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Existe agora, mais uma moda, no LinkedIn, em que os excelentes profissionais que temos por este país e pelo mundo desafiam todos os utilizadores da sua rede, e não só, para algo verdadeiramente profissional e gerador de conclusões importantíssimas para o desenvolvimento das pessoas e das organizações. De facto, quem não tem LinkedIn que crie já uma conta e procure imediatamente ligar-se a estes senhores.

 

Mas o que fazem estes indivíduos? Simples, colocam duas ou mais fotografias e pedem aos demais utilizadores que lhes sugiram aquela que deve surgir numa determinada publicação."Vejam como sou importante, vou aparecer naquela revista que tem mais de... 20 assinaturas".Não é complicado, sobretudo se quisermos escolher algo forçado... já se procurarem algo mais natural, desejo-vos sorte.

 

Temos a versão risonha, altamente bem trabalhada e muitas vezes sem rugas de expressão. Também temos a versão séria, altamente profissional e sempre, mas sempre, com os braços cruzados, ou com as mãos bem juntas.  Existe ainda uma outra opção, nomeadamente, as mãos ligeiramente abertas com as pontas dos dedos a tocarem-se. Temos também, o rosto para o lado e o rosto a encarar quem visualiza. Só não temos é o rosto a trabalhar...

 

A quantidade de pessoas que participa é deveras impressionante. Os palpites são vários, e no fim... aquele indivíduo que quer mostrar ser uma pessoa decidida, valente e com jeito para o negócio, nem maturidade e nem capacidade crítica e analítica tem para escolher a sua própria "imagem". E quando isso acontece... como é que um dia poderá tomar decisões mais difíceis quando nem a sua fotografia para uma publicação sabe escolher. Pelo menos é assim que eu encaro tal tomada de posição.

 

Actualmente, num mundo de tanta exposição, onde é tão difícil separar o menino do coro do gabarola, mas também definir um e outro, sugiro que muitos se escondam, pois já dizia Vergílio Ferreira que “as desgraças não são para se verem, e é por isso que existem as casas de banho”.

 

Em suma, andamos todos a brincar ao profissional, mas o que queremos é um emprego, uns trabalham para isso, outros promovem-se para tal...

 

Fonte da Imagem: https://bossip.com/975637/random-ridiculousness-zoo-employee-dressed-in-gorilla-suit-shot-with-tranquilizer-dart-when-mistaken-for-real-escaped-primate-43081/

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el Zegri e Ronda...

por Robinson Kanes, em 30.01.17

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No seguimento da minha leitura da Crónica da Conquista de Granada (podem acompanhar aqui), dou comigo a ser transportado para mais um Pueblo que me deixa sempre boquiaberto, isto por mais vezes que lá acorra – Ronda.

 

Conheci Ronda pela primeira vez em... Córdoba. Lembro-me de estar à espera para visitar a Catedral/Mesquita, ou seja, esperava pela celebração da eucaristia, pois assim conseguiria visitar a Catedral gratuitamente – um bom negócio, em

meu entender.

 

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Enquanto esperava, esta incansável vontade de falar com todos, acabou com uma conversa de mais de uma hora  com um cordovês e com a esposa a prestarem-nos uma autêntica lição de história e etnologia sobre Andaluzia. Estaria tudo bem, até eu dizer que Andaluzia para mim não tinha segredos... mas eis que Ronda saltou para a discussão e afirmei não conhecer aquela localização.. “hombre, si no conoces Ronda, no puedes conocer Andalucia!”.

 

E pronto, dei comigo a ter uma aula de história sobre Ronda, aliás, terra que já não me era estranha da leitura do “Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler - s menções ao importante Judeu de Ronda. Fiquei com uma vontade enorme de me aventurar, mais uma vez, por aquelas montanhas andaluzas e conhecer o seu Carnaval peculiar que inclui desfiles a cavalo e a “obrigação” de comer migas na Plaza de los Descalzos. Infelizmente, nesse dia, o destino seguinte era Jaén e só mais tarde viria a perceber que realmente não conhecia Andaluzia.

 

Ronda surge, na “Crónica da Conquista de Granada”, como uma praça fortíssima e de grande importância para os Mouros! Ouso até dizer, que foi o primeiro rude golpe contra o reino de Granada.

 

Entretanto, depois da conquista de Zahara por Aben Hácen, já os cristãos haviam conquistado praças como Medina Sidonia, Alhama (mesmo às portas de Granada), Zahara (reconquistada) e Loja. Também em Granada, a governação, era agora disputada por Aben Hácen e pelo seu filho Boabdil (o infortunado) e em Málaga, nas montanhas, os cristãos tinham sofrido uma pesada derrota. Contudo, os mesmos cristãos, haviam conseguido capturar Boabdil em Lucena (uma das mais importantes batalhas da reconquista) e vencido os mouros em Lopera. Boabdil seria mais tarde libertado sob promessa de prestar vassalagem à coroa espanhola... imagino que não tenha caído bem aos mouros.

 

Ronda era agora a conquista fundamental para animar as tropas e... vingar Málaga! Para isso, os de Castela, teriam de vencer um dos mais temidos alcaides mouros - Hamet el Zegri – que já havia retirado em Coín e Lopera. Contudo, nem foi preciso ir tão longe, pois temendo a conquista de Málaga pelos cristãos, el Zegri saiu com uma guarnição para essa cidade. Quando regressou, viu Ronda ser sitiada e destruída por uma recém-chegada a esta guerra: a artilharia pesada. Sem conseguir dominar os cristãos pelo exterior, teve de abandonar os arredores de Ronda, sendo a cidade obrigada a capitular. A rendição permitiu a libertação de muitos daqueles que foram capturados na batalha de Málaga.

 

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Hoje, Ronda ainda espanta todos os visitantes - gloriosa e altiva naquele morro singular e unida pela puente nuevo (construída muito depois da derrota moura, nomeadamente entre 1751 e 1793) que é hoje, uma das suas maiores atracções. Do coreto, é possível imaginar o cerco cristão e os exércitos conquistadores reunidos nas várias montanhas que rodeiam a cidade, as baterias de artilharia, bem posicionadas, tendo em vista a destruição das torres e das muralhas que defendiam o “morro”. Imagino a angústia daquelas gentes e dos “governadores” de Ronda no Palácio do Rei Mouro. A expectativa e o desespero naquelas varandas que enfrentam a dura rocha e que permitem uma vista sobre os vales e montanhas a sudeste da cidade.

 

Ainda é possível ver muito da Izn-Rand Onda muçulmana e facilmente se percebe porque é que Orson Wells e Hemingway ficaram tão fascinados com esta terra que não é só famosa pela sua Praça de Touros, para muitos a mais antiga do Mundo. Eu também fiquei fascinado e... não vou esquecer uma espécie de flash mob involuntária que seu deu perto da Calle Manuel Montero aquando do término desta e numa lateral da Igreja de Santa Maria Maior: assobiei, inocentemente, o Concerto de Aranjuez e tive a companhia de mais de metade dos indivíduos que se encontravam na praça... eram só uns 15, mas já foi qualquer coisa.

 

O Reino de Granada, esse, estava a ficar cada vez mais pequeno e, na verdade, a deixar-nos uma lição para o nosso dia-a-dia pessoal e profissional: se andamos muito ocupados com guerras de poder internas, provavelmente não vamos conseguir enfrentar as dificuldades externas, mesmo que tenhamos os melhores guerreiros e conheçamos o terreno como ninguém.

 

Fonte das Imagens: Prórpia

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Chopin e as Limpezas...

por Robinson Kanes, em 28.01.17

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Eugène Delacroix, Retrato de Frédéric Chopin/Fryderyk Chopin (Museu do Louvre)

 

Hoje é Sábado... pensei em não vir escrever mas quando cheguei ontem a casa deu-me uma tremenda vontade de limpar o pó e aspirar. É daquelas coisas às quais não se resiste, é algo tão... bom!

 

Mangas arregaçadas e uma ida ao móvel para encontrar a banda sonora! E agora que me caiam os pseudo-melómanos, os intelectuais vanguardistas e todos os outros que me queiram achincalhar numa qualquer calçada deste país... escolhi Chopin, nomeadamente os concertos para Piano nº1 e nº2... maldito povo que fazes uso de Chopin para limpar o pó, mas... a música afinal não é democrática?

 

Sim, Chopin pode ser uma fantástica escolha para acompanhar a limpeza do pó da casa! Mas no meio de toda aquele momento cavalheiresco de faxina algo me fez sentar no sofá e ficar a ouvir... o Concerto nº2.

 

Nisto, dou comigo a “levitar” e deu-me uma enorme vontade de perceber a origem do mesmo. Fui descobrir que o Concerto nº2 era afinal o Concerto nº1! Sim, na verdade, este concerto foi composto primeiro que o Concerto nº1 de Chopin aos 20 anos, mais precisamente em 1830! Foi neste ano que, perante a opressão russa do Czar Nicolau I, Chopin foi obrigado a deixar Varsóvia (a 10 km da sua terra natal Zelazowa Wola) e a ir para Viena, seguindo-se Paris. Aliás, foi uma espécie de desorganização de Chopin, nas viagens entre Varsóvia, Viena e Paris que, levou à “confusão” na atribuição dos números aos concertos.

 

Se, por um lado, pelos pseudo-especialistas, os concertos para piano de Chopin não são considerados a sua obra-prima, por outro devo dizer que o contexto em que, desta vez, escutei tamanha obra me criou uma identificação particular com a sonoridade e acima de tudo com a história que rodeou a mesma...

 

Após a partida de Varsóvia, Chopin disse: “Maldito seja o momento da minha partida” e, enquanto os seus eram esmagados disse também, já em 1831 “Oh meu Deus, vocês estão aí e, mesmo assim, não se vingam”...

 

Bem a propósito... e pronto, perdoem-me este momento à Antena 2, mas no "bairro" também se pode gostar do que é bom...

 

Fonte da Imagem: Própria. 

Deixo o Concerto para quem não tiver mais nada que fazer este fim de semana...  a conduzir a orquestra o grande André Previn e o ainda maior (ao piano) Arthur Rubinstein, com 87 anos e quase cego... nada mau.

 

 

 

 

 

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Donald Trump já está a proceder às mudanças que tinha prometido... haja alguém, para o bem ou para o mal, que cumpra aquilo que promete.

 

No entanto, uma das coisas menos boas de Trump abriu portas para uma discussão deveras interessante. Se por um lado temos o discurso contra a imigração de Trump, pelo outro, temos cidades como Los Angeles, New York e até outras de menor dimensão como San Diego a chamarem a si a decisão de não tomarem partido no discurso e política anti-imigração. Assistimos à criação de uma espécie de autonomia que vai ao encontro das suas necessidades e desenvolvimento.

 

À semelhança de outras cidades pelo Mundo, são cada vez mais as cidades que se assumem como verdadeiras nações - cidades-estado fazendo aqui a colagem às cidades-estado gregas da Antiguidade.

 

A vantagem de termos muitas cidades deste género deve-se à proximidade com os cidadãos e com a realidade. Do ponto de vista admnistrativo, social e económico um Governo mais próximo da realidade e especificidades daquilo que administra parece-me ser muito mais eficiente que um poder central, muitas vezes alheio às realidades locais. Existem cidades que, pela sua capacidade de desenvolvimento, conseguem suplantar países... além disso, a reunião de consensos entre as diferentes partes (por exemplo, diferentes presidentes de câmara) torna-se mais fácil, sendo que o foco, mais que a um nível central e político, pode ser mais holístico. Até a própria eleição dos orgãos de governo pode ter como base a associação de cidadãos ou de indivíduos com conhecimento e obra feita e não somente um conjunto de "oportunistas partidários" incubados numa máquina partidária para partirem à conquista de territórios que desconhecem.

 

Podemos dizer que é uma espécie de área metropolitana... pode ser efectivamente, mas não podemos colocar interesses partidários ou lutas pelo poder à frente do desenvolvimento das cidades. O afastamento, por exemplo, face ao poder central, é também uma mais-valia. Contudo, não podemos, como se faz em Lisboa... governar a cidade como uma espécie de catapulta para outros voos.

 

Não podemos chegar ao ponto de cada um estar voltado para si em muitas decisões... muito do caos que se vive na periferia de Lisboa deve-se a essa falta de diálogo e concertação nas políticas de transportes, habitação, ambiente e não só. Cada um por si, e damos por nós numa completa  não-identificação com o meio por parte dos cidadãos.

 

 

Não podemos ter alguém no Montijo, Alcochete, Mafra ou até Vila Franca de Xira a utilizar o diálogo do "tenho que ir a Lisboa" como se isso fosse ir de Vladivostok a Moscovo para resolver um qualquer assunto. Não podemos ter uma espécie de "apatia" face a Lisboa nos subúrbios da cidade, pois na realidade também esses subúrbios são Lisboa. Não precisamos de perder a nossa identidade, aliás, esse afastamento é que tem gerado a perda de identidade por parte de muitas localidades. Nas cidades-estado existe espaço para tudo... se dentro de Lisboa conseguimos ter as áreas de excelência para a vida nocturna, porque não podemos ter a zona rural de Lisboa em Alcochete, ou até Mafra?

 

E as vantagens que podemos retirar na relação dessas cidades-estado com outras regiões? O Mundo está a mudar e as cidades são o futuro... enquanto permanecermos nos nossos pequenos "feudos", leais a uma "coroa" que distribui títulos e riqueza consoante as influências deste ou daquele "nobre", não conseguiremos competir com os nossos parceiros europeus e até, em outras distâncias mais longínquias... e aí, não existirá Web Summit que nos valha, seja qual o país em que esta se estabelecer.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Empreendedorismo Social não é Dádiva.

por Robinson Kanes, em 26.01.17

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Hugues Merle, Uma Mendiga (Museu d'Orsay)

 

 

Ainda existe a tentação, sobretudo em países da Europa do Sul, de que o Empreendedorismo Social tem de estar ligado à dádiva.

 

A própria "promoção" do mesmo ainda assenta na base do chamado apoio aos mais carenciados tendo, em pano de fundo, os seus próprios promotores que não se coíbem de aparecer como os "salvadores do mundo" e que nada auferem em troca pelas suas práticas - na verdade, não é assim. Não existem almoços grátis e na área social também não! Mas porque é que temos receio de falar nisso?

 

Vejamos algumas conclusões de instituições e peritos que suportam estas afirmações... antes que digam que tenho mau feitio.

 

Hockerts, numa visão mais aproximada da Schwab Foundation traz a ideia de que o Empreendedorismo Social assenta em business ventures com propósito social ou seja, “empresas híbridas que estabelecem ligação entre o for-profit e o non-profit bem como as próprias organizações públicas. No entanto, não encaixando em nenhuma destas três esferas” (Mair; Robinson & Hockerts, 2006:5).

 

Na visão de Perrini, inspirada em Laville, existe uma decisão democrática e participativa levando a que os interesses próprios de um ou mais não condenem a actividade principal da empresa social (Perrini & Vurro; 2006: 64). Para Dees a empresa social não é uma empresa de dádiva até pela forma empresarial que pode tomar, mesmo não visando o lucro primordialmente (Dees, 1998:5) .

 

Já o Institute for Social Entrepreneurs (ISE) define o empreendedor social como “um indivíduo que usa o retorno do seu trabalho para prosseguir objectivos sociais e simultaneamente procura um retorno financeiro e social. Pode ser um indivíduo que esteja, ou não, no sector non-profit (ISE, 2002). Aqui, o espectro alarga-se e finalmente a questão financeira é colocada verdadeiramente em cima da mesa, além disso, a definição vai ainda mais longe ao colocar a hipótese da actividade de empreendedorismo social não estar ligada ao non-profit. É esta visão que, em Portugal, ainda assusta muita gente ligada à "causa social".

 

Também a RIPESS, com vasta experiência, sobretudo no campo da Economia Social e Solidária, apresenta uma visão mais clara e enquadrada com o conceito anterior do que é o Empreendedorismo Social. A empresa social apresenta-se como uma empresa que tem, obviamente um fim social. Gera retorno pela venda que faz de bens e serviços ao invés de depender de financiamentos externos e com benefícios que revertem para a missão social, mais que para os accionistas (RIPESS, 2015). Neste campo, a mesma entidade vem também a apontar para a necessidade de esclarecer que as empresas sociais não podem substituir o Estado em serviços essenciais, como não devem ser um meio de absorção de fundos. Tomando como base a definição da própria organização, estas organizações têm de ser capazes de gerar dividendos por si próprias, não excluindo o suporte de outros mecanismos de financiamento, mas tendo sempre como prioridade a venda de bens e serviços que permitam garantir a sustentabilidade das mesmas

 

Neste enquadramento teríamos verdadeiras organizações empresariais com cariz social a actuar num mercado concorrencial com as demais organizações empresariais e equiparadas não só legalmente mas sobretudo fiscalmente.

 

Contudo, uma nota para o facto deste processo permitir que estas organizações não venham a perder a sua vocação social, mas trabalhem para melhores resultados, menor dependência externa e acabem por gerar um afunilamento que levará à exclusão de muitas instituições que são somente sorvedouros de fundos e cuja eficiência não justifica os elevados investimentos realizados pelos Governos, pelas organizações empresariais e sobretudo pela comunidade civil. Os recursos são escassos e muitos deles não estão efectivamente ao serviço de quem mais deles necessita.

 

Perante muitos paradoxos, a que ainda vamos assistindo... teria Vergílio Ferreira razão quando no seu "Em Nome da Terra" dizia a Mónica que "o maior prazer de quem precisa, é haver quem  precise mais"?

 

Para quem quiser saber mais:

  • Perrini, Francesco; Vurro, Clodia (2006), “Social Entrepreneurship: Innovation and Social Change Across Theory and Practice”, em Mair, Johanna; Robinson, Jeffrey e Hockerts, Kai; Hampshire (orgs.), Social Entrepreneurship e New York, Palgrave Macmillan.
  • Dees, J. Gregory; Haas, Peter; Haas, Miriam, (1998), The Meaning of “Social Entrepreneurship, s.l.; s.n.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Aben Hácen e Zahara

por Robinson Kanes, em 25.01.17

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Iniciei a leitura das páginas da “Crónica de la conquista de Granada” (sim, em castelhano) de Washington Irving, baseada nos escritos de Frei António Agápida. História de Espanha... lê-se em castelhano.

 

Esta crónica relata um dos episódios históricos e sociais mais marcantes da Península Ibérica, nomeadamente, as últimas guerras da reconquista cristã... que não acabaram com a conquista do Algarve.

 

Se em Portugal já andávamos a explorar o continente africano, em Espanha o Reino de Granada, governado pelo rei mouro Muley Aben Hácen, ainda disputava o seu território com os Reis Católicos - Fernando II e Isabel I.

 

Até aqui, nada de novo... o interesse começa quando o soberano mouro deixa de pagar o tributo à coroa espanhola e decide avançar, em primeiro lugar, com as hostilidades. Mais tarde ou mais cedo alguém ia dar o primeiro passo. Também Fernando II, só não avançara porque tinha de gerir as convulsões internas do seu próprio reino e os habituais atritos com os primeiros separatistas que “Espanha” conheceu: os Portugueses.

 

E eis que, para minha surpresa, Muley Aben Hácen decide atacar e tomar Zahara de la Sierra, um pueblo andaluz situado no Parque Natural de Grazalema e que faz parte da “Rota dos Pueblos Blancos”. Esta tomada decorreu de forma hostil com várias mortes e prisioneiros, aliás, no regresso a Granada, perante tão sanguinária campanha, muitos foram os que anteviram um cenário negro para o reino: uma espécie de castigo que chegaria muito em breve.

 

Zahara é daquelas imagens que não se esquecem. Da barragem, agora construída, e olhando para aquele pueblo, conseguimos imaginar as forças de Aben Hácen a invadir a fortaleza (conquistada em 1407 aos Mouros) que ainda hoje lá se encontra. Imaginamos os gritos dos seus residentes a ecoarem pelos vales até Arcos, embora a paisagem, tão bucólica, possa levar ao engano. Uma chegada ao amanhecer transmite-nos uma tranquilidade singular, uma espécie de acalmia pós-batalha e cujo cenário jamais permitirá, ao ignorante de tais factos, imaginar a carnificina que ali teve lugar na noite anterior. O principio do fim da presença muçulmana na Península Ibérica começara em Zahara a ser redigido.

 

Foi uma agradável surpresa, aperceber-me da importância de tão bonito local e, pelo que estou a ler, será o primeiro de muitos no que toca às peripécias da Conquista de Granada.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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O Encerramento do Café René...

por Robinson Kanes, em 24.01.17

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Voltei a ser apanhado de surpresa... depois do "Jorge Miguel", uma nova chamada e... "sabes quem morreu? O René Artois". Não me vou alongar em dizer que Kaye tinha sido uma grande actor e que era isto e aquilo... para isso temos os seus admiradores e aqueles que... tendo ouvido hoje o nome pela primeira vez, passarão a gostar dele, pelo menos enquanto ainda se falar do mesmo.

 

Mais que Kaye, morreu a série... de facto, este elenco já havia perdido o seu undertaker , nomeadamente "Monsieur Alphonse" (Kenneth Connor) e a sua grande paixão "Edith" (Carmen Silvera). Perdeu também, o "Coronel Von Strohm" (Richard Marner), a "Madame Fanny" (Rose Hill), o já velhinho "Leclerc" (Jack Haig), o General, cujo nome eu adorava, "Von Klinkerhoffen", e finalmente o Sr. dos "Clop" (Sam Kelly). Com o desaparecimento de René o bar vai fechar para sempre. Esperemos que os dois british airmen já estejam em Inglaterra com a ajuda da Michelle.

 

Foi das poucas séries que me fez, e faz, rir como ninguém... ainda se lembram quando "Herr Flick" (Richard Gibson) é atingido por um dardo com veneno?  Com o humor britânico a que já estamos habituados, nunca nenhuma série, ou filme, digeriu tão bem uma catástrofe histórica como foi a 2ª  Guerra Mundial e, mais particularmente, a ocupação francesa. As peripécias, a sátira a todos os envolvidos (até os espanhóis que estavam neutros foram chamados) e a preocupação em mostrar que, acima da guerra, existem pessoas das várias frentes que são amigas e que até partilham interesses que vão para além da Paz... recordo, por exemplo "The Fallen Madonna with the Big Boobies".

 

Hoje, o Café René fechou para sempre, hoje... com toda a certeza, o Tenente Gruber (Guy Siner), que ainda está entre nós irá chorar a morte de René bem escondido no seu little tank e consolado pelo latir dos seus pastores-alemães. Hoje... fiquei com vontade de rever, mais uma vez, a série... são muitos DVD pela frente, mas começando, é impossível não ver até ao fim. 

 

Ah! O Herr Flick.. e o René também lá está...

 

 Fonte da Imagem: http://www.atvtoday.co.uk/wp-content/uploads/2014/06/allo-allo.jpg

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O Pai...

por Robinson Kanes, em 23.01.17

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Em finais de Dezembro, tive oportunidade de ir ao Teatro Aberto assistir à peça “O Pai” - foi uma das prendas que dei à “velha” – e se por um lado João Perry dispensa apresentações, confesso que, o facto deste contracenar com Ana Guiomar me deixou a pensar no fiasco que se avizinhava.

 

O facto não se consumou e Ana Guiomar esteve à altura dos acontecimentos. Fiquei surpreendido pela positiva, e muito. João Perry, com aquele seu ar de “acabado” e, uma experiência de anos no teatro, mostrou que era a pessoa certa para o papel. Mas, não me vou alongar com uma espécie de texto pseudointelectual e enfadonho sobre as interpretações deste ou daquele actor. Não me cabe a mim vender a peça...

 

"O Pai" é uma peça que apresenta, de uma forma clara e sem qualquer pudor, a demência de alguém que, chegado a determinada idade, é apanhado de tal forma numa teia de cenários que se torna impossível distinguir a própria realidade, ou melhor, várias realidades cujo afunilamento na realidade do mundo, na realidade dos outros... se torna impossível.

 

De facto, e no meio de alguns momentos de humor, dou comigo a pensar no primeiro dia (ainda puto) em que talvez tenha sido levado pela primeira grande avalancha da minha vida... o dia em que o meu pai não me conheceu, o dia em que a realidade deixou de ser perfeita.

 

“As coisas não estão como eram”... foram as palavras que, confesso, me deixaram pensativo enquanto o autocarro me levava para Lisboa logo após uma época de frequências... imaturidade minha, medo... cobardia... fizeram-me ignorar o lado negro daquele aviso. O Pai sempre me havia ido buscar ao terminal, mesmo quando um dos braços (devido à doença) já o atraiçoava. Naquele dia, foi a mana - “as coisas não estão como eram, o que vais ver não é o pai como o conheceste...”. Tais palavras, ditas com uma frieza clínica, mesmo assim, não me haviam demovido de ver aquele homem forte, aquele exemplo de luta ao longo de uma vida e sempre bem-disposto perante a adversidade. O homem tal como sempre o idolatrara.

 

O cheiro a sardinhas (prato tão acarinhado lá em casa) antevia mais um jantar em família com a alegria que, apesar de dois anos de derrotas, não havia esmorecido... não havia esmorecido até entrar pelo portão e vê-lo ali, distante... sem alegria no olhar, sem um sorriso no rosto e olhando para mim como se questionando quem era estranha personagem que lhe estendia a cara para um beijo.

 

“É o Robinson, pai”. É o Robinson pai... e o eco dessas palavras e as lágrimas contidas que deveriam ter corrido como cataratas mas ficaram presas numa angústia que me faria mais tarde fugir de tudo aquilo. Deveria ter chorado, deveria ter-me lembrado da lição de Faulkner e de que um cavalheiro também chora, mas com a diferença que, face aos demais, depois lava a cara.

 

“As coisas não estão como eram”... não estavam mesmo. As boas notícias, de três semanas de bom trabalho no primeiro ano de faculdade ficaram guardadas para mais tarde... a doença atacara agora a sua alma, mas mais que isso... a sua alegria de viver, a sua capacidade de sorrir, de contar piadas, em suma... de rir da morte.

 

O Pai, deixara de ser o Pai... e no fundo de mim, por mais que tentasse fugir (e fugi) saberia que nunca mais o teria de volta e a realidade não mais voltaria a ser o que havia sido até então.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Interessante... Eu Gosto do Trump!

por Robinson Kanes, em 21.01.17

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Não, não sou o maior adepto de Donald Trump como podem ver aqui , mas... 

 

A eleição de Donald Trump ensinou-nos uma coisa bastante interessante, nomeadamente, que são muitos os que amam a Democracia desde que a mesma vá ao encontro daquilo que lhes traz algum retorno.

 

Donald Trump não é o melhor presidente que os Estados Unidos podem ter, mas começo a crer que em Portugal tem mais inimigos que no seu próprio país. Interessante... como são muitos os portugueses que acusam o Sr. Trump de não ter competência para o cargo, de ser populista, de ter tido um "empurrãozinho" para ganhar as eleições. Não precisamos de ir aos Estados Unidos para ter uma imagem semelhante. A diferença é que os media nos Estados Unidos (e não só) criticam Trump e não o levam em carruagem dourada como outra personagem política que conhecemos tão bem.

 

Interessante... como estamos mais focados na política americana (mesmo que muitos ilustres comentadores nem saibam como funciona o sistema eleitoral naquele país) e não estejamos focados na nossa. Ficamos mais preocupados com o facto de Trump colocar limitações ao trânsito no bairro de Queens em Nova Iorque do que com a dupla tributação de alguns produtos em Portugal... ou até com a corrupção que toma conta da sociedade portuguesa, nomeadamente no centro político. Estranho paradoxo para um povo que tem tanta dificuldade em olhar lá para fora em coisas realmente importantes.

 

Trump, para o bem e para o mal, tem uma vantagem - é uma espécie de voz do povo americano. Não quero com isto dizer que esteja certo, mas se diz que quer colocar a política interna como prioriadade, é isso que o povo deseja... conheço um país onde um "psicólogo" disse mal de uma etnia (que a maioria dos residentes desse mesmo país detesta) e foi esmagado por uma onda de revolta e hipocrisia por muitos que pensavam como ele... só que não era politicamente correcto. Trump carrega a voz do povo, por enquanto.

 

Donald Trump serviu também para mostrar como os media, ou pelo menos alguns media, não informam mas procuram manipular. Interessante... ver artistas, políticos, jornalistas, gente de bem e defensores acérrimos da liberdade invadir as ruas e utilizar meios privilegiados para pedirem a cabeça de Trump e o afastamento deste. Mas então e a Democracia? Será que os porcos também estão a comer à mesa com os humanos? (vide a "Quinta dos Animais" de George Orwell) .

 

Não gosto de Trump, mas vou aguardar para ver... pelo menos é o mínimo que se deve esperar de um defensor da democracia.

 

Fonte da Imagem: www.bbc.com

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Faz Questão...Questão!

por Robinson Kanes, em 20.01.17

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Já referi aqui a minha relutância em aceitar favores ou subter-me a interesses para arranjar emprego. É por isso que procuro sempre emprego pela via normal, ou seja, enviar candidaturas e chatear os recrutadores até ser ouvido. Isto dá azo a que surjam sempre muitas histórias e hoje venho partilhar mais uma...

 

Atravesso o rio, um dia soalheiro e um optimismo estampando no rosto quando chego, antes da hora marcada, a uma entrevista. Como tenho tempo, e oportunidade, deambulo pelos corredores e deparo-me com uma maioria de indivíduos completamente cabisbaixos e sisudos... até os zombies do jogo Resident Evil eram mais simpáticos. Estaria eu a ser surpreendido com uma red flag (1)?

 

Esperei... passaram-se 20 minutos... até que indaguei se ainda ia demorar muito. A resposta foi simples e clara, um rotundo “não” sem qualquer expressão no rosto (nem boa, nem má).

 

Ao cabo de uns minutos, a mesma senhora do "não" pediu-me  para seguir em direcção a uma porta que ficava logo a seguir a uma outra porta e que, depois de um corredor, teria de subir umas escadas que davam para outra porta, que por sua vez, dava para o departamento "x". Interessante, tendo em conta que quase fui virado do avesso na portaria por questões de segurança...

 

Depois de guardar a bússola, eis que dou comigo num local com alguns indivíduos a olhar para mim, ao que eu, qual grande Chefe Apache, solto um “olá”! Estão a pensar que todos me responderam com um alegre e efusivo “olá”, deduzo...

 

Perante a ausência de retorno, abordei o colaborador que estava mais perto e disse que era o Robinson e estava ali para uma entrevista para a posição “x” com a senhora Carla (nome fictício como todos os outros). Este, pede-me para aguardar e ausenta-se até regressar e proferir:

 

-David, vais tu fazer a entrevista? A Carla disse para ires tu.

-Pois, pede a esse senhor para aguardar um momento.

Diz o David com ar de quem não gostou.

 

(David, eu estou aqui, podes falar directamente comigo.)

 

O David, rapaz simpático, com barba comprida, cabelo despenteado, umas sapatilhas de marca e umas calças de ganga peculiares (diria que tinha ido regar milho antes de ter vindo para o emprego) observa-me de cima abaixo com um ar reprovador... Sim, eu estava de fato azul escuro, camisa branca e gravata com riscas vermelhas e brancas. Como é que hoje em dia alguém é capaz de ir a uma entrevista com barba feita e sem uma peça de roupa rota! 

 

David diz qualquer coisa imperceptível, mas entendi que fosse um “venha”. Por exclusão de partes lá acertei e chegamos a uma sala onde, finalmente, o David me cumprimenta, se apresenta, e solta um... “fale-me de si” (perdoem-no, o David, profissional de Recursos Humanos, nem se lembrou de ter ido imprimir o meu Curriculum Vitae (CV) e tenho dúvidas que soubesse para o que estava a recrutar).

 

Mas a sorte protege os audazes e... os incompetentes também. Quando me preparava para começar a falar um pouco de mim, entra a Carla esbaforida:

 

-Deixa David, eu trato disso!

 

"Deixa David, eu trato disso". Eu trato desse tipo que ousou trazer um fato num dia de calor. Eu que estava bem era na praia a bater com a cabeça nas rochas por ter conduzido este processo tão mal e no fim a afogar-me nas águas mais profundas do oceano Atlântico ao largo de Sines. Isto sou eu a tentar ler o pensamento da Carla...

 

A Carla sentou-se... e nem uma pequena apresentação da posição. Reparei também que a minha interlocutora não tinha o meu CV, pelo que me ofereci para lhe dar uma cópia. Confesso que também fiquei com vontade de retirar uma pistola automática da pasta perante o que iria acabar de ouvir:

 

-Ah, Robinson, isso! Fale-me de si.

 

"Ah, Robinson, isso"...Confesso que já não tive vontade, tentei acelerar as coisas ao máximo e esperar pelo momento final para me ir embora. No entanto, no decorrer da conversa, eis que me tornei mais atento:

 

-Duas coisas! Isto aqui é um local muito difícil para se trabalhar, não é nada fácil, temos muito trabalho, as pessoas não são fáceis e não vai ser nada fácil. Aqui trabalha-se muito, sabe como é hoje em dia!

 

(esperem, há mais)

 

-Mais uma coisa, o nosso Director de Recursos Humanos tem um visão sobre o trabalho e os trabalhadores que todos seguimos sem excepção.

 

Diz a Carla com um orgulho de quem é mestre de cerimónias numa visita presidencial de Donald Trump.

 

Depois de ter visto o que vi, julguei que vinha aí a grande salvação... o famoso Director de Recursos Humanos era um indivíduo com o foco no bem-estar dos colaboradores, focado nos objectivos a cumprir, exigente, carismático e capaz de guiar todos em prol dos resultados, um líder como poucos e atento à eficiência...

 

Mas... Carla começa a soltar os ventos dessa ideologia que faria envergonhar qualquer conceituado professor da Harvard Business School:

 

-O nosso director, faz questão, questão mesmo, que os horários de entrada sejam para cumprir, é mesmo aquilo em que ele faz mesmo questão! Aqui trabalhamos das oito às duas da manhã se for preciso!

 

(Lamento que não possam ver o gesto com a mão aquando do “faz questão, questão”.).

 

Este texto já vai longo, e a conversa também o ia, ao que questionei:

 

-Perdoe-me, mas o rigor deve ser para entrar e também para sair, deduzo. Era uma excelente forma de gerir tempo. Permita-me também, mas o foco deve ser na performance, nos resultados e não no presencismo, porque para estar aqui a fazer que se faz qualquer um consegue. Além disso fala com uma pessoa que já trabalhou semanas, senão meses a fio praticamente sem pregar olho... mas com um objectivo e não porque sim.

 

Olhos de ira inundaram a Carla, que mais uma vez focou que o trabalho era muito... no entanto, pelo que me foi possível avaliar, aquela equipa era mais que suficiente para as necessidades da organização.

 

Finalmente, eu próprio tinha puxado pela pistola e dado um tiro em mim, abençoado...

 

Despedimo-nos com um aperto de mão e o habitual “vamos ver e dizemos qualquer coisa”. A Carla não sorriu, afinal só o fez quando disse “faz questão... questão...”.

 

A Carla não sorriu... a Carla não sorriu e também não deve ter sorrido quando lhe remeti um email a dizer que não estava interessado na posição, embora tenha tido plena consciência de que eu nunca seria a escolha... honestamente, também não fazia questão, não fazia mesmo questão.

 

 

1- Red Flag, de forma rápida, é uma espécie de... não te metas nisso.

Fonte da Imagem: http://commentaramafilms.blogspot.pt/2014/05/film-friday-fun-with-dick-and-jane-2005.html

 

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