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A Pensar Vergílio Ferreira....

por Robinson Kanes, em 27.10.16

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Lembro-me, mais uma vez, dos 100 anos de um dos romancistas e ensaístas máximos da nossa escrita: Vergílio Ferreira. 

 

O escritor que para muitos é recordado pela Aparição, a obra do “eu”. No entanto, cingir a obra deste a Aparição é mais que redutor.

 

Também me lembro, há uns tempos, de numa reunião de trabalho em que, após ter enviado um incentivo aos meus colaboradores acompanhado de uma citação de Vergílio Ferreira, tenho uma daquelas conversas com um daqueles indivíduos (cinzentos?) que encontramos na nossa vida profissional e onde sou confrontado com a seguinte afirmação: “Deves ter a mania que sabes muito. Aqui, isso vale zero e digo-te já: não gosto de Vergílio Ferreira!”. Na verdade, não temos todos de gostar do mesmo, caso contrário eu teria respondido: ”bem... também não gosto de si”. Aí o bom senso desaparecia sob a forma de palavras e acabaríamos numa cena de pancadaria onde um de nós seria mais louco que o Carolino enquanto o outro tomaria a forma masculina de Sofia e acabaria morto às mãos do primeiro (Vide a tal Aparição...).

 

Questionei o mesmo acerca do conhecimento da obra do autor e eis que este me diz que tinha lido “esse gajo” na escola.

 

Gajo! Segundo os dicionários da Porto Editora gajo é: pessoa incerta cujo nome não ocorre ou não se quer mencionar, sujeito, fulano, indivíduo, tipo ou então em tom mais pejorativo indivíduo velhaco, astuto, espertalhão, finório. Caramba, gajo pode ser um indivíduo finório... estamos sempre a aprender e doravante olharei para o conceito de outra forma: “aquele gajo é tramado, quem diria... o finório!...”.) Nada de novo. Indaguei: “Aparição?”. Resposta afirmativa. Questionei se tinha percebido a obra, pois nem eu a percebi numa primeira leitura ainda na minha juventude. Fiquei a saber que não a conhecia, pois escapou à leitura e com sorte no exame lá teve aquele golpe de sorte e não escolheu o Vergílio.

 

Fez-me lembrar aqueles pessoas que dizem não gostar de cabeças de peixe, mas depois provam e... voilá! Até aquela parte mais gelatinosa toma outro gosto. Não? Experimentem cabeça de mero, divinal, ou a de um pargo mulato se estiverem num navio em plena costa da Mauritânia e este tiver sido acabado de pescar. Que andaste a fazer na Mauritânia num navio de pesca de arrasto? Boa pergunta, mas fiquem com ela, não tenho assim uma tão vasta e influente rede de contactos que me permita escrever artigos em revistas e dar um colorido a experiências marítimas que de... colorido têm muito pouco... ou talvez até tenham, a pensar...

 

O Vergílio, sim... Hoje já me alonguei tanto que depois temo adquirir um discurso tão lamacento que vos faz ler outros artigos mais motivacionais. Já chegaram aqui? Haja paciência. Contudo, concluo dizendo que em Vergílio Ferreira encontramos talvez alguns dos antídotos para tornar o nosso quotidiano, em trabalho ou não, em algo mais produtivo, quer em rácios de produção, quer em rácios de satisfação pessoal, senão vejamos:

 

"Não tenhas pretensão de ser inteiramente novo no que pensares ou disseres. Quando nasceste já tudo estava em movimento e o que te importa, para seres novo, é embalares no andamento dos que vinham detrás. Nas provas de atletismo, em que se passa o testemunho, quem recebe esse testemunho tem de estar em movimento, que é o movimento de quem o passa. Senão ele passa e tu ficas e quando enfim o alcanças, partes já atrasado”(in Pensar, edição Quetzal de 2013, vide pág. 186).

 

A pensar...

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2 comentários

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De Sr. Solitário a 27.10.2016 às 18:39

Nunca li um livro dele...
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De Robinson Kanes a 27.10.2016 às 20:11

Recomendo. Não é um escritor fácil, sobretudo para quem não conhece. Tem duas fases, uma neo-realista e uma mais existencialista. Acho que é uma boa sugestão de leitura, porque não começares pelo Até ao Fim. Atenção que é pesado e não é uma literatura de algibeira. Acho que vais gostar. Se leres vai falando sobre o que achaste.

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