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 Fonte das Imagens: Própria

 

Após tomarmos um chá na Sala dos Embaixadores, o Zagal convida-me para um passeio pelo complexo. Interessante ouvir este guerreiro que demonstra uma vontade inultrapassável de defender o reino a todo o custo, inclusive encontra-se disposto a matar o sobrinho Boabdil se tal for necessário.

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O Zagal conta-me a história de Boabdil, “El Chico” que à nascença trouxe marcada a queda do reino. Fala-me das indecisões e da aproximação ao reino de Castela a que também fui aludindo ao longo desta aventura. É alguém apaixonado pelo seu povo e isso nota-se pela forma como trata os guardas do palácio, com um respeito e nobreza tais que ficamos sem saber quem é o verdadeiro Governador do Reino.

 

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Saímos da Sala dos Embaixadores e caminhamos um pouco. O Zagal, perante a minha admiração e encanto com aquela infraestrutura, olha-me e esboça um sorriso – estranho vindo de tão nobre e duro guerreiro – penso que aprecia esse meu encantamento.

 

É lado-a-lado que entramos no Pátio dos Leões, o símbolo máximo do apogeu da Dinastia Nasrid a grande herança de Muhammad V, a conclusão e mescla de todos os estilos do Alhambra num local mágico. Este pátio, que fica ao centro do Palácio dos Leões, tem a sua linha de água que alimenta uma fonte mágica suportada por majestosos leões que a guardam dos mais ousados usurpadores.

 

Fico sem palavras e confesso ao Zagal que fiquei a entender o porquê deste lutar com toda a sua força na defesa de Granada.

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Abdicar de tamanho tesouro seria uma tremenda loucura.

 

As salas que ladeiam o pátio são algo que nos transporta para um outro mundo, que nos fazem sonhar e indagar se estaremos mesmo no planeta terra ou na Ásia.

 

Sou levado para a Sala dos Reis, o Zagal percebe que tem de me puxar pelo braço, tal o meu espanto, mas aí... espera-me outra grande surpresa. As pinturas, a planta longitudinal e a imaginação a permitir-me vislumbrar as recepções que ali teriam lugar, os turbantes, a mescla de vestidos e a habitual agitação e simpatia daquele povo. Contudo, sou alertado pelo Zagal... diz-me que nem tudo é tão belo, posto que, foi no Pátio dos Leões que muitos perderam a vida em disputas dinásticas e intrigas palacianas. Alerta-me, aliás, que estamos prestes a entrar numa das mais importantes salas do Palácio dos Leões: a Sala dos Abencerrajes. Conta-me o Zagal que foi aqui que ordenou a ida do irmão, Abén Hacen, para Salobreña e que, também foi aqui que teve grandes disputas com o sobrinho Boabdil.

 

O que o Zagal não me confessou, foi que ele e o irmão haviam sido os responsáveis pela morte da família dos Abencerrajes por serem uma família forte e poderosa do reino e também por serem uma ameaça à governação destes, sobretudo depois da revolta de Málaga em 1469. Todavia, esta é uma discussão que ainda hoje perdura, pois Irving, nos Contos de Alhambra, afirma que o assassinato foi ordenado por Abu Nasr Sad, conhecido como (Ciriza). Diz-se que, à época, o sangue dos mortos foi tanto que tingiu a transparente água do Pátio dos Leões de vermelho...

 

Noto a respiração do Zagal a acelerar e uma certa dureza no rosto, pelo que agora sou eu quem o guia para a Sala das Duas Irmãs.

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Aqui nos sentámos a contemplar o espaço, sobretudo a cúpula moçárabe que se desenvolve com base no conhecido Teorema de Pitágoras.

 

O silêncio passou a reinar, ambos ficamos perdidos nos nossos pensamentos, o Zagal a pensar no futuro do seu reino, ou talvez no triste episódio que não me relatou e eu... eu fiquei a tentar reconstruir esse acontecimento tendo como base a pintura de Marià Fortuny que se encontra no Museu Nacional de Arte da Catalunha e que não é nada mais nada menos que “La Matanza de los Abencerrajes”.

 

 

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-conversa-com-o-zagal-na-sala-dos-25527

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29 comentários

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De Chic'Ana a 21.03.2017 às 09:24

Mais uma viagem histórica, acompanhada por imagens fantásticas!
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 09:28

Obrigado, tenho de dizer ao Zagal que preciso de continuar a aventura, mas ele tem sido muito simpático :-)
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De Sónia Pereira a 21.03.2017 às 09:55

Que edifício magnífico. É impossível não se acabar a trocar conversas com habitantes do passado em locais assim. São túneis do tempo.
A cúpula da sala das duas irmãs é surprrendente. Tenho mesmo de visitar esta zona. Só pelas fotografias e relatos que nos tens dado dá para perceber que estes são mesmo "o meu tipo de sítios".
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:14

São verdadeiros túneis que pegam e nós e não nos deixam fugir.

Acredito que sejam mesmo o teu estilo. A cúpula é somente uma de muitas. Tenho alguns pormenores, honestamente prefiro os pormenores, que me deixam sempre fascinado. Para quem quer ir picar o pinto o Alhambra é interessante, mas para quem quiser ficar a percorrer cada canto, cada história, cada detalhes (como aquela cúpula) bem que prepare uma manhã ou mais :-)
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De Rita PN a 21.03.2017 às 10:04

Sobre o segundo parágrafo: "A nobreza do espírito, com respeito àquela tradicional, oferece-nos a vantagem de podermos atribui-la a nós mesmos." (Musli)

Sobre a matança e o poder, já desde os tempos ancestrais que assim o é. São indissociáveis. Inevitavelmente, onde existe ganância, poder ou luta pelo mesmo, existem, por consequência, mortes.
É certo que a forma de matar foi evoluindo com os tempos e tomando diferentes formas.
Dos banhos de sangue em batalhas, ao serviço traído que mata a tiro ou a golpe de espada, ao holocausto, às carnificinas, passando pelos atentados e indo ao encontro da religião, das ditaduras e não podendo deixar de falar na forma, mais digna se é que assim a posso apelidar, como também as democracias matam o povo. Se nuns regimes falta liberdade, noutros há quem a tenha de mais, o que cria as desigualdades sociais que tão bem conhecemos, causa pelas quais muitos, aqueles que pouco ou nada têm, morrem. Por vezes sem condições para morrer.

As imagens deixam-me cá com uma vontade de viajar... :-)
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:16

E é o resumo perfeito do parágrafo…

A luta pelo poder, as diferentes facções e alguma cobardia de Boabdil são apontadas como uma das razões que mais alimentou a derrota de Granada. É óbvio que a força de Castela e dos Cristãos e alguma falta de apoio por parte do Norte de África, nomeadamente de Marrocos, Orão e Egipto ajudaram também.

Hoje mata-se à distância, e é disso que tenho "medo"…

De Beja nem fica assim tão longe...
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De Rita PN a 21.03.2017 às 14:01

O mundo, ou uma parte dele, infelizmente ganhou a capacidade de adquirir o poder e o conhecimento necessários à auto destruição. O fim cabe numa só palavra: urânio.

Sim, é relativamente perto. É daqueles passeios que caso se proporcionem faço questão de fazer. Quando era mais novinha, a minha mãe fez questão de me levar a mim e ao meu irmão a conhecer Portugal e a nossa história de lés a lés, assim como nos mostrou do Sul Espanha, tudo o quanto lhe foi possível. Recordo sobretudo Mérida. Eram outros tempos. Hoje em dia já não seria possível nem um terço das viagens. Dou graças pelo privilégio que tive e pelo carisma da minha mãe que desde cedo e sozinha fez de nós quem hoje somos.

Agora é a minha vez de fazer pela vida para conseguir ser eu a levá-la a ela!
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 15:30

De facto, mas o Urânio não tem um efeito nefasto a não ser que alguém…

Palavras bonitas, sobretudo as últimas! Parabéns!

Mérida não gostei tanto, confesso, embora admire o património , obviamente… as cegonhas e o novo museu.
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De Rita PN a 21.03.2017 às 15:59

... que alguém faça uso indevido do poder.

O meu irmão não muito (aqui não corro o risco de ele ler isto), mas a minha mãe e a minha irmã são as melhores companheiras e companhia que posso ter. Se não fizer por elas, não o farei por outro alguém.

Como te digo era pequena, mas lembro-me do quanto me senti minúscula perante as ruínas em Mérida. Depois sentei-me a imaginar como seria viver naquele tempo. Criei personagens e ali fiquei um bom bocado. Nunca mais me esqueci disso. Na altura já era um Alian :-)
Se lá voltasse agora não sei se teria o mesmo impacto. Talvez não. A capacidade de nos impressionarmos também vai crescendo connosco, vai-se moldando connosco e tornando-se mais exigente. Há coisas bonitas, mas depois deparas-te com as arrebatadoras e nada volta a ser igual.
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 18:30

Aí está…

É interessante aferir desse carinho e com a abertura que o trazes aqui.

És como eu, colocas o pés num local e começas logo a imaginar, a viver, a viajar no tempo. Sim, de facto Mérida tem um interesse fantástico nos monumentos romanos. Adorei, e é uma recordação que me fica, as cegonhas no aqueduto. Acredito que teria o mesmo impacte, não só pelo local em si, mas pelas memórias que tu própria guardas. Costumo dizer que os locais até são bem mais interessantes à terceira ou quarta visita.
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De Rita PN a 21.03.2017 às 20:19

É tão bom quando não perdemos a criança que fomos! A capacidade de sonhar, de imaginar, de viajar, de criar... O que é a vida sem sonho e criação?
Talvez. De facto não sei. Há lugares que sim. Já regressei muitas mais vezes e o deslumbramento continua a existir. A alma de cada lugar também fala por si. Como exemplo deixo-te o Porto. Muitos são os que não gostam, eu desde o primeiro dia que fui alvo de uma paixão avassaladora por aquelas ruas, por certos detalhes, pelas histórias que imaginava que ali se podiam ter passado. Lá está, eu não consigo olhar para uma casa e ver só uma casa. Se não lhe souber a história, crio-a na minha cabeça. O mesmo acontece com munumentos, recantos, ruas e travessas.
Madrid foi igual e Barcelona então não vou descansar enquanto não regressar.

http://contame-historias.blogs.sapo.pt/a-ti-porto-11124

Mas por estes teus capítulos de história é notória essa capacidade e ousadia de sonhar e chegar mais dentro. Citando mais uma vez Afonso cruz no Flores "entremos mais dentro na espessura".

Grande beijinho Robinson.

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De Robinson Kanes a 22.03.2017 às 09:10

Conheci o Porto através das pessoas… o meu conhecimento da cidade deu-se sobretudo no contacto com as pessoas, no viver a cidade sem estar nas grandes atracções. Vivi os arredores de Espinho até Esposende e de Gaia até Amarante (se é que se pode chamar arredores)… confesso que gostei, mas… mais que o Porto é o Douro e aí sim é magia…

Excelente homenagem ao Porto, é uma cidade com o seu encanto e nesse aspecto, também singular.

Um beijinho…

P.S: Madrid e Barcelona são outros mundos :-)
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De Maria a 21.03.2017 às 10:22

Obrigada pela viagem... :)
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:17

Obrigado eu pela visita!
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De a mãe dos PP's a 21.03.2017 às 10:45

Muito bom
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:17

Obrigado minha senhora :-)
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De Marta Elle a 21.03.2017 às 13:31

O palácio é lindíssimo. Desconhecia a sua existência.
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:49

Está dentro do complexo do Alhambra. Sim, de facto é uma lição de história árabe na Península Ibérica.
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De fashion a 21.03.2017 às 13:45

Uma viagem maravilhosa por entre palavras e imagens.
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 13:49

Obrigado :-)
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De Rita a 21.03.2017 às 17:24

E lá nos deixas tu avidamente à espera de mais :P
A cúpula é mesmo impressionante, gosto muito.
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 18:31

Obrigado! Sim é lindíssima, uma forma de trabalhar singular…

Espero que o Zagal me liberte para continuar a história :-)
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De HD a 21.03.2017 às 18:41

E continua a aventura :)
Deves ter um álbum de fotografias daqueles que tens de copiar entre discos e DVD's ;p
Assegurando!
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 19:37

Um disco rigido e um outro como "backup", nunca se sabe. As fotografias ajudam-me a trazer um pouco, embora sejam os olhos e a mente que o permitem. Além disso, aqui é uma aventura, e procurei ligar ao livro os diferentes locais que já conhecia.
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De HD a 21.03.2017 às 19:39

Mas claramente se apercebe da qualidade e sentimento dos registos.
Guarda-as em triple backup :D
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De Robinson Kanes a 21.03.2017 às 19:40

Acreditas que já pensei nisso?
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De HD a 21.03.2017 às 21:17

Acredito sim. As minhas memórias mais preciosas estão assim salvaguardadas ;)
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De Kikas a 21.03.2017 às 21:48

Mais uma viagem e uma história espectacular, como só tu a sabes contar Robinson :)
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De Robinson Kanes a 22.03.2017 às 09:06

Volta e meia lá me fazes corar :-)

Obrigado…:-)

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