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A História de Muza e os Tumultos em Granada

por Robinson Kanes, em 02.05.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Com a irrevogável decisão da rendição, Muza, perante o conselho, assumiu que jamais seria condescendente com tal decisão. Admitiu a severidade dos reis católicos e jamais consentiu entregar a sua fé e o seu reino a tais soberanos. As suas palavras - "não temamos a morte; muito pior serão os saques, a profanação das nossas mesquitas, a ruina dos nossos lares e a violação das nossas mulheres e filhas" - pouco eco fizeram. Abandonou o conselho atravessando o Pátio dos Leões, sem sequer dirigir palavra aos que acompanhavam. Armou-se dos pés à cabeça, escolheu o seu melhor cavalo e a sua melhor armadura e saiu da cidade pela Porta de Elvira sem nunca mais se saber do mesmo. 

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Contudo, esta é a versão dos historiadores árabes, pois, segundo Frei António Agápida, nessa mesma tarde, um grupo de cavaleiros andaluzes, que cavalgava nas margens do Genil, afirmou ter visto um cavaleiro mouro, completamente armado, com a viseira fechada montando um formoso cavalo e com uma lança em riste a correr na direcção destes. De início, e dada a força dos andaluzes, estes nunca pensaram que esse cavaleiro os atacasse, contudo, com o desenvolver da passada, cedo perceberam que o risco aumentava, pelo que se deram a conhecer e lançaram avisos de que não hesitariam em atacar.

 

O cavaleiro, esse, não acatou nenhum dos avisos e com a sua lança matou de imediato um dos cavaleiros. Puxando da sua cimitarra, continuou a espalhar o pânico e a matar outros cavaleiros, ignorando algumas feridas que já lhe atravessavam o corpo. Muza conseguiu matar metade da guarnição de cavaleiros andaluzes até o seu cavalo ter caído por terra ao ser atingido por uma lança. 

 

Já com Muza no chão, e admirados por tal valentia, os cavaleiros tentaram poupar a vida deste. De joelhos, com

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uma adaga de Fez, Muza não desistiu de lutar. Vendo, contudo, que não teria hipóteses nem forças para ir mais além e, não querendo cair prisioneiro dos cristãos, atirou-se ao rio e afundou-se com o peso da sua armadura sendo arrastado pelas águas do Genil. Mais uma vez, Muza vinha mostrar de que sangue era feito e fazer-nos compreender que, se mais cedo tivesse entrado na guerra, talvez o desfecho pudesse ser diferente.

 

Entretanto em Granada, no dia 25 de Novembro de 1491 (aproximadamente um ano depois seria descoberto o continente americano por Cristóvão Colombo), era assinado o tratado de rendição. Todavia, nos primeiros dias de Dezembro, um motim levou a que muitos se armassem e estivessem dispostos a lutar pela defesa do reino, ameaçando Boabdil que se refugiou no Alhambra, qual prisioneiro do seu próprio povo.

 

Só a sua saída, dizendo ao povo que era o máximo responsável pela situação do reino, exprimindo o seu arrependimento face à insurgência contra o pai e assumindo o pesado fardo que Alá lhe dera fez acalmar os seus súbditos. Reconheceu que assinara a rendição para salvar o seu povo da fome e da guerra e que agora iria abandonar a cidade e caminhar em direcção ao seu exílio.

 

Às portas da cidade os Reis Católicos aguardavam o dia para entrarem naquela majestosa cidade. O Alhambra esperava por estes soberanos que teriam de lidar com o temperamento e sagacidade dos habitantes da cidade e sobretudo do Albaícin.

 

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Ainda hoje, as ruas deste bairro albergam uma verdadeira atmosfera árabe, de calor, de vida e de recantos únicos onde conseguimos imaginar as discussões daqueles que desejavam a rendição face aos que queriam dar a vida pela cidade. Podemos voltar atrás e seguir Boabdil pelas ruelas procurando encontrar seguidores para a sua intentona contra o pai e contra o tio. Também podemos entrar pelo Noroeste, pela Plaza del Triunfo, atravessando a Puerta de Elvira, seguindo o Carril de la Lona, recuperando o fôlego no Mirador com o mesmo nome e com uma vista para o centro da cidade. Subindo mais um pouco, quiçá entre umas tapas e uma cerveja Alhambra possamos encontrar, na Plaza San Miguel Bajo, Boabdil a confraternizar com o seu povo após uma visita ao Palácio de Dar-al-Horra.

 

A paragem nessa praça, com gente simpática, vai permitir, não só sentir a força e o espírito de Granada, mas também refrescar o corpo para a subida até S. Nicolás, o miradouro de excelência para o Alhambra e para a Serra Nevada.

 

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Para os recém-chegados a esta aventura:


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23 comentários

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De Chic'Ana a 02.05.2017 às 10:20

Mais uma viagem sem sair da minha cadeira! =) Acredita que estes posts são preciosos
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 10:32

Obrigado! Espero que sejam úteis. A história, pelo menos esta parte, de Granada é fantástica.
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De a mãe dos PP's a 02.05.2017 às 10:53

Um dia vou conhecer isto tudo até porque a fé é algo maravilhoso
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 10:58

"Good shot" ahahahhaha

Vale a pena, mesmo que à distância. É óbvio que esta é uma visão "transparente" escrita por católicos. Para o autor da Crónica, não foi fácil até que ponto os argumentos de um lado e de outro são efectivamente verídicos.
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De Maria a 02.05.2017 às 12:05

Mesmo com toda a parcialidade de quem escreve a História é impressionante o relato.
já não há heróis...
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 12:56

Sem dúvida. Os heróis implicam que exista uma verdadeira dedicação a uma causa, um empenho e muita garra para com os seus. Que sejam mobilizadores e capazes de arriscar… são uma espécie em vias de extinção :-)
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De Maria a 02.05.2017 às 13:41

sad but true!
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De Sónia Pereira a 02.05.2017 às 13:04

Talvez a culpa seja dos historiadores, mas o certo é que é todo um passado com um travo romanesco, intenso, com ações que parecem vir das entranhas, sentidas, que parecem tão mais genuínas do que a nossa atualidade. mas vai daí, quando daqui duzentos ou trezentos anos se estudar o nosso presente, talvez certas figuras ganhem essa aura própria de heróis e heroínas. Quem sabe.
O fim de Zuma corresponde em completo à forma como viveu e, apesar da violência inerente a todos os teus relatos, é de uma integridade que nem parece real. Que tempos memoráveis...
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 13:46

Sem dúvidas, sobretudo porque as emoções estavam à flor da pele. Isso também tornava tudo mais puro.

Além de que, a História é sempre uma fonte inesgotável de aprendizagem e de construção do Ser, ou deveria...
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De HD a 02.05.2017 às 18:37

Não paras de surpreender com as tuas aventuras ;p

A primeira foto com as montanhas por trás... é deslumbrante :)
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 19:45

Obrigado!
Já estamos perto do fim. Qualquer dia tenho o público a dormir :-)
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De HD a 02.05.2017 às 20:33

Então é porque o público anda mesmo a papar sono ;p
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 20:37

ahahahahahha

Por acaso, uma coisa boa é o facto de ter algumas pessoas fidelizadas. Em marketing, vendas e operações, mais que procurar clientes, o ideal é preservar os que já temos.

Acho que depois do meu artigo de amanhã os vou perder todos, mas pronto :-)
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De HD a 02.05.2017 às 20:40

Precisamente e os que ficam no limbo... aplica-se o remarketing ;)

E desvendar alguma pontinha do véu?! ;)
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 22:05

Nem mais! :-)

Salários?

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De HD a 02.05.2017 às 22:07

Oh... que estou a ver polémica instalada ;)
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 22:09

Ainda não que não tenho muitos seguidores, mas parece-me que a minha opinião vai ser diferente daquela que têm a maioria das pessoas, ou não...
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De HD a 02.05.2017 às 22:10

Estarei cá para dar a minha achega ao fórum :)
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De Robinson Kanes a 02.05.2017 às 22:11

Cá te espero!
Abraço e bom descanso :-)
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De HD a 02.05.2017 às 22:11

Obrigado e igualmente :)
Abraço!
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De Rita a 28.05.2017 às 18:17

Mais um grande capítulo ;) dás uma dimensão completamente nova à História
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De Robinson Kanes a 28.05.2017 às 22:21

O mérito é do Frei António Agápida e do Washington Irving :-)

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