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O Alemão...

por Robinson Kanes, em 10.02.17

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Hans Maler, Retrato de Joachim Rehle (Gemäldegalerie Alte Meister)
 

Anteontem, em conversa com um amigo alemão, aliás, um senhor que tem idade para ser meu pai, levei um murro no estômago. Nem foi o facto de tal personagem me ter dito para sair de Portugal o quanto antes e que devia ter dado seguimento à minha estada fora...

 

Falávamos da vida, do trabalho e de questões culturais quando, num momento de partilha, o alemão encetou um discurso que me deixou a pensar:

 

- Estamos bem, apesar da situação de saúde da minha mulher. Já estou por cá há uns 20 anos, a minha mulher trabalhou cá, regressou à Alemanha e está cá novamente.

 

Assenti com a cabeça, esperando mais desenvolvimentos... senti que havia algo mais a caminho, e houve, o alemão tomou da palavra e continuou:

 

-Foi peculiar, depois de tantos anos fora da Alemanha, todos se lembravam dela e foi recebida com grande carinho, sentiu-se realmente muito bem. Mas... quando voltou para Portugal, e nem esteve assim tanto tempo fora, já ninguém se lembrava dela, acreditas? Vocês portugueses gabam-se muito de ser um povo hospitaleiro e muito amigo do amigo... dizem que os alemães são frios, mas nós, quando abrimos as nossas portas é para sempre e não apenas quando temos algum interesse. Nós não esquecemos os nossos amigos.

 

Coloquei os olhos no chão... levantei-os após alguns segundos e... mais uma vez, com a cabeça assenti e concordei. Talvez 80% de mim concordasse com o alemão... e talvez até tentasse encontrar um argumento em contrário, mas numa abordagem geral e olhando para o meu histórico com as duas culturas, fui obrigado a reconhecer que talvez - o alemão - estivesse certo.

 

E porque falamos de alemães e vem aí o fim de semana e... o artigo de hoje não foi o mais brilhante e... tenho roupa para passar a ferro e... porque as palavras ecoam... lembrei-me de outro alemão, aliás de um grande Senhor alemão, Johann Sebastian Bach e o Concerto para Dois Violinos em Ré Menor BWV 1043 (esqueçam isto, é pedantismo, foquem-se na música)... o Andante (minuto 04:30) é qualquer coisa. Acredito que vão sentir vontade de abraçar alguém.

 

Ah! E é óptimo para quem tem só duas ou três camisas para passar...

 

Bom fim de semana

 

Fonte da Imagem: Própria

 

 

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49 comentários

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De Chic'Ana a 10.02.2017 às 09:40

Há uns anos estive rsponsável por um grupo de 6 jovens: 4 alemães e 2 polacos. Os alemães deram-me uma lição de vida como não tinha há muito. Abalaram todas as minhas crenças de que eram um povo frio, desinteressado. Nada disso, eram calorosos, preocupados, sorridentes. Ainda hoje mantemos contacto.
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 09:50

Não é fácil que nos abram as portas, mas quando abrem... um pouco como os catalães em Espanha.
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De Francisco Freima a 10.02.2017 às 09:49

A melhor recordação que eu tenho de um alemão foi quando acolhi um na Roménia, através do couchsurfing. Ele estava de visita a Braila e ficou uns dias no apartamento onde vivia. Quando se foi embora, deixou-me uma mensagem em inglês, a agradecer a hospitalidade e a dizer-me para o visitar um dia que fosse à Alemanha.

Era um bacano, ficávamos sempre a conversar até de madrugada
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 09:54

Por acaso, contra tudo o que algum dia pensei, uma das pessoas mais bem dispostas que conheci era um alemão. Não são propriamente o povo mais aberto do mundo, mas... aquelas palavras deixaram-me de facto a pensar. Seremos, hoje em dia, um pouco como o "croissant" que foi apropriado pelos franceses aos austríacos?
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De Francisco Freima a 10.02.2017 às 10:23

Não sei, mas não me admirava nada. O chá também era um hábito nosso e foi apropriado pelos ingleses.

O povo mais hospitaleiro que conheci foi o grego: uma vez estava a dormir na estação de comboio de Kalambaka e o responsável foi apanhar laranjas para me dar a mim e a um japonês que lá estava :)
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 11:12

Os gregos são dóceis... muito dóceis até. É um país e uma cultura que me apaixona... gosto de ver a rivalidade (quando é saudável) com os turcos, outro povo do qual gosto muito... e que... diz que os gregos são preguiçosos :-)
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De Sónia Pereira a 10.02.2017 às 09:56

Lá está, a questão das aparências. Nós, portugueses, gostamos de dar ares disto e daquilo, mas grande parte das vezes é só mesmo aparência, superficialidade. Abrimos facilmente as nossas portas, mas temos dificuldades em as manter abertas.
Quanto à música, haverá coisa melhor para atenuar a tarefa de passar a ferro do que ouvir música ao mesmo tempo?! Não dispenso. Tem dias em que passo a ferro e danço ao mesmo tempo. :) a sorte é que não tenho vizinhos em frente, caso contrário já estaria internada em algum lado.
Também tenho de passar hoje a ferro e talvez chame o Bach para me acompanhar.
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 11:05

Tenho sentido isso... esse perder de identidade, ou melhor, transformação de identidade e uma certa dose de manha.

Passar a ferro e dançar é algo definitivamente cinematográfico :-)

Depois partilha o que andaste a ouvir do senhor alemão...
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De Alice a 10.02.2017 às 10:04

Eu também estou ausente da terra onde nasci e cresci, vou lá cerca de um vez por mês neste últimos 10 anos mas sim, já ninguém me conheço praticamente "perdi" todos os amigos que lá tinha. Tenho família emigrada na Alemanha que apesar de adorar Portugal, sobretudo o nosso clima e comida não tem qualquer intenção de regressar.
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 11:06

Como eu os até consigo entender... não deve ser fácil... ser estrangeiro no nosso próprio chão.

Obrigado por passar e pela partilha.
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De Cecília a 10.02.2017 às 10:14

este post fez-me sorrir

a) era a única da turma de piano a querer mesmo peças de JSB. todos me olhavam de lado " lá vem ela com o barroco!" a alma ganha asas. é uma sustentável leveza em se ser

b) sempre gostei de alemães. de como riem alto à mesa quando estão bem dispostos. todos me olham de lado quando digo que gosto dos alemães.

é sempre bom conhecer antes de julgar que se conhece.

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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 11:08

Que seja Barroco, que seja o que for... além disso JSB não é de interpretação fácil... era inveja :-)

Dizer que se gosta de alemães, em algumas culturas, é o mesmo que abrir completamente as comportas de uma barragem para lá dos limites de armazenamento :-)
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De Cecília a 10.02.2017 às 11:17

oh! deve ser por isso. sempre gostei de passear por crestuma-lever ( desde menina )

em relação ao piano é uma questão de extremos ( amo tocar JSB e Erik Satie ) pelo que às tantas era sentimento de pena por uma louca a necessitar de tratamento mas o professor adorava!
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 13:47

ahahah boa ligação :-)

Erik Satie já é coisa mais a fugir para o contemporâneo... de extremos efectivamente...
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De Ana a 10.02.2017 às 11:34

Incrível. Realmente esperávamos o contrário se a vida fosse igual às ideias pré-concebidas que temos. Também tenho ali uma roupita a olhar para mim.
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 13:44

Ideias pré-concebidas são outro cancro no diálogo entre culturas...
Força nisso... que eu vou ganhar coragem.
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De m-M a 10.02.2017 às 13:03

Verdade verdadinha!
~Eu, emigrante/imigrante interna, sinto muito isso sempre que vou a casa de visita... não somos assim tão calorosos... :/
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 13:45

Sabes que tinha receio que meio-mundo caísse em cima de mim depois deste artigo? Afinal... "I'm not alone..." :-)
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De a mãe dos PP's a 10.02.2017 às 13:19

Há pessoas boas e menos boas em todo o lado.
Beijinho e bom fim de semana ;)
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 13:46

Isso é verdade... também já conheci alguns alemães que... enfim...
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De Melhor Amiga Procura-se a 10.02.2017 às 16:57

Se pensarmos ele tem razão... O português é adepto de que "nem não aparece, esquece"...
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 18:48

Nem me tinha lembrado dessa... de facto.
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De Alice Alfazema a 10.02.2017 às 17:24

Também tenho roupa para passar a ferro, invejo-te as duas ou três camisas, porque por aqui é mais do triplo, em contrapartida tenho tomado duche a ouvir trombone e flauta transversal ao vivo, quanto aos compositores muitas vezes nem sei o nome, simplesmente trauteio a música e digo que quero ouvir esta ou aquela, e eles quando sabem fazem- me a vontade. :)
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De Robinson Kanes a 10.02.2017 às 18:50

Olha que grande sorte, em relação à música ao vivo... claro...

No que toca à roupa, cá em casa aplicamos um conceito organizacional, nunca deixar acumular. Há roupa para passar no cesto? Eliminar o quanto antes.

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