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Há Festa no Panteão! E Mais Houvesse!

por Robinson Kanes, em 13.11.17

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 Fonte da Imagem: Própria

 

E mais uma vez, a ditadura das redes sociais ditou que um não-tema se tornasse num dos mais comentados. O segredo para se conseguir algo do Governo, da Justiça ou seja lá do que for é colocando o mesmo nas redes sociais pois são estas bem mais importantes que a palavra ou a acção dos cidadãos. Liderarmos com base no que dizem as redes sociais vai-nos levar por um caminho perigoso...


Festas e outros eventos sempre existiram em monumentos nacionais! Fossem religiosos ou não, este tipo de eventos sempre existiu ou os jantares e as festas privadas de uns iluminados deste país nos Jerónimos (que rapidamente são abafadas quando se descobrem) são o quê? E outras tantas festas que acontecem em conventos e igrejas, são o quê? 

 

Será que os portugueses se revoltariam tanto se soubessem quanto custam aqueles jantares de Estado em Queluz, Mafra ou mesmo na Ajuda. Será que os portugueses se revoltariam com os luxos que pagam às autarquias, poder central, outras tantas instituições do Estado e subsidiodependentes de toda esta máquina? 

 

Não entendo a revolta com um jantar de gala num espaço que tem um custo de aluguer de €3.000.00! São os que criticam esses jantares que se revoltam por pagar para entrar nesses espaços! No entanto, se o Panteão estiver a cair aos bocados já nos revoltamos porque ninguém o repara ou fica em estado de choque quando vê o valor dos seus impostos reflectido no funcionamento dos mesmos! Quem me dera que todos os dias existisse um jantar no Panteão e outros monumentos nacionais, desde que salvaguardando o património.

 

Vamos proibir as visitas turísticas, porque são entretenimento, vamos proibir os espectáculos musicais porque são entretenimento, até o artigo que escrevi em tempos sobre o Panteão é uma devassa do espaço e deve ser proibido! Não sugiro que se façam "raves" no Panteão, todavia um jantar de gala é um evento nobre, protocolar! Só num país onde as pessoas estão habituadas a ter tudo de mão beijada se pode colocar esta questão, não admira por isso que as contas públicas sejam o que são.

 

Eu ficaria do lado dos contestatários se estes perguntassem porque é que algumas figuras lá estão sepultadas e outras não... Se são estes os nossos heróis, diria que alguém não estudou história. Sobre isso não vejo ninguém a colocar questões. Destes contestatários, quantos já foram ao Panteão? Quantos sabem quais as figuras que lá estão sepultadas? De repente os comentadores de tudo e de nada tornaram-se patriotas porque sempre dá mais uns "likes".

 

Todos os dias existem eventos em Portugal e não são só aqueles que surgem nas televisões. Todos os dias somos visitados por grupos de empresas que realizam imensos eventos e usufruem também destes espaços, pagando pelos mesmos e garantido a conservação e funcionamento destes. Até naquilo que é de todos queremos ter a nossa "quintinha"? Ainda criticamos o orgulhosamente sós que um estadista em tempos proferiu. 

 

Surpreende-me também que o próprio Primeiro-Ministro tenha apelidado esta iniciativa de indigna aproveitando a mesma para, políticamente, criticar o Governo anterior, esquecendo que bem antes do mesmo já haviam lá sido realizados eventos com a chancela do seu partido e até do próprio António Costa, quem diria! Então não estarão lá potenciais investidores na economia do país? Não estamos a trabalhar pelo desenvolvimento de Portugal? Até porque alguns dos que lá estão sepultados ao invés de darem algo ao país, sempre viveram foi à sombra do dinheiro deste país. Uma nota de destaque para Paddy Cosgrave que rapidamente veio a público pedir desculpas. Reconheço que foi um acto de nobreza, mas não o deveria ter feito - solicitou um serviço que lhe foi prestado. Também Marcelo Rebelo de Sousa, na sua já habitual atitude de cata-vento da nação criticou o jantar, tudo a bem das sondagens e depois de perceber a reacção popular. Eu criticaria as feiras do livro (comerciais) em Belém... Sobretudo quando este tem um histórico de promover livros na televisão, maioria dos quais nunca leu... É sempre mais confortável seguir a linha da popularidade, sempre nos dá um destaque...

 

Mas finalmente falemos de mercantilização - se para os partidos e senhores deputados deste país o Panteão não deve ser mecantilizado, então deixemos de financiar também os partidos que devem ser independentes na sua acção a favor do país! Deixemos também de mercantilizar as almas de muitos deputados, sindicatos e funcionários deste país a bem da sobrevivência do mesmo! Será que se não fosse a mercantilização dos reais interesses da nação muitos destes senhores optariam pelo caminho político? Não me parece!

 

O dinheiro não cai do céu, embora por cá todos tenhamos a ideia de que podemos gastar o que temos e o que não temos que depois alguém paga a conta... Não é assim! As coisas têm custos e esses custos têm de ser pagos e se for através do encaixe que advém pela dinamização e divulgação destes espaços, porque não?

 

Quem se quiser revoltar, revolte-se com isto: em tempos tive de organizar um evento num monumento nacional, um dos mais importantes deste país! Pagámos o espaço e alguns serviços adjudicados em exclusividade (que o mesmo espaço obrigava a contratar) e no final, aquando da recepção das diferentes facturas, temos um recibo ("recibo-verde") da pessoa que acompanhou o processo (receber-nos e enviar os custos somente). Questionámos e foi-nos dito pela mesma que era assim! Estranhámos a situação e indagámos junto de entidades que já haviam passado pelo mesmo e que nos aconselharam a não falar muito e pagar sob pena da respectiva pessoa nos dificultar a vida ao máximo e quase embargar o evento! Estamos somente a falar de uma técnica que trabalhava naquele espaço! Mas mais uma vez, criticar uma festa é mais cómodo do que criticar corrupção, porque aí pode algo pode explodir bem perto de nós e ninguém quer levar com estilhaços!

 

Que bom seria, se todos os dias existisse um jantar no Panteão e que toda esta raiva por parte de muitos cidadãos e políticos tivesse sido demonstrada quando mais de 100 heróis nacionais perderam a vida há menos de 6 meses! Que esta raiva se unisse contra os grandes problemas estruturais deste país e deixássemos os afectos e os aspectos decorativos para depois...

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Com Lenine, Estaline e Tchaikovsky...

por Robinson Kanes, em 10.11.17

IMG_20171110_090509.jpgFonte da Imagem: Própria.

 

Por estes dias "celebrou-se" o aniversário da revolução soviética pelo que, embora tenha muitas questões em relação à mesma, não podemos negar que nos ficou comouma marca histórica que não pode ser apagada, mesmo que esse fosse o modus operandi, aliás, continua a ser, de uma esquerda mais radical. Foi isto que me deu a ideia para criar este artigo que já vai sendo de sugestões para o fim-de-semana e para a semana...

 

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 A primeira prende-se com Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido por Lenine. Mas não vos vou falar do estadista mas sim de um filme que é um dos relatos ficcionais mais brilhantes da história do cinema: o filme alemão "Good bye Lenin!" ou como é conhecido em Portugal, "Adeus Lenine!". Para muitos é uma comédia, para mim é um drama, sobretudo se escutarmos atentamente a banda sonora (Yann Tiersen) e nos deixarmos envolver na história. É o relato de uma mulher, comunista fervorosa que após um coma de 8 meses em 1989, desperta já em 1990 numa Alemanha unificada, onde já não existe divisão. Para evitar futuros ataques cardíacos, o filho, um anti-comunista, tudo fará para proporcionar no apartamento de Berlim uma encenação de como a Alemanha de Leste continua activa e o comunismo não caiu. O grande desafio vai ser, num país que abre os braços ao capitalismo, tudo fazer para parar a história. Um filme alemão dos mais brilhantes do século XXI e um dos meus preferidos onde política e família desempenham um papel ímpar e digno de apreciação. Este filme foi galardoado com um Goya, um César e tantos outros prémios. 

(Fonte da Imagem:http://www.wartburg.edu/2017/01/24/wartburgs-german-film-series-continues-with-good-bye-lenin/)

 

 

 

 

De Lenine, vamos até Estaline onde "A Vida Privada de Estaline", de Lilly Marcou merece o meu destaque. Uma daquelas biografias que não nos cansam, mesmo que descritas com minúcia. Mostra-nos sobretudo o homem com um carácter mais humano e familiar contra o homem que vive na obcessão da traição e que o fazia eliminar todos aqueles que julgava serem potenciais traidores, inclusive alguns dos que lhe eram mais queridos. Fala da eliminação de Trotsky e de como se aproximava daqueles que, pelos quais, não nutria grande simpatia e afastava quem já não lhe pudesse acrescentar nada de novo aos seus planos como foi o caso de Kamenev, após o assassintato de Trótski.

É um livro nada tendencioso e que não teme em elogiar, quando assim tem de ser, o monstro que, segundo muitos, exterminou mais seres-humanos que o próprio Hitler. Interessante será observar a relação deste com a mãe.

 

Finalmente, temos de abrir espaço para um génio e para um dos mais belos concertos para violino: Pyotr Ilyich Tchaikovsky e o "Concerto para Violino em Ré Maior Op. 35". Para mim é uma obra-prima e talvez um dos mais belos concertos alguma vez compostos! É daqueles registos clássicos que ouvimos vezes sem fim e que para os intérpretes é um desafio e tanto na medida em que é conhecido pela sua dificil execução. Cá por casa é presença habitual e já me tem valido alguns comentários do género "não ouves mais nada?". Estreado em Viena tem a particularidade de ter sido dedicado a Leopold Auer que se recusou a interpretar o mesmo, recaindo uma segunda dedicatória em Adolf Brodsky. Composto em 1878 na Suiça é talvez a expressão da depressão que o afectou então a propósito do divórcio com Antonina Miliukova! Para os que não apreciam música clássica, não tenho a mínima dúvida que serão os 35 minutos musicais mais preciosos que poderão escutar, o primeiro andamento (Allegro Moderato) será o suficiente para vos conquistar. Não faltam intérpretes a percorrer a obra do autor, por cá, Valeriy Sokolov é um deles, no entanto rapidamente encontramos vários em registo de disco ou nos canais online.

 

É um concerto inspirador e uma presença constante em momentos mais tenebrosos mas também naqueles momentos em que são necessários decisões com impacte em larga escala. Não gosto de entrar neste tipo de rótulos mas é sem dúvida uma das 10 músicas para ouvir antes de morrer. Deixo-vos numa interpretação feminina de Julia Fischer com a Orquestra da Radio France.

 

Bom fim-de-semana e... Sonhem...

 

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Perigo! Zona de "Selfies"...

por Robinson Kanes, em 09.11.17

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 Fonte da imagem: https://www.diyphotography.net/a-fatal-month-for-selfie-photographers-why-is-it-so-dangerous/

 

Numa época em que tudo é vendável, em que é possível vender um fio de cabelo, uma falsa imagem ou até, como uma actriz brasileira de 43 anos, utilizar um outdoor para publicitar a virgindade a troco de estabilidade financeira, será importante perceber se, numa Era em que atingimos o ex-libris máximo da troca de informação e da exposição, não devemos começar também a estimular o nosso espírito crítico acerca de tudo aquilo que nos rodeia, seja bom ou seja mau - uma espécie de contraste ao Admirável Mundo Novo sem nos sentirmos uma espécie de “Sr. Selvagem”.

 

Ainda me recordo do desvio de um avião há mais de dois anos, onde temos um pirata do ar que, procurando exposição e “dar nas vistas” (não me vou debater sobre problemas de carácter psicológico), desvia um avião do Egipto para o Chipre, somente porque tem uma carta para a antiga mulher. Ao que sei, no Egipto existe aquilo a que podemos chamar os CTT locais, ou até empresas de distribuição ao estilo UPS ou DHL. Mas porque não desviar um avião? 

 

Soubesse eu isto, e quando frequentava o ciclo, tinha desviado a carreira 18 para ir entregar a casa da Madalena aquela carta de amor cheia de erros... Mas tremendamente apaixonada, pelo menos até ter conhecido a Maria no dia seguinte ou a Luísa do 9ºano na semana que viria depois.

 

A isto, junto aqueles indivíduos que depois de um avião ter aterrado com os motores em chamas estão mais preocupados em filmar o momento e levar os bens do que propriamente evacuar o mesmo o mais rápido possível! Casos destes não faltam. E o que é que devemos fazer numa situação de pânico ou terror? Fugir? Ajudar quem possa necessitar? Não! Fotografar ou até filmar e de preferência com a nossa face sempre presente, com direito a relato e com aqueles sons típicos de esforço e sofrimento. Só me lembro de um indivíduo durante a época de incêndios em Portugal, numa auto-estrada rodeada de chamas, a passar a imagem de que estava perante o medo da morte e em pânico, mas a conduzir de telemóvel em riste e a emitir verbalmente o seu pânico! Eu vou morrer, mas vou morrer com estilo! Aliás, se morrer é que isto vai ter visualizações que nunca mais acabam!

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 Fonte da Imagem:http://www.newsdon.com/a-panic-picnic-of-bengaluru-students/

 

Mais uma vez, a informação e o modo como tudo é empolado e espalhado a uma velocidade incrível permite que este tipo de comportamentos se continue a repetir, a causar impacte e até desculpabilizar o autor em muitas situações. Aliás, embora acabasse também com a morte do piloto, tivemos o horror de assistir à queda de um avião nos Alpes onde o factor “impacte mediático” teve um grande papel na tomada de decisão do suicida/homicida.

 

Mas se tudo isto é chocante, mais chocante é a destreza que um indivíduo pode ter para, em pleno sequestro aéreo - e agora coloco a questão “medo instalado” a funcionar – onde um outro indivíduo de origem árabe diz ter um cinto de explosivos e, tendo em conta acontecimentos recentes, não mostra qualquer ressentimento em morrer e matar - convidar este último para uma fotografia, vulgo selfie ou selfie vulgo fotografia, deixo ao cuidado do leitor a interpretação desta troca.

 

Que dirão os amigos destes indivíduos, isto se o "SD card" se salvar. Elogios pela bravura e pela coragem ou elogios por ser tão negligente que por um dia de fama coloca em risco a sua vida e até de outros?  No caso de um sequestro aéreo eu sugiro que o Ideal passa por termos uns pilotos decapitados para dar mais humor a uma situação que já por si era uma verdadeira comédia. Aliás, eu próprio, antes de levantar dinheiro no multibanco, já olho em volta no sentido de perceber se algum larápio vai explodir e roubar a ATM. Posso sempre abordá-lo para uma fotografia, vulgo selfie e com sorte fico com os meus minutos de fama e quiçá até apareça num canal regional da Hungria ou do Kiribati e me torne popular no facebook.

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Fonte da imagem: https://disciplesofhope.wordpress.com/2016/02/19/if-not-yet-warned-then-remember-to-avoid-dangerous-selfies/

 

Também em recente contacto com uma força policial portuguesa, soube que estão a ser distribuídos "iPads" aos agentes para situações que envolvam reféns tal é a eficácia e a facilidade com que, com esses instrumentos, se chega aos sequestradores. Cuidado com os snippers, porque assim que colocarem a cabeça ou o resto do corpo a jeito o melhor atirador da polícia “saca-vos” uma foto e aí não há como fugir - atingido em cheio! Já estou a imaginar os negociadores a pedirem aos raptores para mostrarem só a cabeça que é para a foto e lá vem o sequestrador com um sorriso notty para a posteridade.

 

Será interessante, agora que temos acesso a galáxias de informação, termos alguma cautela com o que valorizamos, sob pena de nós próprios também estarmos a colocar as nossas vidas em risco, sobretudo quando uma vida vale menos que uma selfie ou um post no facebook. Não podemos ser quadrados nem cinzentos, no entanto, também não podemos cair no ridículo de valorizar actos, situações ou momentos que são a realidade vivida e que envolvem outros, que naquele mesmo momento, naquele local ,muitas vezes ou lutam pela vida ou simplesmente perderam a esperança de voltar a ver os seus.

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Barceloneta, Onde Fica o Coração...

por Robinson Kanes, em 08.11.17

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Do Port Olímpic caminhamos facilmente junto ao mar pelo passeio marítimo. Este é talvez um dos melhores programas entre o bulício de uma moderna metrópole e o azul do mediterrâneo, isto, enquanto observamos as crianças de diferentes origens e nacionalidades no "Parc de la Barceloneta". E é aí, ao chegar a Barceloneta que o ar tem outro cheiro, que uma diferente Barcelona olha para nós e nos apela a deixar o mar apesar do convite dos bares mais turísticos.

 

Barceloneta não é um bairro muito antigo, percebe-se pela arquitectura. Nasceu no século XVIII quando os habitantes da "La Ribera" foram expulsos por Filipe IV que ordenou a construção da "Ciutadella". Foi, e é ainda, um bairro típico de pescadores e operários (uma dos ambientes que gosto de frequentar), todavia, bem diferente daquele que era antes da modernização de que foi alvo aquando dos Jogos Olímpicos em 92.

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Lembro-me de Barceloneta que, segundo alguns, inspirou Cervantes numa passagem de D. Quixote, e sentir inveja de ver muitos dos meus amigos morarem naquele bairro - denote-se que estava a viver em Ausiàs Marc, pelo que não me poderia queixar, pelo contrário. Barceloneta é o expoente máximo da cultura mediterrânica em Barcelona (apesar de ser um bairro recente), dos cheiros, das conversas, da vida e contrastes que nos fazem indagar se estamos no norte de África, ou num qualquer bairro do sul de Itália. Mas não comparemos, Barceloneta é diferente. Foi lá que aprendi a cozinhar alguns petiscos senegaleses, foi lá que descobri uma forma low-cost e eficaz de polir faróis, foi também naqueles recantos que, entre peixe frito e outras tapas únicas me foi possível conhecer grandes indivíduos.

 

É também aqui que fica o "La Bombeta", um pequeno restaurante e sempre apinhado de gente e que acabava por ser o escape aos restaurantes caros e tremendamente turísticos do "Passeig Joan de Borbó". Aliás, como qualquer bairro, para se encontrar boa comida e... bons amigos, o ideal é sempre ir para o centro, neste caso, alguns dos mais especiais encontram-se perto do "Mercat de la Barceloneta", uma óptima alternativa à carérrima e descaracterizada "Boqueria". Basta seguir pela "Carrer de la Maquinista" que é também onde se encontra o "La Bombeta". Nem cinco minutos são a pé e sempre é possível recordar os bombardeamentos da aviação alemã durante a "Guerra Civil" através da inúmeras placas que se encontram espalhadas. Também é aí que temos uma imagem tipicamente mediterrânica, com habitantes locais à conversa e crianças ainda a brincar na rua - uma raridade - bem mesmo em frente na "Plaça de Pompeu Gener". E depois de tantos recantos, perceberemos que o "La Bombeta" nem é o melhor de todos...

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Neste pequeno bairro conquistado ao mar, existe também espaço para apreciar o património que vai para além das construções civis, refiro-me sobretudo à "Església de Sant Miquel del Port", uma igreja barroca que vibra, quando em Setembro, Barceloneta é um palco de festa com cortejos e uma animação no bairro e nas praias. É totalmente impossível não ficar contagiado pelas danças e folia daqueles dias. Penso que só em Andaluzia conseguem isso de mim, até porque não sou de danças, mas este foi um dos locais onde não consegui resistir.

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Uma outra nota de destaque é o edifício e o próprio "Museu de História da Catalunha", já na direcção do "Port Vell". Este museu é interessante, pois além de contar a história da Catalunha desde a época pré-história é bastante interactivo, os miúdos adoram-no e os adultos apaixonam-se pelo restaurante no piso superior com um terraço e umas vistas únicas para o "Port Vell".

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Recordo agora com saudade a praia depois de umas animadas conversas entre vinho e comida em alguns dos pequenos recantos de Barceloneta... Recordo aquele momento que nos fins de tarde outonais tinha para mim um encanto especial, mais do que no Verão onde os turistas e os próprios habitantes da cidade preenchem o espaço até à exaustão. Recordo o dia em que tirei algumas destas fotografias, um dia em que vesti a pele de turista e não senti nem um terço das emoções que se têm como habitante...

Barcelona é especial e se admito que o meu coração ainda hoje está naquela cidade, por certo está bem guardado num qualquer local de Barceloneta, possivelmente numa das varandas à espera que o resto do corpo o encontre um dia.

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Recursos Humanos: "Jobs for the Boys".

por Robinson Kanes, em 07.11.17

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Fonte da Imagem: http://www.npr.org/2016/11/15/502250244/to-make-the-godfather-his-way-francis-ford-coppola-waged-a-studio-battle

 

 

Deve ter cuidado. Ser um homem honesto é perigoso. 

Mario Puzo, in "O Padrinho"

 

 

Há muito tempo, remeti esta carta a um Director de Recursos Humanos para Portugal de uma multinacional:

 

Bom dia, Estimado C.,

 

Espero que este meu email o encontre bem, e escrevo em português porque sei que domina a língua como ninguém. Poderia fazê-lo em francês, mas porque não utilizar a língua do país em que está.

 

Este meu email,vem no seguimento de uma apresentação que vi sua onde mostrou a importância de detectar talento na "X" e a sua visão sobre essa área, gostei imenso da parte da "servidão" em relação à chefia, sobretudo porque sempre tive uma relação aberta com as minhas chefias e isso sempre foi interessante, não fossem muitas delas estrangeiras. Mas enfim, os portugueses gostam de servos e aí eu não me encaixo.

 

Espero também que o rigor de recrutamento da "X" seja esse que aponta. Sabe, não sou adepto do networking e muito menos do personal branding e se tenho LinkedIn foi porque começou como trabalho e lá foi ficando. Para mim não, mas entendo a importância que as redes sociais têm em termos de mercado, talvez por isso as trabalhe, mas não me deixe contagiar, sim não tenho uma vida propriamente feliz para lá expor. Digamos que networking em termos de RH é o novo nome para "cunha/compadrio" espero que perceba o que digo. Perdoe-me, mas sou daqueles que acredita no trabalho e mais do que em competências técnicas (muitas vezes empoladas), acredita nas competências "soft" ou se quiser "sociais".

 

Sim, também já me candidatei várias vezes à "X" via "black hole" dos HR, o recrutamento online por candidatura espontânea, ou seja, aquele em que acreditamos que um dia alguém vai olhar para a nossa candidatura mas... "nunca" olha.

 

A minha questão é simples: não sendo adepto de networking pessoal, nem de grandes favores deste e daquele, como é que é possível nos dias de hoje ser reconhecido no mercado de trabalho? Sobretudo porque já poderia ter um CV ainda melhor se tivesse cedido à tentação dos favores.

 

Espero também, que nessa sua leitura, os seus colaboradores também um dia possam olhar para o meu CV e dizer: "bem, este indivíduo merece pelo menos uma oportunidade".

 

Um Abraço,

 

"Robinson Kanes"

 

 

A verdade é que tive uma resposta bastanto positiva, pois o C. respondeu-me e pediu-me uma data e hora para agendarmos uma reunião. Todavia, o C. copiou o responsável de recrutamento daquela organização, a típica chefia intermédia portuguesa. A partir desse ponto as coisas alteraram-se, a resposta tardou e só foi obtida com o seguimento que fiz a posteriori. Dois dias depois, pelas 14h, recebo finalmente um email do responsável de recrutamento que me faculta um número de telemóvel e me pede para falarmos às 15h... Deduzi que a reunião presencial ficara sem efeito e que quem estava ao comando era agora o indivíduo que me contactava e assim com aquele espaço temporal, varria a situação para debaixo do tapete. Aliás, a forma como agendou o contacto era claramente para boicotar a reunião. Por sinal, acedi ao email antes das 15h. Vamos chamar-lhe E.

 

O E., estava no perfil de LinkedIn como se tendo formado numa área e ter começado a carreira pela porta grande numa outra totalmente diferente. Confesso que pensei de imediato que iria falar com a pessoa errada, e assim foi... Estas coisas cheiram-se.

 

Perante as minhas questões a resposta que obtive foi "oh Robinson desculpe, eu recebo muitos CV por dia, acho que tenho tempo para ler algum? Agora só referências ou contactos, não tenho tempo para ver CV e alguém com a experiência que você já tem se não o fizer ninguém o chama". Sempre pensei que o screening fosse uma das principais funções de um recrutador, mas pelos vistos não, as relações públicas (privadas?) são agora uma das suas mais extensas funções. Mas este indivíduo foi mais longe: "o mercado é assim, ou você se adapta ou já era, sem contactos que o coloquem aqui e acolá nunca vai arranjar emprego. Tem de pensar que os amigos são quem melhor o conhece e melhor o pode ajudar" ou então pode sempre abordar no LinkedIn e pedir-me! Muitos não fazem isso, mas eu faço muito, vejo os contactos que a pessoa tem também e nunca se sabe".

 

Finalmente, questionei: "então e as ofertas que colocam no V/site?". A resposta foi de que não havia tempo para olhar para as mesmas. Ainda pensei porque é que se faziam campanhas para atrair talento para aquela organização (até porque a mesma se gaba da transparência e por ser óptima a atrair talento), mas apercebi-me que estava a falar com um corrupto e não iria mudar a opinião do mesmo.

 

A conversa ficou por ali, até porque o E. já tinha em mente dar um salto para uma outra organização empresarial, algo que acabei por saber semanas depois. A verdade é que desisti daquela conversa, era uma luta que não faria sentido, pelo que, optei por boicotar as marcas vendidas pela organização. Vem este texto bem a propósito de mais uma recente notícia em que o interesse, neste caso do país, é posto em causa, quando os amigos são os preferidos para ocupar cargos de responsabilidade, e assim vai a ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil).

 

Lembram-se da carta aberta que enviei a um director-geral de uma empresa de recursos humanos? Tive resposta. Uma resposta cordial, acompanhada com um pedido de desculpas (corporativo e pessoal) e com uma promessa do próprio em iniciar uma investigação interna para detectar estas más práticas que, segundo o mesmo, não vão de modo nenhum ao encontro do que é defendido na organização. Por motivos óbvios, não colocarei aqui a resposta completa sob pena de deixar transparecer a organização em causa.

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Paleo? Não é Realista!

por Robinson Kanes, em 06.11.17

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 Bodegón con Costillas , Lomo y Cabeza de Cordero, Francisco de Goya - Musée du Louvre

Fonte da Imagem: Própria.

 

Sempre que surge uma nova "dieta", existe um vasto número de "nutricionistas" na nossa praça que quase nos obrigam a aderir à sua ideologia alimentar. Para mim, e por ser um tema demasiado sério para andarmos a brincar com o mesmo ou a assumir o papel de um especialista, penso que cada um de nós deve consultar sempre um profissional da área... Não estamos propriamente a adquirir ou a aderir a uma forma de vestir - a "última" tendência é o Paleo ou os "Primitivos Modernos" ou "Neo Primitivos".

 

Não sou seguidor da corrente e muito menos especialista na área da saúde alimentar pelo que estudei um pouco sobre a matéria, mas não o suficiente, reconheço, pelo que os vossos comentários serão mais que importantes. Nestas matérias mais do que embadeirarmos algo em arco, só porque é cool ou está na moda, temos de ver todas as frentes, eu vou-me focar nos contras, porque prós não faltam, embora mencione alguns.

 

O desenvolvimento desta tendência tem por detrás o polémico Chef Pete Evans. Evans defendeu nos media que se começássemos a replicar a alimentação dos nossos antepassados do paleolítico, a nossa saúde melhoraria substancialmente. Pete Evans, apenas criou uma tendência, e com o devido usufruto para o próprio, mas temos de ter em conta que é só isso e até aí, nada a apontar. Importa sublinhar, contudo, que Evans apenas mediatizou o que já vinha a ser estudado por alguns especialistas que defendem esta prática há mais de 40 anos. Desenganem-se aqueles que pensam que é uma descoberta recente, livros dos anos 70 não faltam.

 

Um dos maiores contestários de Evans, é Marlene Zuk, especialista em Biologia Evolutiva na Universidade do Minesota e uma referência na área. Esta advoga que a dieta Paleo é baseada na ideia de que a genética humana não mudou desde há 10.000 anos para cá, nomeadamente, desde o desenvolvimento da agricultura. Todavia, mais uma vez e segundo a mesma, os nossos genes mudaram e isso fez com o nosso organismo possa perfeitamente "aceitar" alimentos que nunca seriam aceites pelo Homem do Paleolítico. Os especialistas como Zuk vão mais longe, e assumem até, que pouco sabemos do que se alimentavam os nossos antepassados pelo que não podemos sustentar tal teoria. Zuk é a autora do livro "Paleofantasy: What Evolution Really Tells Us about Sex, Diet, and How We Live".

 

Uma outra questão, prende-se com o facto dos defensores desta corrente excluirem das épocas históricas a questão social e das próprias necessidades - à época o homem tinha de caçar ou recolher o que a natureza lhe dava, hoje isso não é necessário, pelo que ficará a questão: justifica que nos comportemos como tal? Coloca-se ainda a questão de que tudo o que comemos actualmente, ou quase tudo, já sofreu a transformação do homem e da própria evolução natural - não podemos conceber que as frutas, legumes e até carne de outrora existam hoje como existiram um dia. Temos de ter cuidado e ter em conta que a tendência paleo não resolve todos os problemas de saúde, como em alguns casos já se tentou fazer crer - a propósito disso, este artigo publicado na Lancet, demonstra que o Homem de outrora não era propriamente aquele ser belo, de corpo esculpido e saudável. Já vão sendo realizados alguns estudos, todavia, muitas doenças poderiam não ocorrer no paleolítico pelo simples facto de muito poucos atingirem uma grande longevidade... Além disso, as doenças actuais não estão só relacionadas com a idade mas também com o estilo de vida e outros factores que vão bem para lá da alimentação. 

 

Outro pormenor prende-se com o facto do Homem, ao longo da história, ter estabelecido diferentes dietas que sempre dependeram da geografia e da variedade de "produtos" disponíveis. Recomendo o artigo de William Leonard na Scientific American de Dezembro de 2002 e este outro da Nature realizado com base no estudo do ADN da placa dentária dos Neandertais - se gostarem desta matéria, para lá das dietas, é sem dúvida uma viagem interessante. Ambos os estudos têm acesso pago e por esse motivo as minhas desculpas.

 

Um outro factor, e aqui creio que podemos extender a todas as dietas, está relacionado com a importância de prevenir aquilo a que os americanos chamam o "what the hell effect", algo como "efeito, mas que raio" e que não é mais do que sublinhar que a prática de diferentes dietas não leva a uma perda de peso, bem pelo contrário. Este comportamente surge também devido à vulnerabilidade a que muitos estão sujeitos assim que "caem em tentação". Neste campo, os estudos vão mais longe, e apontam que basta só a ideia de se ter quebrado determinado regime alimentar, para que os indivíduos percam o auto-controlo. Sugiro este estudo da Universidade de Toronto. 

 

Finalmente, a adopção de determinados hábitos como o regime paleo, pode levar, inclusive, à perda de um ambiente social agradável e também a restrições que são irrealistas para os dias de hoje. Esta é também a opinião de Charlotte Markey, psicóloga e professora na Rutgers University com 15 anos de investigação nesta área. Sugiro o livro "Smart People Don't Diet: How the Latest Science Can Help You Lose Weight Permanently" e também o artigo "Don't Diet!", da autoria da mesma, e publicado na Scientific American Mind de Setembro/Outubro de 2015. Podem encontrar o artigo online mediante pagamento ou adquirir, como eu, a revista.

  

Todavia, nem tudo é mau, uma das vantagens apontadas para esta dieta, é a ausência das chamadas "comidas processadas". Penso que aí é indiscutível. 

 

Com isto, não procuro censurar quem segue estes hábitos (é uma escolha dos próprios, livre e que deve ser respeitada), contudo, temos de ter cautela quando utilizamos o conceito de ciência como se fosse marketing ou um lifestyle, até porque dizer que hoje é possível adoptar uma forma de estar paleolítica é totalmente absurdo - ainda não conheci ninguém que adira a este modo de estar e viva numa caverna sendo recolector ou caçadorO ideal, será sempre conhecer diferentes perspectivas e, sobretudo, quando é de saúde que falamos, conversar com os verdadeiros especialistas (a favor e contra). 

 

 

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Fonte das Imagens: Própria.

 

Mesmo junto ao local do meu nascimento, bem no centro de Lisboa, onde o Saldanha se agiganta enfrentando a rotunda do Marquês, onde o Sheraton oculta a Maternidade Alfredo da Costa, encontra-se uma das jóias do património nacional que é de todos nós: a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

 

Também conhecida por "Casa Malhoa", pois deveu-se ao pintor a ordem para a execução do projecto do arquitecto Norte Júnior, bem nos alvores do século XX, mais precisamente em 1904-05! Aliás, o Prémio Valmor, logo após a sua construção, demonstra o carácter arquitectónico de extremo encanto deste espaço que viria também a ser o atelier do artista!

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Estamos perante uma relíquia no centro de Lisboa, sobretudo numa zona cosmopolita, onde os altos edifícios modernos e as "Avenidas Novas" quase a tornam oculta ao olhar dos transeuntes. Todavia, a majestade não se perde e permite que no meio de muitos gigantes e cinzentos prédios, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves se resguarde do futuro e lance uma aura que a protege do bulício citadino. 

 

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A casa, contudo, é conhecida hoje por este nome, pois em 1932 foi adquirida por Anastácio Gonçalves um coleccionador de arte  que por vontade expressa a deixou, após a sua morte em 1965, ao Estado Português. O espólio é tal que, segundo a Direcção Geral do Património Cultural, conta com 3.000 obras de arte divididas em três núcleos: pintura portuguesa dos séculos XIX e XX, porcelana chinesa e mobiliário português e estrangeiro. Conta também com património de ourivesaria civil e sacra, pintura europeia, escultura portuguesa, cerâmica europeia, têxteis, numismática, medalhística, vidros e relógios de bolso de fabrico suíço e francês, sem esquecer alguns desenhos, aguarelas e pequenos artefactos pertencentes ao espólio do pintor Silva Porto. Genial!

 

Como confesso admirador de pintura, além da arquitectura, esta é para mim um dos pontos fortes do espaço e que nos leva por uma viagem sem igual pela pintura portuguesa do periodo romântico (Tomás da Anunciação, Vieira Portuense, Miguel A. Lupi e Alfredo Keil) e Naturalista (Marques de Oliveira e Silva Porto). O atelier é um gáudio no que à obra do pintor Silva Porto concerne! Mas se pensam que ficamos por aqui, juntem-lhe também nomes como José Malhoa, João Vaz e claro, Columbano Bordalo Pinheiro - três nomes que por si só valem já a visita!

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Estamos perante uma riqueza primorosa e que vai surpreender aqueles que ainda desconhecem um dos mais belos recantos de Lisboa. Diria até que nos sentimos a regressar àquela época e ficamos a sentir e a ouvir uma Lisboa diferente, sem os automóveis e os ruidos modernos, mas sim uma Lisboa antiga e, sobretudo à época e naquele local, de um glamour ímpar.

 

Mas se é de sons que falamos, também aqui se realizam, além de conferências e seminários, alguns recitais! E como é deleitável estar num local destes e poder desfrutar de um concerto de música clássica, por exemplo. Mesmo para quem não gosta, acredito que seja uma experiência única, como a que teve lugar no dia 04 de Outubro e que contou com a "Ludovice Ensemble" a interpretar obras de Sebastien Bach, Handel, Telemann, Vivaldi e outros.

 

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 Túlia Passando Sobre o Cadáver do Pai - Columbano Bordalo Pinheiro (estudo). A tela final encontra-se no Museu Nacional de Arte Contemporânea.

 

Se em Lisboa ainda existem espaços capazes de nos fazer viajar no tempo, sobretudo num tempo não muito distante, a Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves é um deles! Acredito que naquele atelier, onde Malhoa se inspirou, não nos faltará vontade de trajar à época e dançar, cantar ou simplesmente contemplar, para lá dos lindissímos vitrais, uma Lisboa de outros tempos...

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 Lugar do Prado (Santa Marta-Minho) - António da Silva Porto

 

E no final, porque não descer pela Avenida Fontes Pereira de Melo e terminar com um piquenique no Parque Eduardo VII ou no Jardim Amália Rodrigues? No entanto, admito... O meu maior desejo é mandar colocar mesas naquele atelier e convidar todos aqueles pintores! Ali, reunidos a degustar um óptimo almoço, a dissecar diferenças e inovações entre o ontem e hoje, seria sem dúvida um dos dias mais perfeitos da vida de qualquer um de nós... Tudo isto, sem esquecer uma pintura final, com todos os comensais à mesa, não como "Os Bêbados" de Malhoa, mas como o "Grupo do Leão" de Columbano ao som de uma das melodias de Keil (que também pintava, como poderemos aferir no espaço da casa).

 

 

Para mais informações, podem sempre consultar o website do espaço.

Bom fim-de-semana...

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Horta Osório e um Alpinista: Veja as diferenças.

por Robinson Kanes, em 02.11.17

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Fonte da Imagem: http://brobible.com/life/article/limo-driver-make-a-wish/

 

Aeroporto de Lisboa, Setembro de 2017...

 

Encontrávamo-nos nas chegadas à espera do shuttle para nos levar ao parque de estacionamento quando reparamos que atrás de nós surge o banqueiro António Horta Osório. Discreto, o mesmo saiu do aeroporto e dirigiu-se para um veículo que o esperava. Ao reparar que Horta Osório se aproximava, o motorista, um senhor já com alguma idade, sai disparado da viatura. Horta Osório, contudo, chega primeiro, abre a mala do carro, coloca a sua bagagem e ainda abre a porta a quem o acompanhava cumprimentando amavelmente o motorista...

 

Reparámos naquela atitude e lembro-me de ter dito à minha miúda: "estás a ver porque é que privilegio ter relações com o topo ou então com as bases da pirâmide social?". Lembro-me também que a mesma se riu divertidamente e disse que lá estava eu com o meu mau-feitio.

 

Mas na verdade... Poucos minutos depois surge um outro indivíduo, ainda jovem nos seus 30 anos. Não tivesse eu conhecimento do corporate diria que era mais um indivíduo de baixa linha quem nem chefia intermédia seria... Todavia, apresentava aquele ar "pimpão" muito típico actualmente e que pensa que chegar ao aeroporto é coisa de novo-rico. O nosso vendedor, de repente, vê um táxi a chegar e corre na direcção deste (a "gentleman never run"). Chegando perto do motorista que já conhecia, solta um:

-Isto é que é serviço, hein...

 

Nunca percebi o porquê do ar gingão e aquele movimento do abanar-se ser uma coisa tão nossa, parecemos uma gelatina em forma de indivíduo... estúpido? Ou então ficamos parecidos com aqueles cães que se colocavam nas chapeleiras dos carros e que abanavam o pescoço como se estivessem a ouvir música numa qualquer matiné dançante na Associação de Pensionistas, Reformados e Idosos do Samouco.

 

Cumprimentaram-se, o motorista genuínamente feliz por ver tal personagem e eis que, ainda na fase dos cumprimentos, o outro indivíduo lhe dá um toque, olha para as malas e aponta para a bagageira numa espécie de "olha lá, somos amigos mas tu és motorista, eu sou vendedor e apesar de ainda não ter pago o fato, sei que estás aqui para me servir, por isso anda, vá".

 

Lembro-me de ter apreciado a situação e ter olhado para a minha miúda e ter dito: "estás a ver porque é que privilegio ter relações com o topo ou então com as bases da pirâmide social? Aquele meio, meio-baixo da tabela causa-me confusão, pronto". Novamente uma gargalhada e eis que diz:

 

-Realmente, não sirvas a quem serviu nem peças a quem pediu... 

 

Sou levado para um episódio que um dia me contaram acerca de um colégio conhecido da nossa praça onde, aquando de um jantar de gala, foi solicitado aos empregados de mesa que servissem o Director do mesmo e com toda a pompa e circunstância, embora fosse um buffet. Na verdade, o que sucedeu, é o que o indivíduo em questão recusou ser servido, levantou-se e tratou de abastecer o seu prato. Até aqui nada de novo, o problema foi quando professores e educadores estagiários (estagiários, é importante sublinhar) tiveram de ser servidos porque se recusaram a levantar, tal era o grau de importância que já julgavam ter.

 

P.S: é um artigo elitista? É!... Ou talvez não...

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Do Dia dos Mortos...

por Robinson Kanes, em 31.10.17

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Fonte da Imagem: Própria.

 

Independentemente das convicções religiosas, o "Dia de Todos os Santos" é um dia em família e de alguma reflexão que, em Portugal, tende a ficar transformado numa espécie de Carnaval dos Mortos com o toque de "Halloween" ou "Dia das Bruxas". 

 

É por respeitar as diferentes culturas que sou levado a aceitar que esta é mais uma daquelas importações que jamais deveria ter saído dos países anglo-saxónicos. Podemos alegar que também tem raízes cristãs, o que seria discutível porque há quem aponte os celtas e outras tradições pagãs, muito antes de alguém ter decidido criar uma religião! Transformamos tudo numa festa que mais parece um filme de comédia de terceira linha. Querem fazer festas com mortos? Vão ao México, ou então até muitas regiões de África, aí sim vão ver como estas coisas se fazem e com uma componente étnica e cultural digna de registo. Substituir o "Pão por Deus" ou outras tradições mais bem enraizadas por algo forçado e completamente fora da nossa realidade é, no mínimo, triste! Portugal parece estar na moda desde que se transforme numa colónia de importações "baratas".

 

Eu sugiro até que possamos celebrar o "Halloween" em todos os velórios. Pela forma como tenho visto alguns, além de ser um enfado para muitos que só lá estão para ficar bem perante a sociedade, é também uma festa para outros. O morto já começa a ficar como adereço nestes encontros, em que numa boa forma primitiva, depois de enterrado ou cremado, todos lhe cospem em cima e se juntam para uns copos. Tenho sempre a sensação que o único morto não é aquele que se encontra no caixão, mas um sem número de almas que por ali vagueia sem realmente saber o que está ali a fazer, serão esses os verdadeiros mortos?

 

Recordo-me sempre do "Dia dos Mortos" como aquele dia que era passado em família, com um passeio, mas sem esquecer aqueles que já não estão cá. Não era um dia alegre, não era um dia triste, era sobretudo uma forma de celebrarmos a vida sem andarmos vestidos como se de repente entrássemos no Carnaval de Torres Vedras ou num desfile da "Moda Lisboa". E não, não lhe chamem saudosismo que ainda não estou em idade para isso... Talvez valorizasse o convívio genuíno ao invés dos efeitos distractores.

 

E como é feriado, para o "Dia dos Mortos", nada como uma sugestão! Talvez o meu requiem preferido (esqueçam o de Mozart que é sobrenatural e não entra nestas contas), "Ein deutsches Requiem, Op.45" ou em português "Um Requiem Alemão, Op.45" de Johannes Brahms! Dividido em 7 partes, é a maior obra do compositor, dedicado à sua mãe e também a Schumann. Ao contrário de outros requiem, este baseia-se na tradução da bíblia encetada por Martinho Lutero, um requiem verdadeiramente protestante.

 

 

Admito que me sinto abençoado por já ter ouvido o mesmo ao vivo num Domingo de Páscoa. Na Alemanha, não precisamos de pagar para assistir a concertos porque basta assistir a algumas cerimónias religiosas para ter momentos sinfónicos de uma qualidade que não lembra a ninguém. Um destes locais é a Michaelskirche (Igreja de São Miguel) em Munique! Ainda hoje consigo colocar a música de Brahms nos ouvidos e recordar aqueles momentos singulares em que nos sentimos a ficar sem ar perante tamanho arrebatamento e força com que aqueles coros e aquelas orquestras nos contagiam e ecoam pelas paredes das austeras igrejas da Baviera.

 

Bom feriado...

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 Édouard Manet, Almoço Sobre a Relva - Musée d'Orsay

Fonte da Imagem: Própria.

 

O objectivo do homem não é a verdade mas o êxito.

Rabindranath Tagore, in  "A Casa e o Mundo"

 

Vivemos numa época em que tudo é polémico, dizemos polémico para não utilizarmos o termo "moda" e assim condernarmos à estupidez os nossos conceitos morais e querermos acreditar que somos livres no pensamento, quando mal sabemos que só estamos a seguir a corrente deste ou daquele interesse... Basta ver que não ficamos chocados com algo que acontece à frente dos nossos olhos mas se sair na capa de um jornal...

 

Uma das questões a debate nos últimos tempos têm sido os casos de assédio sexual e até violação no seio de Hollywood. Harvey Weinstein surge como o principal actor de todas estas polémicas e, embora alguma imprensa por cá até faça eco do caso, o mesmo parece não ter o "aplauso" do público como tem por exemplo o de uma sentença de um juiz que escolheu mal (muito mal, por sinal) a fundamentação de um veredicto. Alguém me dizia um destes dias que se deve ao facto de existirem muitos telhados de vidro e de outros nem saberem o que é. De estranhar o facto de só se falar de Weinstein quando Polanski é aclamado na Europa e sobre Woody Allen ninguém procure saber o que realmente aconteceu. E estes são apenas dois exemplos em tantos outros.

 

Mas porque é que só ao fim de tantos anos é que surgem as queixas? Recordo-me de casos como os de Bill Cosby ou até do antigo director do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, que foram sanados com pagamentos milionários que limparam qualquer trauma que pudesse ter ficado. Será que quando a vida nos corre mal, nada como lançar cá para fora segredos do passado e lucrar com isso, como provavelmente lucrei naquela época com o meu silêncio e até cumplicidade em alguns casos - não estou com isto a defender o assédio sexual. Todavia, quando queremos justiça, não nos vendemos por dinheiro... Uma coisa é ser ressercido pelos danos causados, outra coisa são acordos para não levar avante os processos e consequentemente desistir das queixas.

 

Porque é que à época estas senhoras (muitas delas actrizes com carreira) não denunciaram o caso? Porque é que foi preciso uma delas ter "coragem" (está entre aspas não é por acaso) para o fazer e de repente descobrimos que praticamente mais de metade das senhoras de Hollywood passou pelo mesmo! Porque é que foi preciso esperar tanto tempo e porque é que, perdoem-me a frase mais popular, não se abandonou o barco? E porque é que só agora, quando o cinema está em crise e muitas desaas actrizes precisam de holofotes sob pena de terem de trocar a mansão de 7 milhões por uma de 2 milhões? 

 

À época até era conveniente e, agora que estamos num outro patamar e tememos perder o mesmo, nada como lançar cá para fora uma verdade que todos já conheciam e que provavelmente até terá custado a carreira a muita gente que, também à época, percebeu o que era assédio sexual e não prosseguiu pelo caminho errado... Muitas dessas pessoas, provavelmente até ameaçadas por aquelas que agora denunciam estes casos... A diferença é que essas mesmas pessoas, hoje, não são estrelas de cinema...

 

E porque é que estamos assim tão escandalizados? Existem várias áreas da sociedade em que tal é uma prática comum, a política, por exemplo é uma delas? Todos sabem, é preciso ser capa de jornal para haver indignação? Aliás, existem políticos no activo e a desempenharem altos cargos que nunca clarificaram bem a sua inocência em casos muito mais graves que assédio sexual. E os célebres casos de suites de hotéis em Lisboa que serviam de antro sexual, uma espécie de antecâmara para o estrelato? Acerca destas situações, não me recordo de ver os senhores e as senhoras do costume a condenar, sobretudo aquelas que têm tempo de antena e que vão desde a política, à televisão, sem esquecer a cultura e tantas outras áreas...

 

E no dia-a-dia? Quantas pessoas são alvo de assédio sexual e violação? Quantas pessoas são alvo de assédio moral, tão comum, inclusive em Portugal? Mas essas mulheres, e até homens, não surgem nos jornais e são, muitas vezes, até ostracizadas pela sociedade que não quer ver a vergonha que tem à frente dos olhos - ou prefere não ver porque também beneficia.

 

Não se pode, após ter beneficiado da prática de um crime e vir ao fim de tantos anos denunciar esse mesmo crime tirando, novamente, proveito da situação - para mim é ser cúmplice desse mesmo crime! Todavia, a verdade é que se esses actos fossem denunciados quando tinham que o ser, muito provavelmente estas senhoras não seriam actrizes e foi isso que as fez pactuar com a situação todo este tempo... Não utilizei o "estar remetidas ao silêncio" porque, na verdade nunca estiveram, apenas beneficiaram de uma situação enquanto lhes era satisfatório. A propósito desta "moda", Kevin Spacey foi a última vítima.

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