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O expoente das redes sociais em contexto online tem sido alvo de múltiplas análises, não só do ponto de vista mercantil (não é disso que falarei) mas também social... social, na medida em que tem consequências nos indivíduos e sobretudo no modo como estes podem se afectados por uma espécie de falácia no processo de democratização. Tentarei não abrir demasiado o espectro e cingir-me, por exemplo, ao LinkedIn e ao mercado de trabalho.

 

Ainda tempo para uma nota: não foram as redes sociais que tiveram impactes e consequentemente alteraram o modo de vida em muitas sociedades... foram também os indivíduos que provocaram transformações nas mesmas - culpar ou elogiar este género de plataformas tendo apenas como base os aspectos técnicos das mesmas é falacioso, até porque quem controla os conteúdos são os utilizadores, sobretudo ao nível das publicações e das motivações.

 

Do ponto de vista da sociedade, e numa visão antropológica que tem como base as pessoas e até a própria Economia Social e Solidária, se os “utópicos” destas plataformas defendem que, com estas se abriu o leque de oportunidades para os mais desfavorecidos, também é verdade que aqueles que ocupam uma melhor posição social e económica na sociedade adquiriram um meio que lhes dá maiores e melhores oportunidades no mundo das redes sociais online. Em relação aos primeiros, factores como a idade, o rendimento, a literacia, o nível de inglês (aqui uma realidade interessante, pois é fácil perceber quais as línguas dominantes) a incapacidade motora ou cognitiva e a localização (mais periférica ou não) têm um efeito dramático no modo como esse, apelidado, processo de democratização se dá.

 

Contudo, muito do discurso ainda passa por afirmar que com as redes sociais é possível promover o empowerment e a força colectiva/cidadania que desafia o sistema e combate a desigualdade. Sim, também é, mas também é preciso um conjunto de valores e conhecimento que nem sempre estão presentes.

 

Mas vejamos, uma das mais-valias é sem dúvida a hipótese de, em canais como o LinkedIn e não só (o YouTube é outro exemplo), ser possível aceder a conteúdos educativos low cost e até, mais eficientes que conteúdos pagos e prestados por instituições offline - é um facto de que nem tudo é negativo e permite que aqueles que não podem pagar para aprender possam conseguir algo sem afectar a sua auto-estima e vida futura. Estará contudo, nomeadamente o mercado de trabalho, apto a reconhecer muitas dessas qualificações informais? E como é que este mercado filtra essas mesmas capacidades perante aspectos educacionais e técnicos mais formais? Estará um potencial recrutador disposto a desenvolver um processo de tal modo trabalhoso, mas por sua vez desafiante (e de uma riqueza humana enorme) ao ponto de desvendar estas diferentes oportunidades? Numa era em que o facilitismo ganha algum destaque ainda podemos, e devemos, ficar esperançados.

 

Um outro ponto é a questão social propriamente dita - é possível (e cada vez mais possível) criar uma imagem, ou vender a mesma, e com isso obter uma espécie de imagem/mobilidade social nem sempre baseada em factos verídicos. Em alguns casos, estamos perante uma forma de colmatar os constrangimentos económicos, sociais e humanos de ascender socialmente/profissionalmente com um capital cultural e social que mais facilmente é ludibriável. É possível criar uma imagem totalmente falsa e obter os louros de uma presença online direccionada para determinado objectivo.

 

Do ponto de vista profissional e da pirâmide social, as redes sociais exercem, em muitas culturas, uma tamanha pressão sobre os indivíduos para que usem as mesmas (mais uma vez, o online só transpôs as regras). Este estado da arte justifica-se pelo facto dos indivíduos ficarem sujeitos a uma situação mais vulnerável ou até de serem confrontados com uma posição de desigualdade face aos demais. São várias as pessoas com quem tenho conversado que referem ter certas redes sociais online (e até offline), sobretudo profissionais, por uma questão de obrigação/pressão.

 

Mas o processo e os limites democráticos das redes sociais online, acabam por não ser diferentes das redes sociais offline. Quantas opiniões, gostos e formas de vida não são, todos os dias, colocadas em causa por aqueles cujo acesso a estas redes é mais facilmente proporcionado? Um exemplo está relacionado com as relações laborais e com a própria posição no mercado laboral: existe uma clara tendência para que indivíduos com algum “poder” (ou sensação de tal) se associem a outros e com isso criem redes de influência que não só criam pequenos domínios de opinião, mas que também acabam por afastar de grupos, debates e até da nova Ágora indivíduos de posições mais baixas ou cujo capital de favorecimento não vai de encontro a certos parâmetros.

 

Se por um lado o acesso é democrático, pelo outro cria-se um afastamento e até um nefasto sentimento de inferioridade por parte daqueles que encontram nas redes sociais mais entraves à livre-expressão das suas ideias do que propriamente uma porta aberta para adquirirem conhecimentos, cultivar a aprendizagem e criarem redes de contactos que lhes permitam vingar social e profissionalmente. A não ser que só procurem uma namorada no Facebook.

 

Uma nota positiva para um case study relacionado com a realidade chilena (Haynes, N. Forthcoming. Social Media in Northern Chile. London: UCL Press), onde o conceito de solidariedade (que em nada está relacionado com aquele que escutamos todos os dias) está bem vincado na sociedade. Neste caso, as redes sociais são um óptimo canal de partilha e apoio entre os cidadãos mais desfavorecidos. Foi "permitida" a ascensão de indivíduos e grupos que, na pobreza, encontraram uma forma de demonstrar que nem tudo tem de ser mau e que em muitos aspectos são adquiridas competências, forças e comportamentos que são um verdadeiro exemplo para aqueles que julgam viver fora dela ou que, efectivamente, vivem em situações mais desafogadas. Toda esta matéria, trabalhada e transposta para as redes sociais, criou uma espécie de corrente que valoriza aqueles que menos têm, mas mais que isso, valoriza a aprendizagem e as competências que os tornam capazes de assumir posições ou desafios que exigem capacidades humanas, sociais e até técnicas que nenhuma escola de gestão poderá ensinar.

 

Fonte da Imagem: http://socialmedia.lbl.gov/wp-content/uploads/sites/24/2015/07/Empty-Beakers-960-Final1.jpg

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13 comentários

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De O ultimo fecha a porta a 24.10.2016 às 22:20

Convido-te a ler um post recente que fiz sobre a invasão as redes sociais nas nossa vidas e que vai de encontro a muito de que escreves neste post.

http://oultimofechaaporta.blogs.sapo.pt/a-ma-influencia-das-redes-sociais-na-29127
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De Robinson Kanes a 26.10.2016 às 20:15

Já visitei, comentei e recomendo...
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De Luis Costa a 26.10.2016 às 14:19

Excelente visao da realidade.
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De Robinson Kanes a 26.10.2016 às 20:14

Muito obrigado Luis. É uma matéria que pretendo continuar a explorar neste espaço.
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De Kikas a 26.10.2016 às 20:27

Bom ponto de vista! ;)
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De mami a 27.10.2016 às 08:03

gosto de redes sociais e acredito nas suas mais valias em vários aspetos.
como em tudo: devem ser consumidas com moderação.
num (muito vasto) leque de coisas/aspetos considero que o problema (quando existe) não está na coisa em si, mas na utilização que lhe é dada.
utilizo redes sociais para comunicar com amigos que não vejo há mais de 25 anos, para desenvolver grupos de trabalho com colegas, para partilhar momentos com amigos, para desenvolver projetos educativos, para me atualizar com diversas informações, estratégias e novidades ... a própria forma de me movimentar conforme o objetivo, difere.

um outro aspeto que abordaste e que acho deveras importante é a valorização do conhecimento adquirido de modo informal. creio que com o tempo, em portugal (porque noutros países já o é), será valorizado. não só o conhecimento adquirido por esse meio como a capacidade autodidata do indivíduo, que assegura à empresa a plasticidade e capacidade de aprendizagem da pessoa.
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De Robinson Kanes a 27.10.2016 às 09:40

Focas pontos importantes, o primeiro está relacionado com o uso que lhe damos. As redes sociais sem utilizadores não existem. O segundo passa por filtrar a informação, se reparares é cada vez maior o número de mentiras e lixo electrónicos.
Não sou contra as redes sociais em si, mas confesso que não me agrada a manipulação e o mau uso.

Falas também do falar com amigos. Esse é um aspecto que é muito apontado por várias pessoas, nomeadamente aqueles que referem que "foi graças ao facebook que encontrei amigos da escola que já não via há anos". Sim, mas na verdade, quem se importa connosco e as pessoas com que nos importamos realmente acabam por não sair da nossa vida. Se sentir vontade de estar com alguém é provável que contacte essa pessoa ou procure informação sobre a mesma. Não vou cair no facilitismo de só sentir saudade porque basta um "click" para...

Outra questão passa pela variedade de redes que existem, pelo que se, a nível pessoal" desejar-mos estar em todas e falar com todos, temos de ter um Personal Assistant.

Em relação ao ensino e formal e mesmo até o formal via online é uma arma poderosa. Em Portugal não se valorizam muito os cursos online, mesmo que atribuídos por boas universidades no exterior. No entanto, muitos deles com a duração de poucas semanas chegam a ser melhores que algumas licenciaturas ou mestrados... mas sobre isto ainda hei-de escrever... até porque ando apertado com uma temática que tenho de publicar no dia 31.
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De Robinson Kanes a 27.10.2016 às 20:37

Leia-se "desejarmos".
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De mami a 29.10.2016 às 15:48

concordo com quase todos os aspetos que mencionas.
no âmbito da formação, para além de ter feito mestrado pela universidade aberta (www.uab.pt), regularmente frequento formação gratuita (mooc) disponibilizada por várias universidades estrangeiras.
mas quanto aos amigos que queremos manter na nossa vida, as situações não são tão lineares como descreves. por exemplo, eu cresci num pais estrangeiro, tendo vindo para portugal na minha juventude. deixei muitos amigos com os quais a comunicação, para além de correio postal, não era fácil. o facebook permitiu que nos reencontrássemos e inclusive que com, alguns, desenvolvêssemos estratégias de encontro presencial. as coisas nem sempre são lineares ;)
aguardo ansiosa pelo teu post de segunda :)
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De Robinson Kanes a 30.10.2016 às 15:19

Obrigado!
Já frequentei três Universidades fora outros cursos, em duas delas o ensino foi presencial, numa outra foi maioritariamente à distância... a última não ficou nada a dever às primeiras. Talvez porque foi um país diferente e o ensino também o seja.
Sim, os MOOC's são muito bons mas podem ser enquadrados numa espécie de ensino formal. Existe depois o ensino que é passado por pessoas com experiência ou somente pela troca de pontos de vista e abordagens e esse pode ser deveres interessante.
Não são nunca lineares, é por isso que digo que quem faz as redes sociais são as pessoas. Nada tenho contra com o "instrumento em si". O que quero referir é que, quando gostamos mesmo de alguém vamos procurar essa pessoa, e hoje não é assim tão complicado. Além disso existe o email, o skype... esses, no fundo, não são montras e são aplicações onde é possível criar grupos, partilhar conteúdos entre outras coisas, por exemplo.
Mas percebi a tua ideia e os pontos fortes do que mencionas e acho válido, sem dúvida.
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De mami a 30.10.2016 às 16:53

vamos aproveitar o melhor que estas coisas nos dão e... kiss ;)
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De Robinson Kanes a 30.10.2016 às 15:19

Ah! O post... ainda a trabalhar nisso :-)

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