Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]


 

giovanni_bellini_e_atelier_a_virgem_e_o_menino_nat

Giovanni Bellini e Atelier -  A Virgem e o Menino (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria 

 

O estudo da fauna humana recebe o seu mais glorioso "input" na pessoa de Cidalina.

National Geographic 

 

Ter filhos ou não ter, eis a questão.

William Shakespeare, Hamlet

 

Parece que entramos no filme Delicatessen.

Sónia Pereira, in Quimeras e Utopias

 

A paternidade e a maternidade segundo o Evangelho de Santa Cidalina...

 

Chegou a minha vez com um “é o Robinson?”. Percebo a questão, se é para ser tudo ao molho convém sempre certificarmo-nos de quem se trata.

 

Peço para me sentar, pois a Cidalina, já sentada, estava a olhar para o computador que tinha em cima da mesa e não me dizia nada. 

 

Depois de um “sim, sim”, observo a sala. Uma sala de reuniões comum, com um computador em cima da mesa, correspondência do Ministério Público à vista de todos e um sem número de outros papéis.

 

A Cidalina, além da voz de bagaço, tinha uma atitude demasiado pesada e um total desmazelo em relação aos dentes. Contudo, o dinheiro não chega sempre para todas as coisas. O reflexo do desmazelo também era visível no estado em que se encontrava a mesa.

 

Esperei mais uns momentos até que a Cidalina percebeu que eu estava ali. Fazendo aquele suspiro que um GNR do Posto Territorial de Ansião faria depois de almoço, disse:

 

-É o Robinson, deixe ver se tenho aqui o seu currículo.

 

Sou o Robinson. Sou o Robinson e também já percebi que nem olhou para o meu currículo. Mais interessante ainda, passa por eu conseguir apreciar os currículos de todos os outros candidatos enquanto a Cidalina procurava o meu. Confidencialidade no seu melhor, mais uma vez. "É esse! O meu é esse"...

 

Nova pausa, com o computador a tirar-me o protagonismo e eis que no típico ar gingão da fauna lusitana:

 

-Oh Robinson, fale-me de si, mas não me fale do currículo. É uma pessoa feliz, é casado e tem filhos?

 

“Fale-me de si, é uma pessoa feliz, é casado e tem filhos”! Tendo em conta que é sempre difícil fugir às duas últimas (e até concordo que se façam), mesmo que contra a lei, não é propriamente o mote para começarmos uma entrevista. Lá disse que era feliz, que não corria atrás da felicidade e que tinha de saber apreciar cada momento bom que a vida me dava. Mencionei que era importante gerir os maus momentos e também aqueles que a vida não me dá, mesmo quando luto por isso. Sugeri que tinha de criar um balanço entre prazer e propósito.

 

Percebi que não tinha dado a resposta certa! Devia ter mentido e ter dito que adorava festas e passeios, que adorava fazer compras e viajar pelo mundo ou então que sonhava com uma vida no Butão. Que o meu sonho era ser feliz como todos os outros, mesmo que todos os outros (eu incluido) não saibam o que é ser feliz.

 

Nova questão, fundamental para o trabalho em si:

 

-É casado, tem filhos?

 

Respondi que não era casado nem tinha filhos e comecei a criar o clima para iniciar a Terceira Guerra Mundial. Numa sala triste a sem qualquer cor, num edifício soturno e também sem cor dos arredores de Lisboa, as coisas iam começar a aquecer. A Cidalina insiste neste ponto:

 

-Mas vive com alguém? Não tem filhos porque?

 

Foi aí que eu pausei o meu discurso e considerei várias opções:

  1. Dou eu a entrevista por terminada pois perdi toda e qualquer vontade de continuar a conversa?
  2. Dou mais uma oportunidade e pode ser que a entrevista tome outro rumo, afinal não é o cliente final?
  3. Adoro conhecer as pessoas, avaliar o comportamento humano e aprender acerca daquilo que não devo fazer, pelo que fico mais um pouco?
  4. Confirmo a minha expectativa de que hoje em dia é maior o ruído que o profissionalismo?
  5. Tenho um blog, ou seja, fico e estico isto até dar um artigo daqueles?

 

Optei pela situação dois e respondi que vivia com alguém e que não tinha filhos.

 

Nova abordagem e a Cidalina começa a acusar desconforto:

 

-Mas não tem filhos? 

 

Respondi que nunca tinha pensado nisso. Mencionei que um dia poderia ter ou não, que não fazia com que a minha vida fosse controlada sob a expectativa de ter um filho e muito menos acusava pressões sociais. Além disso, mencionei a minha juventude e, consequentemente, o facto de ainda ter uma vida pela frente. Neste momento já estávamos a esgrimir argumentos sobre o ter ou não ter filhos.

 

-Então e a pessoa com quem vive, não quer ter filhos também? Que idade tem? O que é que faz? – Insistia a Cidalina.

 

A opção dois caía por terra e neste momento ficavam apenas as opções 4 e 5. Como a 4 estava confirmada, optei pela 5! Tenho um blog, isto vai dar mais sumo que um pomar com 100 hectares de laranjeiras!

 

Respondi que também não era do interesse da mesma, aumentei a idade e disse o que esta fazia. E pronto, estavam lançados os dados para mais um interpelação:

 

-Mas com essa idade, é que depois começa a ficar difícil! Mas como é que não querem ter filhos? Mas nem falam disso?

 

Ainda pensei em explicar que embora os riscos aumentassem com a idade, hoje, é possível colmatar até bem tarde essa situação. Não percebi que alguém tão preocupado com a maternidade não tenha pensado na adopção ou nem sequer tenha percebido que pode não ser possível a um dos indivíduos ter filhos e que é um tema que pode melindrar alguns casais. Ainda pensei em falar sobre isso, mas já seria ir longe de mais e perder tempo com quem não merece. 

 

Respondi que não estava nos planos e não fazíamos desse tema uma preocupação constate, que quando tivesse que acontecer lá aconteceria. Percebi no olhar da mesma que eu era uma carta fora do baralho. Por sinal, eu não precisei de chegar tão longe para perceber isso. Penso que a questão ficou "arrumada" quando comecei a citar Malthus numa tentativa de quebrar o gelo. Senti-me um "alien", o indivíduo jovem que já devia ter filhos, uma casa, uma station-wagon na garagem e um monte de hipotecas desde os 20 anos! 

 

O sorriso de desdém no rosto da Cidalina era qualquer coisa de genial e de repente o estilo matrafona transformou-se num estilo de habitante de Dogville, o filme de Lars von Trier. Acredito que a Cidalina terá pensado "que grande anormal, como é que não tem filhos!". Também já fiquei com uma carta na manga: quando alguém me vier com a história que foi discriminado porque tinha filhos que se prepare.

 

E ainda não tinhamos falado de trabalho... O meu lado alemão já me deveria ter obrigado a cortar e a ir directo ao assunto mas... Se o fizesse, ia perder o que ainda estava para vir! 

 

Continua...

 

Capítulo 01, clique aqui

Capítulo 02, clique aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)


54 comentários

Imagem de perfil

De Maria a 30.05.2017 às 09:20

1 - ainda bem que citaste a Sónia :D ;

2 - a opção seria sempre a 5.

3 - tendo em conta o meu fundamentalismo sobre a minha opção de não ter filhos, desistia do emprego mas não saia sem antes lhe dizer: "não quero ser mãe porque já há gente estúpida em grande nº no mundo. A sô dona Cidalina é a prova viva disso mesmo!"
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 09:23

aahahahahah

Não podia faltar…

Sempre a 5! Senti que estava perante um momento único. Tenho muitas histórias, mas poucas que se aparentam sequer com esta.

ahahahahahahah eu disse-lhe isso de outra forma, tentei socorrer-me do Malthus, mas devias ter visto quando disse que uma das maiores ameaças da Humanidade era o excesso de população.
Imagem de perfil

De Maria a 30.05.2017 às 09:49

Ela não tem como ter percebido :D
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 11:37

Aquela cara típica e parva de "Malucos do Riso"...
Imagem de perfil

De Chic'Ana a 30.05.2017 às 09:27

Completamente surreal.
Mas ser casado e ter filhos é algum dos pré-requisitos da empresa!? Verificaste as letras miudinhas todas?! Não encontro outra explicação.. só se estavam com receio das faltas por parentalidade...
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 09:31

Pensei em várias situações:

1. A Cidalina tornou aquilo demasiado pessoal;
2. O Sr. da frente já era uma opção bastante forte e procurou despachar-me;
3. A Cidalina será que é daquelas pessoas que pensa que uma pessoa com filhos se sujeita a tudo a bem dos mesmos e por isso toca a aproveitar?

Confesso que fiquei sem perceber. Mas que ficou constrangida com as minhas respostas, ficou...
Imagem de perfil

De Chic'Ana a 30.05.2017 às 09:47

Acho que respondeste da melhor forma, sinceramente... Uma entrevista para trabalho não necessita de esmiuçar determinadas questões...
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 11:35

Temos de nos rir :-)
Imagem de perfil

De fashion a 30.05.2017 às 10:06

Mas o emprego era numa creche? Sinceramente....
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 11:36

Olha, poderia ser óptimo! Ao menos é uma pessoa que separa bem o emprego da vida pessoal :-)
Sem imagem de perfil

De Ana Patricio a 30.05.2017 às 10:31

Mais uma risota.O que me ri.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 11:36

Fico contente por isso.
Continuação de boa procura!
Sem imagem de perfil

De Luis costa a 30.05.2017 às 12:01

Voce e terrivel.A minha mulher e a minha filha fartam se de rir.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 12:11

Ora, obrigado.
Terrível? Eu diria… Estranho?
Imagem de perfil

De Sónia Pereira a 30.05.2017 às 12:22

A conversa dos filhos é realmente o mais perturbador desbloqueador de conversas do mundo. E realmente, se não encaixas no standart social, és encarado como um anormal. Mesmo eu que tenho um filho, acontece o mesmo. Mas só um? Mas um é pouco. É por causa de problemas financeiros, de saúde? ao que eu respondo, é porque não quero. Porque ninguém decide por mim e eu e o meu cônjuge não queremos.
Parece um afronta a pessoa pensar pela própria cabeça, elaborar decisões pelo seu próprio raciocínio.
Confesso que, em conversa idêntica, talvez me tivesse levantado e saído sem qualquer justificação. É surreal uma conversa destas numa suposta entrevista de emprego. E a mulher mais parece ter perfil para taberneira de aldeia do que para profissional de recursos humanos.

Mas, é como disse, isto encaminha-se para teres matéria para desenvolver uma obra artística na área do absurdo, do surreal. :)


Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 13:02

Costumo dizer um pouco a brincar e também a sério que os filhos são, para muita gente, uma autêntica arma de arremesso contra as liberdades de outros… Filhos e fazer a vida que toda a gente faz… A não ser que sejas uma pseudo-estrela. Pois se concebes uma vida de trabalho, sem te apoquentares com a questão da casa e do carro e de outras tantas coisas, só podes estar doida.

Além de que ter ou não ter filhos não tem qualquer influência, mesmo se a senhora quisesse dissecar eventuais traços de personalidade, embora tenho dúvidas se estaria preparada para isso. Poderia ter escalado ao director da mesma, mas as abençoadas redes sociais e o Portugal "pequeno" permitem-nos aferir dos laços que ligam as pessoas :-)

A minha miúda respondeu-me exactamente o mesmo… E acredito que, calmamente pediria desculpa, apresentaria os seus cumprimentos e abandonava a sala. Eu admito que fiquei porque estava a gozar o prato e acabei por não me arrepender...




Imagem de perfil

De Sónia Pereira a 30.05.2017 às 14:44

Eu compreendo a tua opção. Acho que é quase como estar num safari a observar a fauna e flora de uma região distante e diferente. É que pessoas assim só mesmo através de um olhar de curiosidade antropológica é que qualquer interação se justifica.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 15:17

Ai podes crer que sim! ahahhahahah
Imagem de perfil

De Francisco Freima a 30.05.2017 às 13:17

Que coisa mais estranha, ou a Cidalina tinha um atraso qualquer ou então quis mesmo sabotar a tua entrevista :/
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 14:45

Fugindo um pouco ao humor da questão, acredito que, além da falência de competências técnicas e comportamentais, tomou esta questão dos "filhos" demasiado a peito e deixou cair toda e qualquer ética e profissionalismo. Ainda pensei que fosse uma espécie de teste, mas depressa cheguei à conclusão de que estava errado.

Mas… É a minha interpretação, poderei estar, mais uma vez, errado.
Imagem de perfil

De m-M a 30.05.2017 às 14:14

Cidális is on fiiiiiiiire, Cidália is on fiiiiire *iiiire! :P

E eu a pensar que só nós, "gaijas" é que levávamos com essas perguntas essa pressão :O
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 14:47

ahahahahahahah

Deixa essa música ficar onde está, não é de todo o estilo da senhora :-)

Confesso que, para mim, foi a primeira vez. Esta dos filhos, deste modo, nunca me tinha acontecido.

Imagem de perfil

De m-M a 30.05.2017 às 15:36

Tens que ter cuidado, Cidália pode tentar fazer de ti um pai de família! :tan tan taaaaaan:
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 16:04

Por acaso nunca tinha visto as coisas por esse prisma… Sou tão ingénuo…

Caramba, e o que isso poderia ter ajudado ao enredo!

(Credo!)
Imagem de perfil

De Kalila a 30.05.2017 às 14:46

A conversa dos filhos é banal quando o entrevistado é mulher, realmente. Passa por idades, enternecimentos quando são pequeninos (para disfarçar o ponto negativo) e escolhas escolares quando são grandes (para disfarçar o interesse pelo eventual cunho pessoal). Isto acontece muito quando são "Cidalinos" a explorar o assunto.
Fico à espera do resto.
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 14:50

Por norma acontece ao sexo oposto.

Mas eu, sim… Um homem que disse não estar a pensar em filhos, pelo menos neste momento, foi atirado contra a parede e obrigado a sair daquele local com um: "Eu vou ter um filho! Eu vou ter um filho! Eu vou ter um filho". Por momentos pensei que seria um requisito.

Procura-se homem com filhos! Todos os que não reunirem esta condição estão dispensados!
Imagem de perfil

De Rita PN a 30.05.2017 às 17:45

Robinson, então mas tu não sabes que a população está a envelhecer e há que incentivar ao aumento da natalidade? (Ao ler incentivos no título foi a única analogia que me ocorreu).
Ora que tu também foste logo defraudar as expectativas da sra dna Cidalina. No fundo, ela estava a zelar pela preparação dos teus genes sabedores. (Estou a brincar, como é óbvio).
Pois olha, o contrário já me aconteceu, dizerem-me com todas as letras "não queremos mulheres com filhos nem com a gravidez no horizonte, porque são um pesado fardo para as empresas". Agora invadir dessa forma a privacidade e a vida pessoal dos candidatos é que... Bom... Enfim...
A dona Cidalina com certeza que não pesa as consequências que poderão advir desse tipo de perguntas.... Eu diria, que essa senhora reflete bem a pressão social no que ao tema diz respeito.
Talvez amanhã eu saiba comentar isto... Hoje não estou a carborar devidamente...
Imagem de perfil

De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 19:04

Está a envelhecer em Portugal e nos países desenvolvidos, mas o que não falta no mundo são jovens.

A Cidalina estava num mau dia… Quero acreditar que foi isso e… Talvez aquela voz tivesse efectivamente uma origem.

ahahahahah, ok, ficarei a aguardar.

Comentar


Pág. 1/2



Mais sobre mim

foto do autor



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Mensagens

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Pesquisar

  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
CRD7-BFJD-IWHB-ZXDB