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A Morte... Nós... Eles...

por Robinson Kanes, em 09.10.17

IMG_0676.jpg

Fonte da Imagem: Própria. 

 

 

Malraux dizia que "a morte transforma a vida em destino" e chegamos à conclusão que, quer queiramos quer não, esse é o destino da vida. Embora afastemos esse pensamento do nosso quotidiano, façamos o que fizermos, esse destino determinado irá acontecer transformando as palavras de Malraux num lugar-comum.

 

Pelo meio, ainda há quem planeie a vida no sentido de pensar o que está para lá da morte: os que ficam, a memória, o prestígio, o reconhecimento... Mas na realidade e pegando nas palavras de Vergílio Ferreira, "é perfeitamente absurdo dizermos   «quando estivermos mortos». Porque nos imaginamos «nós» quando já não há «nós». Não estamos mortos, haverá apenas mortos.". De facto, podemos alegar que existe, independentemente das nossas crenças um mundo para lá da morte, mas a realidade demonstra-nos - pelo menos até aos dias de hoje - que se existe, ou é algo de tão fantástico que ninguém regressa ou então não passa disso mesmo... Morte! Morte não como um vazio, mas numa lógica ao estilo de Lavoisier em que somos apenas matéria que não se perde, mas que se transforma. Contudo, sem as qualidades que nos caracterizam como humanos.

 

 

Também o meu pai dizia, quando se falava de heranças ou temas afins, "que quem cá ficar que se oriente" - e foi assim que este procurou encarar a vida. Não se preocupou com o dia depois da sua morte, embora tenha feito muitos sacrificios que permitiram que me transformasse na pessoa que sou hoje e procurando garantir uma vida feliz sem destruir os outros e o futuro. Na verdade, de que nos vale pensar em quando estivermos mortos? Não existirá nós! Não seremos nós, não seremos mais nada a não ser um punhado de matéria que deambula pelo ar e permitirá que outros sistemas se desenvolvam... Não passaremos do sujo porto onde as fezes e a urina fazem nascer as grandes obras, como defendia Agustina em "Fanny Owen".

 

Aceite esta concepção, será que já estamos a abraçar essa lógica de tal forma que não concebemos o futuro? Camus dizia que o "homem sem esperança e consciente disso, já não pertence ao futuro (...) mas também está na ordem natural das coisas que ele faça esforços para escapar ao universo de que é criador". Será que já não temos futuro e somos um bando de seres sem esperança que, pelo presente abdicamos da nossa ética, dos nossos valores, das nossas faculdades de sermos... humanos? Mais que nunca, a Humanidade não pensa o futuro, não o pensa na medida em que não defende os valores essenciais da experiência humana e esquece inclusivamente que, ao focar-se tanto no agora, está a matar o amanhã. Não podemos tentar escapar ao universo da nossa criação se o egoísmo for imenso que nos consome em cada acto.

 

Pior, nunca tivemos tantos instrumentos para criar um mundo melhor, e não me foco apenas nas questões técnicas mas também nas questões do pensamento. Deus morreu, o pensamento tem vindo a morrer, o espírito critico da segunda metade do século XX está a morrer e no fim, somos apenas um rebanho sem esperança... Somos um rebanho sem esperança que chora as mortes do terrorismo mas não o hesita em praticar com os colegas no trabalho, com os vizinhos no prédio ou na rua, com aqueles com quem nos cruzamos e nos fazem pensar o nosso caminho. Lutamos por questões fúteis, enchemos jornais e redes sociais com temas e preocupações que já não se deveriam colocar e esquecemos as verdadeiras questões estruturais da existência: as boas e as más. Uns chamam-lhe desumanização, procurando um conceito mais pomposo, eu chamo-lhe desleixo ou até mesmo fraqueza.

 

Teremos perdido a esperança e estamos a alimentar o "nós" com tanta sagacidade que esquecemos, estando o mundo entregue ao Homem, que também ele é o responsável pela solidariedade com as gerações futuras e, no fundo, com as presentes. Dispenso também o discurso de que a culpa é do Capitalismo como forma de colocar num conceito/prática os nossos pecados.

 

Será que o Homem não é capaz de perceber que o único Deus é ele próprio e assumir essa responsabilidade? Acredito, verdadeiramente, que é por aí que se trilha o "nós", porque depois de mortos...  e encontrando aqui o pensamento de Levinas, depois de mortos, a morte será levada, não pelo morto, mas por aqueles que ficam e aí... Aí não teremos um "nós" mas teremos  "eles" e isso faz toda a diferença.

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38 comentários

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De Sofia a 09.10.2017 às 10:55

Acredito que quando morremos o nosso corpo morre, mas será que a nossa alma e essência também morre?! Um dia saberei...
O que se passa no mundo é culpa do homem, os valores e os princípios é algo em vias de extinção. Mas enquanto houver homens dispostos a lutar pelo mundo melhor, não perco a esperança, pois como Edmund Burk disse " A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam!.
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De Robinson Kanes a 09.10.2017 às 11:16

Essa tem sido a grande discussão que a ciência pode estar prestes a revelar... Se até agora a realidade nos dias que tudo morre, não podemos colocar de lado a investigação que nos leva a pensar o contrário. Saberemos a resposta a essa pergunta um dia...

E os homens bons que andam tão calados e quietos... :-)

Obrigado pelo comentário.

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De Sofia a 10.10.2017 às 10:21

Sabes na minha opinião, já não estão tão calados apesar da estupidez e ignorância reinar na sociedade, vejo pessoas que estão a tentar mudar mentalidades e sinto que algo está a mudar embora ainda seja de um maneira discreta! :)
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 10:25

Eles andam aí :-) E ainda bem... Tem de começar por algum lado.

Só temos de ter cuidado com aqueles que dizem que andam a mudar mentalidades, mas escondem outras agendas... A História também já nos deu essa lição.
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De Sofia a 10.10.2017 às 10:28

Sim, não sou ingénua! :)
Tem me assustado o movimento extremista crescer e principalmente porque as pessoas votam neles cegamente, esquecendo do seu passado e verdadeira essência!
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 12:15

Os movimentos extremistas estão dos dois lados... Mesmo aqueles que dizem, muitas vezes, lutar contra o extremismo, procuram encontrar espaço para ocupar um lugar e colocar em prática as suas ideias também extremistas. É substituir um campo pelo outro...
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De Sofia a 10.10.2017 às 12:23

Concordo plenamente contigo em tudo na vida deve haver um equilíbrio!
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De Sofia a 10.10.2017 às 12:30

E principalmente haver bom senso que também é o que tem faltado...
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 12:31

Como o bom senso não tem um valor monetário que se possa ostentar...
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De Sofia a 10.10.2017 às 12:35

Sim o capitalismo comando tudo, um dia quando as pessoas se aperceberem da verdadeira realidade será tarde demais...
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De Luis Costa a 09.10.2017 às 11:41

Você às vezes é assustadoramente realista.
Boa semana
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De Robinson Kanes a 09.10.2017 às 11:56

:-)))

São só devaneios...
Boa semana, Luis...
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De fashion a 09.10.2017 às 15:24

Excelente texto que encerra verdades inegáveis. Lembro-me sempre de Heidegger que defendia que o homem é um ser para morte. Aqui podemos é questionar a que tipo de morte ele se referia( física, metafísica , conceptual). De qualquer forma todos os dias morremos um bocadinho até ao momento final e por muito que nos enganemos, esse é o nosso verdadeiro desígnio. beijinhos, Rob.
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De Robinson Kanes a 09.10.2017 às 15:56

Heidegger foi também uma referência para alguns dos autores que citei acima pelo que, para ti, não foi difícil chegar a essa conclusão :-)

Eu penso que pelo pragmatismo Heidegger quereria começar pela física e congregar nessa todas as outras, não sei.

Pior que aqueles que morrem com a morte, ainda encontro uns mortos mais "medonhos": os que morrem antes da própria morte.

Obrigado pelo teu valioso "input" ;-)

Beijinhos.
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De HD a 09.10.2017 às 20:45

Para segunda feira... um tema muito denso!
Custa a opinar quando se tem muito a pensar... :\
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De Robinson Kanes a 09.10.2017 às 21:00

É o começo da semana para muitos, por isso há que estar na máxima força :-)

Entendo-te, entendo-te... :-)
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De HD a 09.10.2017 às 21:09

É a ordem natural da semana... que nunca morre ao domingo :\
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De Robinson Kanes a 09.10.2017 às 21:52

Para muitos morre. É o temível "dia do pijama" para muitos portugueses... Foge disso, tu foge disso... :-)

Por acaso, trabalhar ao fim-de-semana até tem muitas vantagens.
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De HD a 09.10.2017 às 22:02

Nem me lembres de pijamices domingueiras :-D

Tem sim, aquelas folgas à semana com tudo livre e à nossa disposição... ;p
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 08:36

Sem restaurantes barulhentos, melhor atendimento e até preços mais em conta com produtos mais frescos :-)
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De O ultimo fecha a porta a 09.10.2017 às 21:57

Desta vez, falaste da morte sem contar as tuas aventuras à porta de cemitérios com taxistas :)
a vida depois da morte é uma coisa que não me preocupa. é tão intangível e não-factual que não valorizo.
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 08:35

Confesso que vivo bem com o facto de para lá não existir nada, mas tenho sempre inquietações... Enfim... Maldita cabeça!

Em relação a aventuras em cemitérios, mais virão! Ah! E a Rota dos Cemitérios!
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De O ultimo fecha a porta a 10.10.2017 às 21:09

Não consigo partilhar desse teu gosto eheheh
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 21:16

Quando tive a ideia da Rota chamaram-me louco. Trouxe alguns exemplos lá de fora, já me chamaram tonto e fora da cultura portuguesa... Entretanto já existem cemitérios com espaços museológicos... Não tinha "amigos" :-)
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De O ultimo fecha a porta a 10.10.2017 às 21:24

Se gostas força nisso, eu cá não acho muita piada. Acho um sítio que desperta sentimentos tristes, de nostalgia, onde nos conseguimos encontrar connosco próprio e com algo intangível.
Geralmente vou nos fieis e nos funerais, por isso não me traz "good wibes".
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De Robinson Kanes a 11.10.2017 às 08:19

Sim, de facto nesse aspecto tens toda a razão :-)
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De mami a 09.10.2017 às 22:55

grande reflexão.
a minha relação com a morte nunca foi positiva.
não lido bem com o que ela representa para o eu ou para o nós..."eles" pouco me interessam ;) pois os meus fazem parte do nós
acredito na transcendência (vá não deixes de gostar de mim ou de respeitar as minhas parvoíces). acredito que temos uma missão de autosuperação que vamos atingindo vida após vida.
como gosto de viver o momento presente ... a partida para outra "vida" de quem amo...ou de mim mesma... é sempre algo que me incomoda!
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 08:39

No fundo... Penso que nunca é positiva, é sempre um fim, uma incerteza.

Claro que não, se acreditas e isso te faz sentir bem e ainda por cima não prejudicas ninguém... Posso argumentar, entrar em diálogo e discutir mas não censurar, longe disso. Aproveito assim, para dizer que essa missão talvez tenha de ser completada na vida que temos, agora :-)


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De mami a 10.10.2017 às 17:30

penso que nunca sabemos qual é a nossa "última missão".
acredito profundamente que enquanto vivemos temos de tornar essa vida válida e meritória. dar o melhor de nós, aproveitar ao máximo tudo o que a vida tem para nos oferecer.
não procuro a glória ou medalhar de mérito...procuro ser feliz a cada dia :)
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 17:45

Perfeitamente em sintonia...

A felicidade não se procura, deixa-se acontecer :-)
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De mami a 10.10.2017 às 17:47

mas é preciso estar-se atent@ ;)
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 18:00

"Always" :-)
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De Sónia Pereira a 10.10.2017 às 10:11

Ler-te e ler outros autores (ainda ontem à noite lia Raul Brandão, Humus, ficando de boca aberta pelo arrebatamento certeiro de certo trecho), faz-me perceber este completo desajuste que sinto relativamente à realidade. As tuas palavras são certeiras, as tuas questões são pertinentes, mas faltam-me as forças para tentar a diferença. É como se já não houvesse presente, quanto mais qualquer vislumbre de futuro.

Parte de cada um nós fazer a diferença, mas, diabos, às vezes é tão difícil remar contra a maré, que acaba-se por fazer coro com a generalidade das vozes, dizer ámen aos discursos dominantes. Não é o que faço. Acho que estou para ali no meio. Não faço coro, não luto pela diferença, subtraio-me à realidade. Viver cansa que se farta.

Pegando no teu último parágrafo, lembrei-me de uma coisa que me dizem recorrentemente quando afirmo que não acredito em deus: «mas como é que alguém consegue viver sem acreditar em nada?! Não acreditas em nada?»
Para a grande parte das pessoas, assumir a responsabilidade divina (no sentido de responsabilidade pelas próprias ações e pela implicação das mesmas no mundo circundante) é impensável. Mas é isso que costumo responder: «acredito no ser humano, na capacidade de criação, criatividade, bondade, solidariedade de que somos capazes e isso é muito. É muita coisa em que se acreditar.»
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De Robinson Kanes a 10.10.2017 às 10:24

Por acaso, antes de andar pelo livro actual andei pela "Farsa" :-)

Colocas aqui a questão do presente como inexistente e fazes-me pensar... Penso que já não existe mesmo, já não o vivemos, já não paramos, já não avaliamos... Temo que estas tuas palavras tenham sido, de facto, as mais certeiras. Tenho de pensar melhor nisto...

Fazer a diferença obriga a um conjunto de competências que muitos não têm e não querem ter. A Era da facilidade (e ainda bem que ela existe) levou-nos, contudo, a uma preguiça... No meu caso, apesar de tudo, tento estar aberto a todas as posições, mas depois, como alguém disse "ouvi todos os homens mas falai a poucos"...

"acredito no ser humano, na capacidade de criação, criatividade, bondade, solidariedade de que somos capazes e isso é muito. É muita coisa em que se acreditar.»

Subscrevo totalmente... Poderia acreditar e até desejaria (quem não desejaria algo para além disto?) em algo para lá, mas tenho de centrar no real e no que pode fazer realmente a diferença e actuar na vida de todos nós, e aí, no nosso caso, é o homem... Anda é demasiado preguiçoso para se pensar a si próprio :-)
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De Maria Araújo a 10.10.2017 às 22:57

Uma verdade inegável que se torna mais clara à medida que avançamos na idade.
O 5º parágrafo define quem somos.
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De Robinson Kanes a 11.10.2017 às 08:20

De facto :-)

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