveitando que estou fora, costumo reparar, por esse mundo fora, que pessoas jovens tratam-nos por igual, sem distinção alguma, e os mais velhos nos tratam como inferiores, sempre! Isto é mesmo gritante em Espanha, França e Inglaterra, nas minhas deslocações em trabalho que costumam ser curtas. No resto do mundo não noto tanto isso e, por incrível que pareça, onde somos melhor recebidos, até pela pessoas mais velhas, é nos EUA e na Suiça (onde não faltam emigrantes portugueses).
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 21:27

E que bom resumo. Com resumos destes quem precisa da íntegra :-)

Também partilho dessa opinião. Foi uma revolução demasiado presa a certos "mandamentos". Contudo, acredito que podíamos ter ido mais longe nessa desenvoltura intelectual. Mas estudando e falando com pessoas do antes e do depois, ainda acredito que essa desenvoltura tarda em chegar… Pelo menos ao seu expoente máximo.

Sim, o "fado" já é quase uma lenda, mas quero pensar que nasceu num ambiente alegre. Sendo do povo, dos cafés e das tascas é estranho vermos o seu lado negro. Além de que o fado tem ali o seu quê de Andaluz que nos remete para o Árabe e aí já estamos a levantar situações que deixam muita gente desconfortável.

Eu confesso, e vou ser muito sincero, que em Espanha e em Inglaterra sou sempre, mas sempre muito bem tratado. Em Espanha, assumo, sou mais bem tratado que me Portugal. Tenho pelos espanhóis um carinho especial por isso mesmo. Embora, assuma que em Portugal os espanhóis enfim…

França, se for em Paris é de fugir, fora nem tanto… Foi das cidades onde mais detestei estar.

Na Suiça senti alguma xenofobia, mas nada que não se consiga ultrapassar. Nos EUA? Somos muito parecidos com eles, estranhamente. Eu gosto dos americanos, do americano comum, embora seja um "mix" de personalidades.

Actualmente não somos considerados, no entanto, Portugal tem vindo a estar na moda e as coisas vão melhorando. Contudo, se lá fora o "show off" tem sido muito positivo, está na hora de arrumarmos a casa, porque estar no topo, nunca é para sempre.
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De Kalila a 08.06.2017 às 22:52

Essas minhas impressões são com as pessoas mais velhas, os que, digamos, têm a História mais presente e são altamente redutores; as pessoas mais jovens são impecáveis, de uma maneira geral e em todo o lado.
Antes do terramoto o fado era uma brincadeira alegre de beberolas e folgazões, quase sempre homens, acompanhados por guitarra clássica, a portuguesa é muito mais recente. O "choradinho" veio com o terramoto e "nacionalizou-se" depois com a Severa. Ela descende de árabes da antiga Mouraria (onde viviam confinados desde a conquista de Lisboa) e de ciganos por parte do pai. As músicas e as letras do que cantava eram da autoria dela na sua grande maioria. Viveu uma vida triste e morreu muito jovem deixando o legado daquele estilo quase até hoje, os amores fatais, a desgraça humana e por aí fora. Era prostituta e correu Lisboa pelos vários bordeis onde trabalhou e onde também cantava. Trouxe aquela moda do fado nos bordeis e, depois de morrer, todas quiseram segui-la. O fado saiu daqueles ambientes pelos fidalgos que os frequentavam e começaram também a cantar. Muitas das fadistas mais antigas foram primeiro prostitutas e conseguiram assim outras vidas.
Já naquele tempo as modas eram como agora e a coisa "pegou". Passou a ser normal cantar-se o fado em todo o lado, em Lisboa.
Quem diz que o fado deriva dos cânticos árabes e dos trechos andaluzes tem razão mas quem fez isso foi a Severa e as suas raízes.
O problema da nossa "pequenez" com os Europeus mais próximos acho que já não se põe, as novas gerações superaram tudo isso, a globalização é um facto e os "velhos" deixaram de ter voz.

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