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A Nova "Trend": Barrigas de Aluguer.

por Robinson Kanes, em 19.07.17

IMG_2110.jpg

 Adoração do Menino - Filippino Lippi (Galleria degli Uffizi)

Fonte da Imagem: Própria

 

Falar de incêndios já não é cool. E quando o tema já não vende revistas, jornais ou visualizações nada como ir buscar temas que vendem muito, nomeadamente a homossexualidade e agora as trendy "barrigas de aluguer". Homossexualidade, para mim, é um tema gasto, perdoem-me mas qualquer dia até me sinto mal por ser heterossexual. Ou sou eu, ou então algo se passa, dos muitos amigos(as) que tenho com uma orientação sexual diferente da minha não me recordo de perdermos muito tempo a falar do tema.

 

Mas as "barrigas de aluguer"... Primeiro, é triste perceber que foi preciso um jogador de futebol "comprar filhos na Amazon" para de repente toda a gente se lembrar que esta prática existe. Caríssimos, é uma prática com séculos e ninguém descobriu a pólvora, aliás, um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

 

Mas tanto se fala de "barrigas de aluguer"... Pelo que, voltemos aos moralistas do politicamente correcto, sempre a defender a liberdade e ao que diriam se encararmos essa prática como a venda de seres-humanos? A verdade é simples e crua: estamos a mercantilizar seres-humanos! Podemos concordar ou não, mas aí temos de ter muito cuidado quando apregoamos leis morais, éticas e humanas, mas depois defendemos esta prática. 

 

Vejamos também outra questão e que alguém por aí (alguém a quem nem dou grande importância, mais foi exímio na análise) falou, que é a questão dos impostos? Ora, se existe uma compra, como é que são calculados os impostos? Como é que eu, que tenho um estabelecimento onde vendo bifanas e Sumol de Ananás, fico quando tenho de pagar dezenas de taxas e quem vende crianças não está sujeita a impostos? Mas é uma criança, um bebé, como é que se pode falar de impostos, questionarão! Todavia, não temos pejo em defender o comércio de seres-humanos que só não é tráfico porque, em alguns casos, já se encontra legislado. Não é diferente da criação de leis que regulem o tráfico de droga, e aí passamos a ter um mercado legal... Mas é "trendy". Até nos damos ao luxo de atacar as pessoas que vão buscar filhos a África, no entanto, já achamos bem se forem por encomenda e full extras. Ficamos chocados com a mulher que vende o corpo por sexo, mas não ficamos tão chocados se vender o feto...

 

Hoje é "trendy" mercantilizar seres-humanos e sob a capa do "trendy" têm sido cometidas algumas atrocidades que nos fazem estar a atravessar uma crise de valores e de comportamentos, mas mais que isso a sofrer de uma espécie de arregimentação pela incapacidade de aliar o bem da liberdade à virtude da tolerância. E aí, Huxley rapidamente nos demonstrou que o resultado desse arregimentação só poderia ser uma grande infelicidade! Eu só espero que comece a ser "trendy" criticar a corrupção e a injustiça, aí sim, deixarei de ser um indivíduo fora de moda.  

 

Finalmente, algumas questões que irei abordar amanhã: nesta sociedade do ter, doa a quem doer e custe o que custar, não estaremos demasiado focados na importância do ter ao invés de nos focarmos na mentalização do não ter? Do saber viver sem ter? Poderão também dizer que é egoísmo da minha parte, mas quem é o egoísta? Não faltam crianças em dificuldades no mundo inteiro e se formos por aí, há muito que superámos a capacidade de carga do planeta, pelo que se dispensam mais seres-humanos, já em 1798 Malthus o dizia no seu "Ensaio Sobre o Princípio da População". Passaram mais de 200 anos e ainda nos custa pensar nisto... Além de que, por muito que não queiramos ver, cientificamente, a sobrepopulação é uma das grandes ameaças ao futuro da Humanidade.

 

 

 "Trendy": algo que está na moda. Algo que é forçoso que esteja na moda...

 

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49 comentários

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De Luis Costa a 19.07.2017 às 11:41

Até me admira o seu blogue ainda estar ativo com tanta gente deste mundinho a engolir em seco. Mais uma visão contra a corrente que tanto se promove por aqui.
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 12:13

Luís, isso é dar demasiada importância à minha pessoa :-)

Gosto mais de ouvir do que andar pela rua com tudo ao léu à espera que reparem em mim :-) acho que se chama a isso "low profile" :-)

Obrigado, contudo, por me ir seguindo. É este fim de semana que vai à Bordeira?
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De Luis Costa a 19.07.2017 às 14:43

Então segure esse low profile que já há muito barulho.
Vou em Setembro com a familia.Ainda tem mais sugestões?
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 15:09

Sempre…

Penso que sim, devo falar nisso lá para a próxima semana, tenho de me sentar a escrever. Aconselho vivamente o passeio a pé ou de bicicleta da Bordeira até ao Amado, claro… Se a família estiver em forma, mas olhe que também não é nada do outro mundo.
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De Mamã Silvestre a 19.07.2017 às 14:38

Ora ai está mais uma bela análise de um tema já antigo mas que só dá que falar por ser moda!
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 15:08

Obrigado :-)

Amanhã conto desenvolver o lado mais psicológico da situação.
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De Kalila a 19.07.2017 às 17:51

«um dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer"» - esta é de mestre, amigo, adorei!
Estes fenómenos de massas opinantes talvez sejam só manifestações de júbilo pela descoberta da novidade das redes sociais porque nestas coisas há sempre retardatários que tendem a exagerar tudo por défice daquele quociente que se mede com triângulos e quadrados, é portanto uma questão geométrica.
E, de geometria falando, o certo é que há muito mais quadrados do que seria de supor!
Beijinhos, Rob.
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:19

O nome dado é que foi diferente e ficou "Imaculada Conceição".

As redes sociais estão longe de ser um barómetro, o problema é que quando nos querem fazer acreditar que o são e aí tudo muda de figura.

Eu já ía numa de rectangulares :-)

Beijinhos
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De HD a 19.07.2017 às 18:14

Ui ui ui... trends são de facto forçados pelo sistema!

Quanto ao aluguer deste tema, não é a minha preferência encomendar artigos e recebê-los por transportadora, quando posso sair a pé e visitar o comércio de rua ;p
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:19

De facto…

Tu não sejas maroto… ahahahahahah
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De HD a 19.07.2017 às 18:22

Eu maroto?! :)

Sempre apoiando o comércio tradicional xD
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:24

Segundo consta, o mercado mais antigo do mundo...
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De HD a 19.07.2017 às 18:26

Sim, é o que sempre ouvimos dizer O:)
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:28

Ainda vão dizer que estamos a ser reaccionários...
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De HD a 19.07.2017 às 18:31

Já começaram a dizê-lo...
Mas hão de reconhecer a nossa ilustre maçonaria ;)
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:32

Já?

Aviso já que não fundo partidos, estão demasiado sujeitos a influências e ficam parados no tempo.
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De HD a 19.07.2017 às 18:34

Shhhhhh... deixa essas ideias para a reunião secreta :D
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:35

Ainda não reservei o espaço, mas ao que sei a "Tasca do Zé Mau" está apta a receber-nos.
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De HD a 19.07.2017 às 22:15

E ainda falta decidir a indumentária e o brasão :D
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:24

Tenho um avental do "Benfica" e um logótipo de uma organização falida que podemos utilizar.
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De HD a 20.07.2017 às 20:34

Meio caminho para o sucesso maçónico ahahaha
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De Robinson Kanes a 19.07.2017 às 18:33

Claro que a nossa ilustre "maçonaria" é outra coisa...
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De Maria Araújo a 19.07.2017 às 20:13

" dos empreendimentos mais bem sucedidos da História, o Cristianismo, começou com uma "barriga de aluguer".

Uma frase muito inteligente.

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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:28

A "Imaculada Conceição"...
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De Maria Araújo a 20.07.2017 às 12:03

Eu sei.
A minha avó materna era-lhe muito devota.
Mas lembremo-nos que Senhora, a Imaculada, há só uma.
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 13:34

É o que dizem… É o que dizem… :-)
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De Marta Elle a 19.07.2017 às 21:15

Um destes dias, estava a dar um programa sobre o assunto e falavam de casos que correram mal.
Num dos casos, a barriga de aluguer ficou grávida de trigémeos e os pais biológicos quiseram que ela abortasse um deles. Ela cedeu. Quando teve os miúdos, os pais já não os queriam porque se tinham separado.
Noutro caso, a barriga de aluguer resolveu ficar com a criança e ainda exigiu pensão de alimentos ao pai biológico.
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:28

São situações que acontecem e, somente baseado no que tenho ouvido, não são assim tão pontuais. O problema é que os defensores de um lado e de outro tentam sempre ocultar algumas questões.

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De Marta Elle a 20.07.2017 às 11:24

Eu acho bem existir essa opção, mas é óbvio que dá origem a confusões.
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 13:34

Por norma...
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De fashion a 19.07.2017 às 21:57

Excelente reflexão que me suscita vários pensamentos: 1º Ter um filho e priva-lo (à partida) de um pai ou de uma mãe não será egoísmo 2º Te-lo com um pai ou com uma mãe que não se gosta só para poder ter um filho não será egoísmo?
3º Ter filhos sem ter vocação só porque a sociedade acha que se deve ter não será egoísmo?
4º Não será o trendy um oposto da alteridade e do amor ao próximo???
Enfim... não sei...
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:26

Agora é que colocaste várias questões interessantes…

Além de que parece-me que em muitos pontos "estamos" a querer algo e o seu contrário. E é também com essa tua observação que nos desviamos das afirmações do Prof. Gentil Martins que cometeu um erro, em meu entender, que foi colocar o foco da questão no ser-humano como um corpo sem um contexto social. Em relação ao demais que foi dito, penso que já muitos se encarregaram de comentar. Honestamente, no ponto cientifico, terá sido aqui que falhou.
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De O ultimo fecha a porta a 19.07.2017 às 22:37

A mim não me choca uma barriga de aluguer.
Não prejudica ninguém, faz o ser humano feliz. Tem implícito um pagamento é verdade, como se de um serviço se tratasse,mas há coisas bem piores, que merecem a minha condenação.
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:23

Queres dizer quais são?

Pergunto isto para existir um contraponto.
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De Triptofano! a 20.07.2017 às 08:05

Nem todas as barrigas de aluguer carecem de pagamento.
O tema a mim não me faz confusão, se alguém não pode ou não quer gerar um filho e se existe alguém que o queira fazer, com ou sem dinheiro à mistura, porque colocar entraves?
Prefiro que assim seja, onde na maior parte das vezes (cuidado com as generalizações) temos alguém que realmente quer um filho e vai cuidar o melhor possível dele, do que um casal que à moda antiga concebe mas por nunca ter absorvido o conceito de planeamento familiar tem filhos aos pontapés na maior das misérias!
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 09:22

Não deixa de ser um "negócio"…

E porque não adoptar? Essa seria uma lógica no sentido até de contribuir para uma melhor Humanidade.

Não será um certo egoísmo? Querer ter um filho mas que seja meu e na total incapacidade de gerar o mesmo, camuflar a situação com um bebé de outrem?

Estou somente a ver todos os lados da questão… Até porque ao retirarmos todos os entraves desta questão temos de retirar de muitas outras e aí já entramos num campo quase anárquico.
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De Triptofano! a 20.07.2017 às 23:59

É sempre interessante discutirmos este tema sob diferentes prismas de forma a fazermos a nossa cabeça pensar.
Primeiro as barrigas de aluguer não necessitam de ser as doadoras dos gâmetas, podem apenas serem as transportadoras do embrião. Nesses casos estamos apenas perante alguém que serve de veículo. Afinal existem casais que podem não querer passar por todo o processo da gravidez e optam por escolher alguém que o faça por eles.
No caso de casais que não podem ter filhos seus, ou por infertilidade ou por serem casais do mesmo sexo, não acho que seja egoísmo preferirem ter descendência com a sua carga genética, ou pelo menos parte dela. A adopção é um processo moroso, e muitas vezes as crianças que estão para adopção são crianças mais velhas que muitos casais pensam ser mais difícil a sua integração no seio familiar.
Por outro lado a adopção poderia contribuir para uma melhor Humanidade realmente, mas não devemos estar a encontrar culpados em quem não adopta! Temos de perceber é porque é que há tantas crianças para adoptar?! Infelizmente um casal que procrie de forma convencional pode deitar ao mundo meia dúzia de crianças sem condições e não vejo as pessoas ficarem tão indignadas com isso como ficam com as barrigas de aluguer.
Talvez a solução seja adoptarmos a política da China, cada um com um filho e não mais que isso!
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De Robinson Kanes a 21.07.2017 às 10:57

Continua a ser uma "barriga de aluguer", independentemente do processo que leva a... Podemos falar da questão do amor, no facto de ter uma criança, mas em relação ao processo...

"No caso de casais que não podem ter filhos seus, ou por infertilidade ou por serem casais do mesmo sexo, não acho que seja egoísmo preferirem ter descendência com a sua carga genética, ou pelo menos parte dela. A adopção é um processo moroso, e muitas vezes as crianças que estão para adopção são crianças mais velhas que muitos casais pensam ser mais difícil a sua integração no seio familiar."

Antes de comentar, referir que respeito as duas situações. Mas não será mesmo egoísmo? Se queremos perpetuar a espécie humana, ao invés de cuidarmos daqueles que estão fragilizados, vamos submeter-nos a mais processos para gerar mais alguém? É apenas uma questão.
Quem quiser adoptar uma criança e estiver consciente na decisão... aliás, se for mesmo esse o desejo estará preparado para enfrentar todas as dificuldades... Até porque um processo de procriação medicamente assistida não é de todo o mais fácil nem o mais "saudável".

Em relação à indignação com quem não cuida daqueles que colocou no mundo: totalmente de acordo.

Pode parecer radical o caso chinês, até porque reveste outras questões mais sérias, mas a verdade é que o mundo não aguenta tanta gente...
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De Triptofano! a 23.07.2017 às 08:32

Continua a ser uma barriga de aluguer se houver dinheiro à mistura. E mesmo a questão do dinheiro é discutível. Se eu tiver uma amiga que se proponha a ser minha barriga emprestada (ao invés de aluguer) é mais que normal que lhe pague os medicamentos e suplementos que tenha de tomar durante a gravidez, os exames, talvez alguma roupa de grávida que de outra forma ela não teria de comprar!

Relativamente à questão do egoísmo, acho que as pessoas tem o poder de escolher e não vão abdicar dele. A partir do momento em que estes processos estão disponíveis e as pessoas podem optar por eles elas vão usar o seu poder de escolha. Se é egoísmo, bem acho que está dentro do ser humano escolher aquilo que acha ser o melhor para ele, sem estar a pensar em questões filosóficas e humanísticas. Um exemplo (mas não para levar da forma mais literal) se fores às compras de fruta, e tiveres pêras bonitas e intocadas e outras já tocadas ou todas picadas de bicho, provavelmente vais comprar as bonitas apesar de saberes que as outras (que são óptimas na mesma) se ninguém as comprar vão para o lixo! (novamente é um exemplo de escolha, não é para fazer analogias directas com esta questão ok? )

No que toca a crianças nenhum processo é fácil, há dias bons e há dias maus, por isso é que ter uma criança deve ser um acto pensado e repleto de amor :)

E sim o mundo não aguenta tanta gente. Ou melhor o mundo até aguenta tanta gente, mas não da forma como esta gente está a viver!

[desculpa a demora na resposta mas queria ter um dia mais calmo para poder pensar e reflectir antes de escrever]
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De Robinson Kanes a 23.07.2017 às 20:51

De facto, mas lá está, continua a envolver dinheiro e a ser uma espécie de mercantilização, é esse o ponto fundamental. Estamos a mercantalizar um ser-humano. Colocas uma diferença interessante nesta questão: emprestar vs alugar - dois conceitos bastante económicos, até porque o segundo se aplica em termos legais a um contrato que envolve um bem móvel. Mas falando de exemplos, sucede o mesmo quando um banco empresta dinheiro (para uma casa, por exemplo), enquanto durar esse empréstimo poderá colocar-se sempre a questão da propriedade, ou seja se é já minha a casa ou se ainda é do banco, mesmo habitando eu nessa casa... Isto para dizer, do ponto de vista da bioética, se quem gera não é já legítimo proprietário daquele ser e com uma ligação, por mais ínfima que seja, a esse bebé... Aqui estou a ir ainda a uma discussão mais profunda, mas que pode ter implicações práticas e também se foca na observação que "tu" estás a ter da maternidade de outrem.

Temos sempre o poder de escolher, quando nos é dado esse poder, e sim... Podemos escolher ir contra a lei e contra o que é correcto - e atenção que não estou a dizer que é correcta ou incorrecta a questão das "barrigas de aluguer".
A ética existe para que se questione a total liberdade do ser-humano, porque todos sabemos o risco da anarquia... Sobretudo numa sociedade egoísta. Se alguém não coloca a questão filosófica ou humanística, terá de existir outrem que o faça, se assim não o fosse, provavelmente não estaríamos aqui hoje a ter esta discussão. Também podemos usar o teu argumento para justificar um crime, daí a minha cautela na interpretação que fazes.

Percebi o teu exemplo, mas admito que me pareceu bastante elucidativo e real, não direi real no teu ponto de vista, mas presente em muitas situações. Confesso que me custou afastar dessa metáfora, pois apesar de tudo é bastante reveladora de muitas realidades e responde a muitas questões que tenho vindo a colocar. É preciso ter cuidado com os sentidos :-)

Como estamos a viver na sociedade ocidental, porque noutras sociedades não existe tanto consumo e desperdício. E apesar de tudo, tudo tem a sua capacidade de carga. Aliás, não é por acaso, que ainda hoje e até no meio académico é uma questão bastante sensível.

Ora essa, é fundamental a reflexão e é isso que ajuda a enriquecer este debate, embora confesse que tenho absorvido muito de todos, mas tenho cada vez mais interrogações - ainda bem :-)










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De Triptofano! a 23.07.2017 às 22:03

Então pergunto eu, se a questão é envolver dinheiro então também são condenáveis os tratamentos de fertilidade? Estamos na realidade a pagar (e não tão pouco como isso) por um serviço que tem como objectivo final a criação de uma nova vida. Estamos a mercantilizar um ser-humano também!?

Quando dizes que podemos usar o meu argumento para justificar um crime, bem eu quando falo de poder de escolha falo em escolhas que não afectem terceiros e estejam regulamentadas legalmente. A partir do momento em que algo é legal presumo que chegou-se à conclusão que esse algo tem mais vantagens do que desvantagens, e parte de cada um fazer a sua escolha!

Noutras sociedades não existe tanto consumo e desperdício? Os países asiáticos estão a abandonar as tradições milenares e a adoptar a forma de viver e consumir do ocidente, e eles são bem mais que nós aqui na Europa por isso o consumo também está a aumentar drasticamente!

Termos interrogações significa que temos a capacidade de pensar fora do rebanho, uma virtude que está a ser perdida aos poucos!
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De Robinson Kanes a 24.07.2017 às 10:07

Uma boa questão! Do ponto de vista ético também foi muito discutido. Se por um lado não seja acérrimo critico da prática, também acredito que se poderiam utilizar outros mecanismos antes de passar a essa fase... Penso que já os abordei aqui, e sim, aqui é a minha opinião pessoal. No entanto, também se colocam alguns desafios, vejamos:

-Não estamos a falar de um ser-humano. Poderá vir a ser, mas não é. Até do ponto de vista legal, a personalidade jurídica só se dá no momento do "nasciturus", com vida.
-Estamos também a falar de instituições acreditadas para essa prática e aqui vou até outra questão abordada nestes dois artigos: instituições acreditadas, que emitem factura, que pagam impostos e que se regem por um código de ética.

Interessante a tua questão, pois permitiu abrir espaço para chegar aqui.

Se a tua observação se foca na escolha legal, pois bem, então podemos falar também de egoísmo?

Não. Além de que alargar a febre de consumo a todos os países asiáticos não é bem uma realidade: podemos falar de Japão, Malásia, Índia, algumas comunidades na China, mas nunca ao nível Europeu, até porque nesses países a fosso entre ricos e pobres é gigante e a percentagem dos segundos supera em muito a dos primeiros. Depois temos também os países do golfo pérsico mas isso é uma outra história... Mas no fundo a questão está lá: somos gente a mais.

O rebanho, hoje em dia, devia ser mais crítico no bom sentido da questão :-)
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De Triptofano! a 25.07.2017 às 13:56

"-Não estamos a falar de um ser-humano. Poderá vir a ser, mas não é. Até do ponto de vista legal, a personalidade jurídica só se dá no momento do "nasciturus", com vida."

Então se não estamos a falar de um ser humano dizer que estamos a mercantilizar seres humanos quando recorremos a barrigas de aluguer é falacioso! Apenas é um ser humano no momento do nascimento com vida, e nessa altura já não é barriga de aluguer porque saiu da barriga, certo?

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De Robinson Kanes a 25.07.2017 às 17:07

Não tem de ser, até porque do ponto de vista legal são coisas distintas, aliás, até a óptica do aborto tem os seus limites na abrangência do "ser com vida"... Mas percebo a tua ideia e o teu ponto de vista, não fiques a pensar que estou aqui "do contra". Pode parecer complicado e é efectivamente... Mais uma vez, penso que está tudo na mentalização do ser-humano com a realidade e na forma como reage perante a mesma.
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De Triptofano! a 25.07.2017 às 17:19

Não acho nada que estejas "do contra". Tens a tua opinião e os teus argumentos e sabes expor sem ofender nem denegrir, e dá-me prazer trocar ideias com pessoas que tenham essas faculdades :)
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De Robinson Kanes a 25.07.2017 às 17:31

Sei que é "cliché", mas faço minhas as tuas palavras :-)
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De Rita PN a 20.07.2017 às 14:28

A mim não me choca nem a adoção (monoparental ou por casal), nem a opção de não querer ter filhos, nem a pressão social, nem casais com mais do que 3 filhos, tão pouco homens e mulheres que querem ser país sem a obrigação de ter um parceiro, assim como não me choca a questão das barrigas de aluguer.
Todos nós somos diferentes, temos formas de estar diferentes, visões distintas, assim como a educação que recebemos não é igual de geração para geração, nem tão pouco no seio da própria família. São questões que se levantam, porque a sociedade não evolui toda ao mesmo ritmo, existem choques de culturas, existem visões mais abrangentes e outras mais vanguardistas, existe a religião, a política, a ciência, a economia...
Existem, no fundo, diversos factores que condicionam ou propiciam determinadas opções. Contudo, não julgo nenhuma. Tento perceber o fundamento.

Biologicamente, fui concebida por um casal, contudo, considero-me apenas filha de uma das partes. Aquela que me criou, desde sempre. Na verdade, se a minha mãe tivesse recorrido a um banco de esperma para me gerar, seria igual. Nenhuma diferença faria. Talvez até me causasse menos infelicidade, a respeito da paternidade.

Nestas questões maus trendy, o único dedo que aponto prende-se com a seleção de genes. Aí sim, tenho os meus contras e mantenho as minhas reservas.

Quanto ao aluguer uterino, nada contra. Poderei ter algo contra determinadas circunstâncias e condições do "negócio", mas lá está, quando é negócio. Consigo não generalizar, porque conheço uma situação em que a mulher não podia, de todo, gerar o filho dentro de si, por questões de risco de vida e foi a própria irmã quem lhe gerou o feto. Por amor e não por dinheiro.
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De Robinson Kanes a 20.07.2017 às 15:05

Cuidar de uma criança, ou melhor, querer cuidar de uma criança não deve, de facto, chocar ninguém, penso que isso é ponto assente. Penso que teremos também de esperar alguns anos para perceber os efeitos da adopção por casais do mesmo sexo, por exemplo. Não numa lógica de crítica, mas numa lógica de validação e até de aproximação aos demais casais… Podemos assim retirar conclusões que podem fazer cair por terra (ou alimentar) muitas críticas negativas.

É preciso uma visão humana e que possa também congregar demais áreas e acima de tudo, numa área em que é difícil não fazê-lo, tirar o "coração" das conclusões. Como em várias outras questões, tento retirar a minha convicção pessoal, mas também aquilo que o coração me diz.

Falas do teu caso pessoal, e isso moldará a tua opinião, embora também pudesse ter sido problemático seguindo outros "trâmites". No fundo, prova que as coisas não são tão lineares como queremos.

Ser "trendy" levanta outras questões, porque sempre que algo é "trendy" muitas outras coisas basilares ficam pelo caminho. Perdem-se as bases… Falas da selecção de genes, mas o argumento que defende uma actuação não poderá ser utilizado para defender a outra?

São muitos os casos em que é negócio… Infelizmente são mais os casos em que é um negócio. Espero também que nesse caso exista maturidade familiar para que a criança um dia perceba qual a sua origem, e aí entramos numa outra questão que já vai para além da mera "barriga de aluguer"… É um tema complexo, como referi e com consequências ao longo dos anos. Mas aí voltamos à questão que quis focar neste artigo e sobretudo no que se lhe seguiu: a capacidade de gerir limitações, de aceitar condições ou de procurar outras alternativas… Sem criticar uma ou outra visão, é fundamentalmente isto que procuro perceber e que acredito não ser tarefa fácil.

Um dos pontos de partida, e mesmo assim com muitas limitações, que cada indivíduo respondesse claramente qual a motivação que o leva a seguir determinada opção e porque exclui as outras.

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