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Fonte da Imagem: http://cdn.yeniakit.com.tr/images/news/625/mr-spark-hayatini-kaybetti-h1425065881.Jpeg

 

A personagem de Cidalina é uma referência para os profissionais de Recursos Humanos, uma verdadeira "best practice".

Fogueteiro Business Review

 

Uma leitura obrigatória para acompanhar um vinho do Dão.

Carregal do Sal Zeitung

 

Robinson Kanes consegue encontrar a personagem que me faltou na tela os Bêbados.

José Malhoa, num jantar nas Caldas da Rainha

 

 

20 minutos para as 12 horas.

 

Eis que chego ao local da entrevista - um prédio antigo, daqueles típicos dos anos 70, com armários e caixas de correio já com a madeira desgastada. Lá dentro, um porteiro, que tinha todo o aspecto de porteiro - um homem dos seus cinquenta anos, forte e sempre com aquele ar de sentinela de depósito de material de guerra. Aquele que nos olha de cima abaixo à espera da nossa acreditação e depois nos solta vagamente o número do piso que procuramos.

 

Subo de elevador e bato à porta para entrar, apesar da mesma estar encostada. Surge um indivíduo que fica a olhar para mim qual "Spock" a tirar-me as medidas com aquele semblante peculiar. Olhei para o mesmo e disse o tradicional “bom dia”. Perante a ausência de retorno senti que tinha de ir mais longe - seria surdo? Seria mesmo um aprendiz do "Spock"? - disse que estava ali para uma entrevista com a Cidalina às 12 horas. O indivíduo, de camisa aos quadrados azuis e vermelhos qual pescador da Nazaré  faz-me um gesto com o braço. Deduzi que fosse um convite para entrar e entrei. Sei que soltou um esgar qualquer, mas confesso que não consegui perceber. Ainda hoje imagino como aquela interessante personagem ficaria se tivesse a farda da "Enterprise" vestida.

 

Era um indivíduo estranho e sem um sorriso num dia de sol daqueles, como era possível? Mas falava, tanto que falou quando entrámos num open space e soltou um quase inaudível “sente-se”, sempre acompanhado pelo gesto com o braço.

 

Olho à minha volta e vejo que estou numa sala onde toda a gente está a trabalhar, ou seja, onde a confidencialidade, a minha e a de quem lá trabalha, estava comprometida, sobretudo porque me dediquei a ver o revenue da organização no computador do senhor sem braço que estava à minha frente. Também me detive a ver o facebook do outro senhor que estava ao lado e que usava o chat do mesmo como se estivesse a telegrafar pedidos de socorro. Até consegui ver que apesar dos muitos smiles, os mesmos não se reflectiam na expressão do mesmo. Aposto que era um daqueles totós que tinha uma vida secreta de sedutor nas redes sociais e era conhecido no Cais do Sodré como o "Viking de Oeiras".

 

Mas... Ao meu lado, o meu rival. Um senhor dos seus quarenta e muitos anos que ignorou a minha saudação de bom dia mesmo tendo levantado os olhos de uma revista que lia: guerra é guerra e não há tempo para grandes cumprimentos entre as diferentes partes.

 

Fiquei a olhar para o meu rival, não que tivesse muito para olhar. Vestia fato cinzento e a armação dos óculos era como todos os senhores daquela idade que usam óculos e vestem fato. Aquele estilo de massa que a personagem Reuben Toshkoff do "Ocean's Eleven" usa. Tinha a perna cruzada enquanto o pesado corpo se afundava no sofá como se o mesmo o fosse engolir e só ficassem à vista os sapatos mal engraxados. Por momentos pensei que fosse necessário alugar um guindaste para retirar o senhor do sofá quando fosse chamado.

 

É sempre bom ter os candidatos, ali frente a frente, dispostos a tudo e até a encetarem uma luta sem quartel pela posição. Confesso que o estudei, no entanto percebi que se aquele indivíduo se atirasse a mim, não me faltaria tempo para fugir, a não ser que me atirasse entretanto com a pesada mala de pele que um administrativo da Lisnave usava nos anos 60.

 

Observo a sala e apercebo-me que a empresa em questão tende a recrutar muitos indivíduos com algum tipo de deficiência. Foi uma coisa que me deixou contente, afinal também é dar uma oportunidade aos demais e promover uma verdadeira Responsabilidade Social. Pensava eu...

 

Tirando o tagarela de um dos colaborados que, ao invés de trabalhar, insistia em interromper os colegas com conversas sem interesse absolutamente nenhum, reinavam as caras de peixe cozido entre os colaboradores. Quero acreditar que estavam assim porque todos tinham perdido um familiar naquele dia.

 

De repente, uma porta abre-se e vejo um possível candidato à posição a sair acompanhado pela senhora com voz de bagaço e que alia a isso o facto de parecer uma autêntica matrafona, algo que eu não tinha visto no photoshop do website da empresa e no LinkedIn da mesma.

-Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora! - Disse, acompanhando com uma gargalhada.

 

"Ai que bom, consegui juntar todos à mesma hora"! Obviamente, nem que seja preciso fazer-vos esperar, porque se vocês estão à procura de emprego, é porque não têm mais nada que fazer! Ai que bom seria ter aqui uma garrafa de aguardente Aldeia Velha para  atirar a essa cabeça com voz de bagaço.

 

Entrou o meu rival, também sem um sorriso, aliás, o ânimo era imenso. Quem é que não quer recrutar uma pessoa assim? Lá fui esperando, lá consegui perceber que o meu rival conhecia alguém que conhecia o Director da empresa (podiam ter fechado a porta nessa parte) e que ali estavam apresentados e que o “Y” era amigo de “X”. Os risos aí foram muitos, aqueles risos cínicos e "very corporate". A entrevista deste não durou 10 minutos. 

 

Continua... 

 

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34 comentários

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De Chic'Ana a 29.05.2017 às 10:34

Estou curiosa para saber como termina esta "série"...

A situação que descreves é um pouco surreal..
Beijinhos
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 10:36

E não tive que colocar a minha fraca capacidade criativa no terreno, o que me permite esmiuçar cada detalhe… Quando cheguei a casa e contei isto à minha miúda, a mesma disse que eu devia aproveitar para fazer um filme...
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De Chic'Ana a 29.05.2017 às 10:37

Pois, eu concordo com ela... entrevistas da era moderna!
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 10:40

Se estiveres a falar de Era Moderna como o tempo da queda de Constantinopla, estou de acordo :-)
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De Chic'Ana a 29.05.2017 às 10:41

ahahah =)
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De Rita a 05.06.2017 às 20:56

A ler estes posts foi precisamente isso que pensei: isto dava um filme tão bom! :D
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De Robinson Kanes a 05.06.2017 às 23:38

E pelos comentários de muita gente, tínhamos muito por onde aproveitar.
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De Sónia Pereira a 29.05.2017 às 10:45

Olha, só as referências jornalísticas já me deixaram sem ar de tanto rir. Ainda pensei em abrir um Dão, como sugerido, mas ainda não são 11 horas e acho que é cedo para começar já a emborcar. Por isso, a leitura foi mesmo a seco, apesar dos conselhos do Carregal do Sal Zeitung.

Só te digo, sei que saíste vivo da entrevista, senão não nos estavas aqui a contar esta história, mas pelos detalhes da leitura confesso que temi pela tua vida. Que sítio mais sinistro, que pessoas mais estranhas e antipáticas. Parecia que tinhas entrado no filme Delicatessen e que aquilo era apenas uma fachada para alguma atividade mais macabra.

Mal posso esperar pelo teu tête à tête com a Cidalina. Livra-te de amanhã não continuares a história. :)
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 11:09

Tudo referências de alto nível e seguidas por milhões de leitores :-) (isto bem trabalhado e com saída nos canais certos e resultava).

Eu acho que com o "Delicatessen" estás a elogiar. Penso que é uma obra demasiado exigente para o que se encontrava ali :)
A antipatia reinava de facto, era estranho, mesmo entre colegas senti que as relações eram deveras estranhas. Ainda tentei perceber o porquê mas não tive tempo suficiente.

Fica prometido, e sim, amanhã é o dia do "tête-à-tête" :-)
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De A Hipster Chique a 29.05.2017 às 10:53

Surrealidade no seu máximo! Gostei muito :)
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 11:10

Em meu entender, o melhor ainda está para vir :-)

Obrigado!
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De Ana Patricio a 29.05.2017 às 12:38

Vim aqui ter porque ando a procurar trabalho.Obrigado por me fazer rir da desgraça.
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 14:33

Obrigado pela visita Ana e, no fundo, por ter caído aqui de pára-quedas. Ainda bem que se riu um pouco. No fundo é o que se pretende com este(s) artigos.
Obrigado!
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De Maria a 29.05.2017 às 15:12

Adoro o "Fogueteiro Business review"... AHAHAHAHAHHAH, és um espanto! (e sim, li até ao fim, não me fiquei por aqui)
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 16:17

ahahahahah
Saiu na edição da semana passada!

Obrigado por te teres dedicado a esta leitura :-)
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De m-M a 29.05.2017 às 16:33

Como pessoa com deficiência... fujo de empresas com essa política de responsabilidade social.

Em Portugal, não auguram nada de bom :/
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 17:14

Não percam as cenas do próximo episódio, porque nós também não :-)
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De m-M a 30.05.2017 às 09:45

Olha que estou curiosa, sim - e até falei destas peripécias lá em casa :)
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De HD a 29.05.2017 às 18:41

Eh lá, o post de hoje dava para uma season de sitcom xD
Aquelas referências originais no início são... nada corporate!!! :)
Muito bom, o que eu me ri :D
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 18:52

Em meu entender, as cenas mais caricatas ainda estão para vir! Por vezes pensas que já viste tudo, mas não…
São grandes referências de entidades acreditadas ahaahahah
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De HD a 29.05.2017 às 18:56

Até estou para ver o resto das peripécias :D
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 19:00

Ainda ninguém falou em "apoios", "pretos de Angola" e "filhos"...
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De HD a 29.05.2017 às 19:03

Ui ui ui palpita-me que virão alguns resquícios coloniais de debate público ;p
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 19:04

Resquícios coloniais… Resquícios de subsídios… Resquícios de mentalidade obsoleta… (em meu entender, claro).
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De HD a 29.05.2017 às 19:11

Vais dissecar toda uma réstia de comportamentos em desuso :D
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De Kalila a 29.05.2017 às 19:09

Amigo, nota máxima para as descrições e as referências jornalísticas!
Acho que nos vais brindar com a explicação das deficiências, nem quero falar nisso, que também sei, para não estragar a surpresa.
Cá espero o resto. Beijinhos.
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De Robinson Kanes a 29.05.2017 às 20:08

Obrigado!

Penso que não será nada de trágico, mas espero a vossa opinião :-)

Obrigado por acompanhares. Beijinhos.
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De O ultimo fecha a porta a 30.05.2017 às 00:08

Gosto destes temas, mas amanhã leio com atenção, a primeira e a segunda parte :)
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De Robinson Kanes a 30.05.2017 às 01:02

Estás sempre a tempo!

As melhoras!
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De Ana a 01.06.2017 às 09:29

Afinal já percebi que não dizer "Bom dia", é um requisito para trabalhar nesse sítio. Coisa que o outro candidato já sabia por ter lá conheciamentos.

"Todos tinham perdido um familiar nesse dia" é muito bom .

Agora essa do "Viking de Oeiras" não sei se me ria ou se é uma boca aqui à minha terrinha
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De Robinson Kanes a 01.06.2017 às 10:20

Viking - Cais do Sodré
Oeiras - a Entrevista

Não posso dizer mais pois não sou frequentador do primeiro espaço.

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