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Tiro aos Pássaros no Estuário do Tejo...

por Robinson Kanes, em 27.02.17

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Recentemente, e perante o alerta de alguns colegas, dei comigo a ler os comentários do Presidente da Ryanair, o Sr. Michael O’Leary, acerca dos "pássaros" e da rota migratória dos mesmos na questão do novo Aeroporto de Lisboa.

 

Vejamos... mesmo que não se perceba muito de fauna, antes de tecermos comentários, deveríamos estar na posse de alguma informação importante, e aqui o aviso vai também para o nosso Primeiro Ministro e outros comentadores e decisores iluminados: pássaros, ou melhor, passeriformes, não são a mesma coisa que aves! Estamos a falar da rota migratória de aves e não de pássaros.

 

Sendo de aves que falamos, o Sr. O’Leary tem uma solução fantástica: ao invés de estudos, vamos mas é resolver o problema com uma shotgun e tiro na passarada. O Sr. O’Leary, que disse que não achava bem as low-cost no Montijo e até ameaçava cancelar a operação da Ryanair em Lisboa vem agora defender esta opção e a rapidez na sua implementação. Será que se o Sr. O’Leary tivesse proferido estas palavras na Irlanda ou no país vizinho, Reino Unido, as mesmas não teriam tido outras consequências? Acredito que sim, sobretudo no modo em como estes países preservam a vida selvagem e nem por isso são menos desenvolvidos que Portugal, bem pelo contrário.

 

Uma outra questão prende-se com o facto de que o Sr. O’Leary, e que coisa feia para um profissional da área de aviação, não conseguir perceber a diferença entre um pardal e uma águia-calçada. A isto soma-se o facto dos conhecimentos de caça do Sr. O’Leary serem muito fracos, e ainda bem, pois já se viu que seria um caçador daqueles que nem as crias de perdiz escapariam. Por outro lado, enquanto este senhor andar à caça de aves com uma shotgun as mesmas não têm que temer, esperemos que este nunca se lembre de usar uma caçadeira.

 

Será que os aviões da Ryanair que passam perto das casas de muitas pessoas também deveriam ter o mesmo tratamento? “Um RPG (espécie de "lança-rockets") e o problema da poluição sonora, e não só, resolve-se”!

 

Em Portugal existem leis, algumas delas por imposição de instituições internacionais. Nas aves e nos estudos ambientais também existem leis e não é porque alguém acha que o homem controla a natureza que as mesmas se vão alterar.

 

Além da importância extrema desta rota migratória, também é nesta área que está a maior colónia de flamingos da Europa. O Estuário do Tejo consta, aliás, na lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional. Saberá o Sr. O’Leary disso ou tem passado demasiado tempo a voar?

 

E... porque será que, ainda sem decisões tomadas, já existe uma corrida às aquisições de casas e terrenos no Montijo, bem como uma forte especilação imobiliária? Porque será que o interesse em ter um aeroporto no Montijo é tal e não se teve o mesmo interesse no urbanismo de uma cidade que mais parece um banlieue devoluto? Vale tudo para ganhar mais um mandato como presidente da câmara, mas não vale tudo para colocar em causa o equilíbrio social, económico, urbanístico e paisagístico de uma região. Espero que os habitantes sejam inteligentes e saibam como agir.

 

Concluindo... onde é que estão os contestatários da Padaria Portuguesa a boicotar a Ryanair? Será porque comer um pão não dá visibilidade no Facebook mas uma viagem low-cost, numa companhia aérea que não é das melhores a pagar e se está borrifando para o ambiente em Portugal, sempre permite pensar que se tenha algum pseudo-status, logo não importa falar muito disso?

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Entre o Pano do Pó, o Nyman e o Império...

por Robinson Kanes, em 24.02.17

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Hoje não é dia de passar a ferro, afinal é Carnaval, ninguém leva a mal. É, contudo, dia de limpar a casa... os pêlos do Pastor Alemão não dão tréguas (e não tenho capacidade de apreciar a palavra "pêlos" sem acento circunflexo). Vem também aí o fim de semana, que promete ser chuvoso, pelo que me inquieta a banda sonora para o mesmo, e claro... para a nobre arte da faxina.

 

Têm sido tempos de muito pensar e, entre vassouras, esfregonas, panos e aspiradores, a melhor sonoridade que me surgiu foi... não, desta vez darei tréguas e tentarei fugir às grandes orquestras. No entanto, não vou fugir ao piano, e decidi escolher o Sr. Michael Nyman, um cavalheiro que admiro e que me transporta para dimensões que, pontualmente, nem eu consigo explicar. Não me canso de o ouvir e ver ao vivo. Escolho “Love Doesn’t End” – por sinal, banda sonora de um filme, “The End of the Affair”.

Entre panos e o pó, talvez para pensar se o Amor nunca acaba efectivamente... se pode perdurar ou se... simplesmente morre, como tudo nesta Terra.

 

Vergílio Ferreira costumava estranhar que as pessoas dissessem que não existia amor como o primeiro, questionava-se, contudo, pelo facto de, ao não existir amor como o primeiro, porque é que este também não era o último? Ou será que o primeiro amor não obedece a uma razão lógica e organizada da vida? Terei tempo enquanto vou ouvindo “Love Doesn’t End”... ignorem o vídeo e escutem a música...

 

Mas, uma sexta-feira, fria e molhada, não seria uma sexta-feira sem um filme e, posto que me sinto a ficar lamechas, o que nem encaixa muito na minha forma de ser, vou-me abandonar ao Império do Sol. Este é um filme de 1987, com Christian Bale e o grande John Malkovich, sem esquecer o Sr. Spielberg na realização. Não vou falar muito do filme, senão que é uma história incrível e conhecida por todos. Prefiro o enfoque, na cena em que o jovem Jim entoa o Suo Gan. Confesso que vi o filme ainda criança e bem depois de 1987, no entanto, aquele momento marcou-me ao ponto de ter uma paixão pelas “Evensong” de Londres, seja em Westminster ou na St. Paul's Cathedral. Poder assistir aos coros, cuja magia ecoa por paredes tão frias e as aquece num conforto que só experienciado se pode sentir, é algo singular. Deixo-vos por isso com uma das cenas mais marcantes do filme e, também, com o coro do King’s College.

 

Bom Fim de Semana... Bom Carnaval... e... se chover... Molhem-se...

 

Fonte da Imagem:http://www.listal.com/viewimage/8702194

 

Michael Nyman - "Love Doesn't End"

 

Cena do Filme "O Império do Sol"

 

 

O Coro do King's College em Cambridge

 

 

 

 

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Porque Ainda é Inverno...

por Robinson Kanes, em 23.02.17

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De facto, embora a Primavera já espreite, os dias já estejam mais longos... ainda é Inverno.

 

Esta estação é uma espécie de mal-amada, o mês do frio, da escuridão, da tristeza, da chuva e até, associado a depressões e morte.

 

O Inverno não ostenta os dias longos do Verão, nem as cores mais fortes da primavera e, muito menos, os finais de tarde outonais. Mas, na verdade, o Inverno também tem a sua cor, o seu calor especial e acolhedor que nos atrai e não nos faz procurar uma sombra. O Inverno tem até, e por pouco, a sua silly season - ou o Natal e o Ano Novo são hoje em dia o quê? Ou o Carnaval ao frio com gente desnuda?

 

O Inverno ensina-nos muito, ou não fosse a estação que limpasse os desastres e o lixo deixados pelo Outono Quem nos varreria as folhas, limparia e carregaria de nutrientes os campos deixados por tão bela época? A Primavera é uma espécie de oportunista face à situação que lhe calhou, pois é ela que aproveita todos os três meses de trabalho anteriores e explode em finais de Março num sem número de cores e vida que nos fazem sair de casa e apanhar alergias. Diria até, que o Inverno é uma espécie de assessor da Primavera mas que fica com o trabalho todo, esta só sobe ao palco e encanta quem por ela venha a passar.

 

Diz-se também que o Inverno é um mês de solidão, eu acredito que é uma oportunidade de estarmos mais próximos, de vivermos mais, na rua e em casa, com aqueles que nos dizem algo... talvez no Inverno procuremos mais os grandes centros comerciais ou os locais com muita gente (de preferência fechados), mas... provavelmente é aí que a solidão mais é sentida.

 

Camus dizia que não existia sol sem sombra e que, portanto, seria preciso conhecer a sombra. Talvez o Inverno seja essa sombra que é preciso conhecer, talvez o Inverno seja essa sombra que é preciso transformar em sol... em luz de Inverno...

 

Fonte da Imagem: Própria

 

E que melhor banda sonora para um dia de Inverno? E bem a propósito, com um Carnaval daqueles...

 

 

 

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Quando a Cunha Solidária é Cega...

por Robinson Kanes, em 22.02.17

 

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El Greco, A Cura do Homem Cego (Gemäldegalerie Alte Meister) 

 

 

 

Vi, recentemente, na rede profUntitled.pngissional LinkedIn a pérola que se encontra na imagem ao lado: um grito de desespero de um profissional de recursos humanos, daqueles que até gosta de aparecer, em prol da solidariedade! Confirma-se a minha tese em relação a muitas conversas que se vão tendo em seminários balofos e sem conteúdo, e que têm em vista tornar socialmente aceite um comportamento desprezível.

 

Solidariedade, afecto e carinho por todos aqueles cuja última coisa que querem fazer é abrir o “net-empregos”, o “Indeed” ou o “Reed” e procurar um trabalho. Solidariedade para com aqueles que ao invés de se dedicarem de alma e coração a um projecto colocam o ónus total dos resultados nas equipas e passam o dia em redes sociais, contactos e “encontros” de profissionais para se autopromoverem! Solidariedade para quem precisa de um favor e não tem tempo para trabalhar! Lá do sítio de onde eu venho isso tem um nome e... não é solidariedade.

 

Devemos ser solidários uns com os outros e censurar aqueles que, quando nós já não somos importantes para os mesmos, não nos dão aquela mãozinha para subir na carreira ou nos tirarem do buraco. Malditos “amigos” que agora não me meteram aquela “cunha”! Cambada de interesseiros que são fiéis aos seus valores! Como é possível alguém ser tão tacanho.

 

Como é possível vivermos num mundo onde ainda existem pessoas que valorizam mais um bom profissional pelas suas qualificações e capacidade de ir à luta do que pela sua capacidade em mover influências e alimentar amizades e esquemas baseados num networking que mais parece um monte de silvas... um monte de silvas que, no meio, bem entre os ramos, encerra o conceito de favorecimento.

 

Perante isto, sugiro que se criem leis que limitem estas práticas, que excluam aqueles que ainda olham para um curriculum vitae e procurem saber mais sobre o candidato! Isto tem de acabar e a solidariedade de todos é importante! Sugiro uma manifestação em frente ao Palácio de S. Bento contra estes canastrões. Quem os manda ser honestos...

 

Mas numa coisa este desabafo teve razão... um dia, o presente do outro pode ser o futuro desse alguém e, quando esse dia chegar, ao invés de um telefonema para aquele “amigo”, eu sugiro uma revisão do curriculum e a preparação para tempos difíceis de procura de um emprego!

 

Na verdade, a pessoa em questão apreciou a frase de  Kafka, mas... se tivesse lido os Aforismos de Zurau, do mesmo autor, depressa perceberia que “não se deve prejudicar ninguém, nem mesmo o mundo, para alcançares uma vitória”. Esta afirmação, não reflecte mais, que o pensamento daqueles que são prejudicados quando os amigos, no seu networking, são tão solidários e bondosos, que não hesitam em prejudicar centenas ou milhares em prol de um favorecimento solidário... sempre solidário...

 

Fonte da Imagem 01: Própria.

Fonta da Imagem 02: LinkedIn.

 

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Málaga: o Desastre e a Capitulação.

por Robinson Kanes, em 21.02.17

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A luta por Málaga continuava e o Castelo de Gibralfaro, apesar dos ataques de artilharia durante dias a fio, resistia sem mostrar fragilidades, tal era a sua imponência e estrutura.

 

Perante tamanhas dificuldades, a estratégia dos cristãos passou por uma conquista torre-a-torre, aproveitando eventuais vulnerabilidades nas estruturas das mesmas. O primeiro a conseguir foi o Conde de Cifuentes, contudo, apesar de ter tomado uma das torres rapidamente, foi alvo de um contra-ataque que matou muitos dos seus soldados e acabou com a demolição da torre pelos mouros. Estas batalhas, apesar dos mouros acabarem fechados nas muralhas da cidade, levaram a algum desânimo nos exércitos de Fernando II e a um sem número de mortos, tal o avanço, quase milimétrico, do exército. Foi necessária a deslocação da rainha e do seu séquito para levantar a moral das tropas e mostrar aos mouros que as hostilidades iriam continuar.

 

A batalha de Málaga, depois do desastre nas montanhas da mesma região, acabaria, talvez, por ser a mais sangrenta de todas. A fome assolava os habitantes da cidade que se viam obrigados a matar os cavalos (fundamentais para a guerra). As batalhas eram diárias, utilizavam-se minas, construíam-se subterrâneos que levavam a encontros bélicos debaixo de terra, cada palmo de terreno era disputado à custa de rios de sangue.

 

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Fica na memória, um assalto das tropas mouras ao acampamento cristão e que, acabou com milhares de mortos de um lado e de outro. Esta ocorrência levou os cristãos a reconhecer que o seu acampamento estava demasiado próximo da cidade e consequentemente mais vulnerável perante futuros ataques. Fica também nos registos, o envio de tropas, por parte do Zagal, em Guadix, para apoiar el Zegri em Málaga, tropas que foram reprimidas por... Boabdil (em Granada) que assim, continuou a atraiçoar o seu povo e poderá ter contribuído para o fim das esperanças dos mouros de Málaga.

 

El Zegri, todavia, continuava impassível, mesmo com o seu povo a passar fome e a morrer envenenado, pois tudo servia para comer - até peles tostadas ou comidas putrefactas os mouros consumiam. Este apenas escutava uma espécie de profeta e ignorava todos os seus conselheiros. No entanto, o fim das hostilidades acabou com o ataque de el Zegri ao acampamento cristão, tendo o mesmo sido reprimido com tal força que, ao chegar derrotado à cidade, ouviu dos seus habitantes, pedidos para que matasse os filhos destes pois os gritos de fome e de dor já se haviam tornado insuportáveis.

 

El Zegri e Málaga viriam a capitular com o apoio de um comerciante, Alí Dordux, que seria o emissário mouro perante os reisIMG_5836.jpg católicos, embora sempre contra a vontade do primeiro, que assumiu ter capitulado apenas por falta de força bélica.

 

No rescaldo - estranhamente exaltado pelo clérigo Frei Agápida - el Zegri foi preso, os seus Gomerez (Gomaras) foram enviados para Roma como prenda para o Papa Inocêncio III, muitos habitantes foram utilizados como moeda de troca e outros ainda foram vendidos como escravos ou libertados.

 

No final, a questão económica estava bem presente, quer para a coroa, quer para o clero que a acompanhava em toda esta obra que não compreendia, somente, o espalhar da fé e transformar a Mesquita de Málaga numa Catedral.

 

Málaga continua herdeira desses tempos, como já havia referido num outro artigo. As palmeiras, as grandes avenidas e jardins, as pessoas, as construções e o vivir malageño disso são exemplo. Cruzar Málaga ainda é sentir aqueles tempos e... parar numa loja de especiarias (especialmente uma pequena loja familiar no encontro da Avenida Comandante Benitez com a Calle Linaje) ou no "Mercado das Atarazanas" (com uma arquitectura árabe). Em Málaga ainda é possível sentir o cheiro do Norte de África que nos é trazido pelos ventos até àquele ponto da Europa... seja nos seus mercados, seja nas suas ruas ou somente entre umas tapas.

 

Fonte das Imagens: Própria

 

Para quem só agora chegou...

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

 

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Hyacinthe Rigaud, Retrato de Antoine Pâris (National Gallery)

Fonte: Própria

 

Quem pensava que títulos como Duque, Conde, Barão ou até Viscondessa eram coisas do passado pois que se desengane... Portugal sempre foi um país de títulos e mais se tornou quando a plebe, sob a veia republicana da libertação face a uma monarquia quase inexistente, decidiu chamar a si alguma posição social. Mas... de facto, a evolução do ser-humano leva tempo, sobretudo na fauna nacional onde a adaptação do ser ao meio tende a ser mais demorada.

 

Na verdade, muitos destes títulos ainda existem. É estranho, porque não existindo monarquia é o mesmo que sermos acossados por uma tomada de poder de um monarca e, o nosso Presidente da República conservar esse título. No entanto, sobretudo na plebe, muitos destes títulos adoptaram outro nome, nomeadamente os de Doutor, Engenheiro, Arquitecto e até Professor (quando muitas vezes o “detentor” nem sequer entrou numa faculdade). Por norma, este uso abusivo de títulos acontece em países subdesenvolvidos ou então com uma taxa de incompetentes ou inseguros tal, que é necessário ir buscar o status a esse mesmo título.

 

Afinal... tantas palavras para me recordar de uma reunião, há duas semanas, com um indivíduo que teimou em não perceber que a nossa organização ia fechar e insistiu em vender-nos serviços. Como gosto de ter tempo para toda a gente, recebi o mesmo.

 

Iniciada a reunião, virou-se para mim, com um ar um quanto para o boçal, mas até bastante simpático e solícito, expressando um:

 

-Engenheiro?

 

(Questão proferida enquanto fazia um ângulo obtuso com o braço estendo um cartão de visita.)

 

Confesso que existem respostas que deveriam ficar guardadas mas, perante a abordagem, a minha resposta imediata foi um:

 

-Não, hetero!

 

O rosto do senhor, que por acaso era engenheiro, empalideceu e, penso que, ou teve vontade de me atirar com o cartão à cara, ou então de se esconder num qualquer buraco debaixo da mesa.

 

Perante aquela expressão, levantei-me e respondi:

 

-Café, Sr. Paulo (nome fictício)? Este é do Comendador Nabeiro!

 

Também disse ao senhor que me chamava Robinson e no meu bilhete de identidade não constava esse nome. Acho que o Sr. Paulo não ficou foi muito contente que eu o tratasse pelo nome... aposto que lhe feri todos os sentimentos e status adquirido por pertença a uma corporação de milhões de pessoas por todo o mundo onde ele... é só mais um.

 

P.S: No cartão de visita do Sr. Paulo constava algo como:

 

Eng. Paulo X

CEO

 

(CEO de uma empresa com dois outros indivíduos?)

 

 

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Málaga: O Inicio das Hostilidades.

por Robinson Kanes, em 14.02.17

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A Guerra continuava... enquanto os cristãos continuavam a aumentar o seu território com as conquistas de Moclín, Illora, Cambil, Albahar e a forte Veléz-Málaga - onde o Zagal, por pouco, não surpreendeu o Rei Fernando - e outras tantas praças, os mouros debatiam-se internamente pela luta de poder entre o Zagal e Boabdil. Boabdil era o filho de Muley Hacén e que, tinha sobre si, a sina de vir a ser o último rei de Granada. Aliás, foi em Almeria, que o Zagal, quase surpreendeu este último, ainda fiel à coroa de castela.

 

No entanto, um dos episódios mais marcantes da Reconquista deu-se em Málaga. Depois do desastre das montanhas, esta estratégica e riquíssima cidade tornou-se o alvo do assédio cristão. Málaga era um cidade fortemente comercial e quem tinha como alcaíde? Hamet el Zegrí, que contava com a sua tropa de elite, os Gomerez (Gomaras em português). Lembram-se de Ronda?

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 Hamet el Zegri governava a cidade deste o Castelo de Gibralfaro, o pouco que ainda resta na cidade como testemunho desses tempos. Foi daí que viria a perceber que o Zagal não iria sair de Granada com receio de perder o trono e, foi daí também, que resistiu aos vários assédios dos emissários dos reis católicos para que entregasse a cidade. Neste episódio, o Marquês de Cádiz foi o grande impulsionador das negociações por parte de Castela.

 

Na verdade, el Zegri era um lutador fiel à sua cultura e religião e não cedeu um único passo, ou não fosse Málaga uma das cidades mais bem apetrechadas militarmente. El Zegri era verdadeiramente leal ao seu reino, como poucos, sobretudo em épocas de disputa de poder.

 

Perante as recusas do alcaíde mouro, Fernando II saiu de Antequera e percorreu os vales e montanhas que o separavam de Málaga. Além da forte Artilharia pesada, o rei católico contava agora com apoio por mar, com vários navios que iriam garantir o abastecimento e cercar a cidade, além de, inibirem qualquer apoio muçulmano vindo do Norte de África. Por terra, o acesso a Málaga também não se avizinhava fácil e, atravessar todos aqueles vales e montanhas de Antequera até Málaga foi um dos maiores desafios do exército real.

 

A primeira escaramuça viria a ter lugar quando, el Zegri ao vislumbrar a proximidade do inimigo, fez sair três batalhões que destruíram tudo o que encontraram ao redor da cidade e se envolveram em combate directo com as forças de Castela... as mesmas que viriam a conquistar posições estratégicas no cume das montanhas. Notabilizaram-se os reforços galegos nesta conquista inicial, pois enfrentaram os mouros - com o apoio de Don Hurtado de Mendonza e Garcilazo de la Vega - num terreno extremamente declivoso e difícil. As baixas foram muitas, mas a proeza e coragem do porta estandarte católico, Luis Macedo, foi determinante para a vitória, na medida em que, atravessou sozinho as linhas do inimigo e colocou as armas de castela no topo da montanha.IMG_5830.JPG

 

Málaga era uma cidade airosa, limpa e bela. O relato dos jardins, das suas elegantes palmeiras e até das suas gentes ainda hoje é actual. De facto, os testemunhos são poucos, mas os caminhos até Málaga, sobretudo desde Comares ou Antequera, ainda fazem a delícia dos apaixonados por Andaluzia qu,e procuram chegar à cidade e respirar o ar marítimo numa qualquer sombra com vista privilegiada para o Mediterrâneo.

 

Málaga é, ainda hoje, uma das cidades mais airosas e mais luminosas de Espanha, uma cidade que ainda transmite os cheiros que chegam do Norte de África, mesmo ali à frente. A cultura, tão amada por mouros e católicos é hoje uma das mais-valias da cidade, com um sem número de museus interessantíssimos, ou não contasse com delegações do Hermitage, do Pompidou e do Carmen Thyssen. Mas, a conquista de Málaga, que viria mais tarde a assistir ao nascimento de Picasso, seria dura e sangrenta. Lá voltaremos, pois temos de estar bem protegidos na nossa armadura para podermos ter uma vista privilegiada do Gibralfaro e das duras batalhas que aí se disputaram.

 

Voltarei na próxima segunda-feira... pelo que vos deixo a apreciar o encontro do ar marítimo com o ar da montanha...

 

Fonte das Imagens: Própria.

 

Para os que só agoram chegaram com os seus exércitos:

 

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

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Um Fim de Semana no "Cinema Paradiso"

por Robinson Kanes, em 13.02.17

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Precisava de me comover um pouco, mas não tenho importância que chegue. Comover-nos é estarmos cheios de nós e eu estou vazio.

Vergílio Ferreira, in “Para Sempre”

 

Este fim de semana, precisei de me comover. Talvez porque a chuva a isso convidava, talvez porque a noite sinistra e escura exercesse em mim, aliás, em nós, uma necessidade de extrapolar os limites da vedação civilizacional e regressar a um certo lugar onde tudo é possível.

 

Foi assim que, no Sábado à noite, fui buscar o “Cinema Paradiso”. Se existe obra completa, esta é sem dúvida um grande exemplo... uma realização soberba, e claro, com Philippe Noiret (Alfredo) entre as personagens não seria difícil assim o ser. A tamanha obra acresce uma banda sonora genial, quase perfeita, criada pelo grande Mestre de quem já falei aqui, Ennio Morricone. Não é difícil deixar o CD a rolar e cair no sofá, ficando absorto em pensamentos e memórias, tal como Salvatore (ou Toto) na cena final do filme. Somos imediatamente agarrados para uma espécie de mundo paralelo, mas ao mesmo tempo tão... real... tão nosso...

 

Mais uma vez, assistindo a este filme, foi-me possível assistir a uma certa decadência do cinema (algo tão actual), mas também, questionar se, por mais que possamos fugir, não estaremos somente a criar um muro que nos afasta das memórias. Um muro que é tão ténue quanto a parede que separa um apartamento de má construção do outro. Se mesmo com esse muro, tudo não está presente, nem que por intermédio de fantasmas... Toto questionou-se e... na verdade terá chegado à mesmo conclusão que eu.

 

Sartre, dizia na sua “Náusea”, e a propósito da irreversibilidade do tempo, que “o passado é um luxo de proprietário [...] possuo apenas o meu corpo, um homem sozinho, só com o seu corpo, não pode reter as recordações, elas passam através dele.”. Pois bem, mas Sarte esquecia-se, muito provavelmente de emoção e de que todos talvez sejamos proprietários das nossas emoções. De como, mesmo com a transformação de Giancaldo (embora a praça que surge no filme, na realidade, corresponde Palazzo Adriano, perto de Palermo) e com a demolição do Cinema Paradiso e a importância de não regressar, as memórias ficam, o apego fica e, mesmo que rodeados de fantasmas, uma certa marca de nós e dos outros não se apaga... porque dessas emoções e marcas somos nós proprietários vitalícios. 

 

Deixo-vos uma cena, uma das mais interessantes e que foi eliminada do filme (quem visualizar o filme ou até voltar a vê-lo vai perceber o porquê da minha escolha e questionar-se se... não foi melhor ter sido eliminada)... porque não... uma fantástica interpretação do tema principal do filme (e logo naquela Praça que me diz tanto em Veneza) para que, aqueles que o desejem, sejam proprietários das mesmas. Penso que será uma boa forma de começar uma semana... aguardo pelos sentimentos suscitados.

 

E... talvez a vida nem sempre tenha de ser recheada de finais felizes... mesmo no cinema... ou... o que é um final feliz?

 

Fonte da Imagem: http://www.dvdbeaver.com/film/dvdcompare/cinema-paradiso/3new.jpg

 

Cena Eliminada

 

 

 

 

 

Tema Principal do Filme

 

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O Alemão...

por Robinson Kanes, em 10.02.17

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Hans Maler, Retrato de Joachim Rehle (Gemäldegalerie Alte Meister)
 

Anteontem, em conversa com um amigo alemão, aliás, um senhor que tem idade para ser meu pai, levei um murro no estômago. Nem foi o facto de tal personagem me ter dito para sair de Portugal o quanto antes e que devia ter dado seguimento à minha estada fora...

 

Falávamos da vida, do trabalho e de questões culturais quando, num momento de partilha, o alemão encetou um discurso que me deixou a pensar:

 

- Estamos bem, apesar da situação de saúde da minha mulher. Já estou por cá há uns 20 anos, a minha mulher trabalhou cá, regressou à Alemanha e está cá novamente.

 

Assenti com a cabeça, esperando mais desenvolvimentos... senti que havia algo mais a caminho, e houve, o alemão tomou da palavra e continuou:

 

-Foi peculiar, depois de tantos anos fora da Alemanha, todos se lembravam dela e foi recebida com grande carinho, sentiu-se realmente muito bem. Mas... quando voltou para Portugal, e nem esteve assim tanto tempo fora, já ninguém se lembrava dela, acreditas? Vocês portugueses gabam-se muito de ser um povo hospitaleiro e muito amigo do amigo... dizem que os alemães são frios, mas nós, quando abrimos as nossas portas é para sempre e não apenas quando temos algum interesse. Nós não esquecemos os nossos amigos.

 

Coloquei os olhos no chão... levantei-os após alguns segundos e... mais uma vez, com a cabeça assenti e concordei. Talvez 80% de mim concordasse com o alemão... e talvez até tentasse encontrar um argumento em contrário, mas numa abordagem geral e olhando para o meu histórico com as duas culturas, fui obrigado a reconhecer que talvez - o alemão - estivesse certo.

 

E porque falamos de alemães e vem aí o fim de semana e... o artigo de hoje não foi o mais brilhante e... tenho roupa para passar a ferro e... porque as palavras ecoam... lembrei-me de outro alemão, aliás de um grande Senhor alemão, Johann Sebastian Bach e o Concerto para Dois Violinos em Ré Menor BWV 1043 (esqueçam isto, é pedantismo, foquem-se na música)... o Andante (minuto 04:30) é qualquer coisa. Acredito que vão sentir vontade de abraçar alguém.

 

Ah! E é óptimo para quem tem só duas ou três camisas para passar...

 

Bom fim de semana

 

Fonte da Imagem: Própria

 

 

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Córdoba: O Quartel General Cristão.

por Robinson Kanes, em 09.02.17

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Com o centro das operações em Antequera e também em Córdoba, os cristão, sob o comando dos Reis Católicos e com o auxílio de tantos outros cavaleiros, especialmente o Marquês de Cádiz, continuavam a semear o pânico em território Mouro.

 

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Foi de Antequera que, em 1484 (já os portugueses andavam por África há muito), saiu uma enorme força com vista à conquista de territórios mouros. A curiosidade assenta no facto de que , nesta campanha de 40 dias, a rainha Católica ordenou a criação de uma espécie de hospital de campanha que ficou conhecido como “Hospital de la Reina”. Esta fora a primeira vez que se levara “camas” para a frente de batalha para ajudar os feridos... uma tremenda inovação. No final, esta incursão acabaria por ser um preparativo para a tomada de Ronda, à qual já fiz uma pequena descrição.

 

Mas se Antequera era uma espécie de posto de comando avançado, Córdoba era o quartel-general. Em Córdoba, desfilavam os cavaleiros faustosamente ornamentados, era o local onde se encontravam os reis católicos (embora Fernando II sempre estivesse presente nas operações) e no fundo, onde a mais alta elite da cavalaria, corte e Igreja  se pavoneava. Foi em Córdoba, também, que se vieram juntar os cavaleiros ingleses que ajudariam na tomada de Málaga, comandados por Lord Scales, Conde de Rivers e irmão da rainha de Inglaterra, mulher de Henrique VII.

 

Se nos lembrarmos que Córdoba já fora entregue pelos mouros em 1236, será interessante assistir a esta como palco dos planos para a conquista de Granada. Será interessante esperar pela passagem dos cavaleiros cristãos pela fabulosa ponte romana através da Puerta del Puente (Puerta de Algeciras durante a Reconquista), em direcção a terras mouras, e contemplar os rostos que celebram garra mas também escondem temor pelo que se avizinha.

 

Córdoba conserva tudo o que é Árabe e é um verdadeiro fascínio para os olhos... as muralhas, o Alcazár (ainda descendente da ocupação romana), as estreitas ruas e os próprios habitantes da cidade que, apesar de espanhóis, ainda hoje, conservam o sorriso e muito do comportamento que podemos encontrar nos povos árabes.

 

IMG_4277.jpgConfesso que gosto de cidades, vilas ou aldeias, onde o “mix” de culturas é grande. À cultura árabe, visigoda, múdejar e romana, em Córdoba, junta-se também a judaica (a sinagoga é a única de Andaluzia e a terceira mais bem conservada de Espanha).

 

Gente boa a de Córdoba... foi lá que fiquei “a conhecer” Ronda e tive uma verdadeira lição de História de Andaluzia. Foi com aquele cordovês, de quem já falei num artigo anterior sobre Ronda, que tive oportunidade de muito aprender. De ser estimulado a decorar todas as províncias de Espanha e, sobretudo, de admirar a Catedral (permitam-me os católicos, mas será sempre uma Mesquita). Usufruir de mais de uma hora de partilha e conversa no pátio com laranjeiras que se encontra em frente à fachada é aglo que nunca esquecerei.

 

A paixão dos mouros por extensos jardins e árvores de fruto, remete-nos para a época em que naquele pátio desfilavam belas mouriscas e os turbantes se amontoavam para as orações. Aliás, Córdoba é conhecida pelos seus pátios e pelo festival que aí tem lugar. Córdoba, capital do Califado Muçulmano que governou uma grande parte da Península Ibérica e que, até ao século X, foi a maior cidade do Mundo... quem diria, também, que ainda sob domínio de Roma, aqui havia nascido Séneca! Também foi aqui que nasceu Averroes (grande filósofo muçulmano ou não estivesse ele também representado na Escola de Atenas de Rafael).

 

IMG_4237.jpg

Em Córdoba é fácil ser um membro da plebe que tenta escapar ao desfile dos cavaleiros e infantes que preparam as suas armas para uma nova etapa da guerra. Facilmente vemos a Rainha Católica a chegar com a sua guarda e com os seus conselheiros para a celebração da eucarística naquela Catedral, que por mais que tente esconder, será sempre uma Mesquita e onde os seus arcos – em contraste com o altar e o coro - são uma verdadeira demonstração de que todas as culturas podem conviver, independentemente das diferenças culturais, religiosas, sociais e até políticas.

 

Comamos um torrão acabado de fazer num pote de ferro e, entre os cavalos arreados e luxuosamente ornamentados, esperemos o cortejo real... que toquem os sinos que ecoarão pelos vales de Marchena, passando por Carmona até se encontrarem com os seus semelhantes da Giralda em Sevilha, ou então, em sentido contrário... com os sinos da Catedral de Jaén. 

 

Outras peripécias da Crónica da "Conquista de Granada":

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

 

Fonte das Imagens: Própria

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