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O Ano Novo e a Marcha Radetzky.

por Robinson Kanes, em 30.12.16

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O que poderei dizer sobre o Ano Novo? Não faço balanços, não assumo resoluções...

 

O Ano Novo sempre foi uma espécie de segundo Natal... afinal, andamos dois meses a falar no Natal e no dia 26 já ninguém se lembra que o mesmo existe. Tal leva-me a crer que o Natal não tem realmente grande significado para uma grande maioria.

 

O Ano Novo é mais uma oportunidade para reunir a família, os amigos e conviver. É mais um dia? Não, nos outros não fazemos figura de parvos a comer passas de empreitada só porque... enfim... Nos outros dias também não ouvimos disparos de armas automáticas e ficamos serenamente a contemplar tal espectáculo e... nos outros dias, não achamos que o sexo é especial só porque se passa de dia 31 para dia 01. Ano Novo é reunir a família e os amigos, é celebrar, rir, brindar e esquecermo-nos que já é meia-noite.

 

Mas o Ano Novo, especialmente o dia 01, traz-me sempre à memória o borrego que a minha mãe faz (maldito estômago que controlaste o meu pensamento). Não, o Ano Novo, lembra-me os concertos... Não consigo passar o dia de Ano Novo sem trautear a Marcha Radetzky - talvez até seja uma das composições para música clássica mais... pirosas - sem dúvida, é algo que me dá gosto escutar neste dia.

 

Composta por Johann Baptist Strauss, o pai (momento Antena 02), faz-me levantar neste dia com outro sorriso e rapidamente colocar-me entre os mais bem dispostos da sala, ao contrário dos demais, que ainda mostram resquícios de uma noite bem passada.

 

A Marcha Radetzky, contudo, não se chama Radetzky porque Strauss se lembrou de encontrar um nome pomposo austríaco para dar à sua obra. Deve-se sim, a uma composição em honra do Marechal de Campo Austríaco, o Conde Joseph Wenzel Radetzky (que, por acaso, nasceu na Boémia, em Trebnice, recomendo a visita) que levou a Áustria à vitória em Itália, mais propriamente no norte, durante a revolução de 1848-1849 (ficou famosa a Batalha de Novara). Talvez seja esse o motivo que faz esta marcha ter um lugar no coração dos austríacos... e no fim de cada concerto de Ano Novo em Viena... lá está ela a encerrar a festa. Confesso, no entanto, que aquelas palmas a ecoar pela Musikverein...

 

Para mim, causa o mesmo impacte que o filme Sozinho em Casa provoca, no Natal, para a maioria das pessoas, só que num registo mais pedante da minha parte.

 

Além disso, sinto que o meu Pastor quando trota pelos campos - é um rústico - executa com uma sintonia única, cada compasso desta composição. Dia 01 lá estaremos, no meio do campo, com dois humanos a trautear e um pastor-alemão a dar o compasso...

 

Feliz Ano Novo e fiquem com a Marcha Radetzky na Musikverein, dirigida por Mariss Jansons (outro momento à Antena 02).

 

P.S: se ainda forem a tempo, não percam, este ano o Maestro é o Gustavo Dudamel. Embora, importa mencionar, os bilhetes disponíveis já não sejam os mais baratos.

 

 

Fonte da Imagem: http://www.hurriyetdailynews.com/Default.aspx?pageID=429&GalleryID=1094

 

02/01/2017

P.S: O Concerto deste ano completo:

https://www.youtube.com/watch?v=s6v59AcHx0Y

https://www.youtube.com/watch?v=BwDTrvHyqf8

 

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Abaixo as Resoluções de Ano Novo.

por Robinson Kanes, em 29.12.16

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Sempre que chegamos à semana que antecede o novo ano tendemos a fazer resoluções e balanços... se no contexto das organizações (e nem são todas) pode fazer algum sentido, será que tem esse mesmo sentido para nós, como pessoas?

 

Nietzsche dizia que “é quando a noite é mais discreta que o orvalho cai sobre a erva”, pelo que não estaremos a ignorar uma lição importante do legado que nos foi deixado em “Assim Falava Zaratustra”?

 

Não estaremos a focar a nossa atenção numa época em especial e a esquecer o orvalho que cai ao longo do ano nessa erva que somos nós?

 

O novo ano é, de facto, uma celebração, aliás, da qual gosto e faço questão de festejar, quanto mais não seja porque é sempre uma espécie de segundo Natal, mas... será que no dia 1 ou no dia 2, as coisas mudam assim tanto? Dizem-nos muitos “especialistas” que devemos traçar objectivos para o novo ano... será?

 

Deixemo-nos de questões... o novo ano é uma celebração, mas planear a longo prazo, sobretudo como indivíduos, pode ser um erro e uma decepção. Acredito que, ao longo do ano devemos estar atentos aos sinais, abraçar a mudança e fazer planos, sem ter que esperar pelo dia 31. Afinal, o mundo de hoje em dia é imprevisível e... aquela loucura que eu ia fazer em Fevereiro pode não ter lugar porque fiquei desempregado, ou o filho que tanto queria ter não vai nascer, simplesmente porque... não o posso ter... ou a relação (presume-se que exista) caiu.

 

Deveria ser proibido fazer balanços do “ano velho” e criar planos para o novo ano. Penso até, que teríamos algo mais a ganhar do que propriamente a perder... vamos festejar mas... os planos... as resoluções... essas são feitas ao longo do ano, ao passar de cada dia... quando a a noite é mais discreta...

 

Fonte da Imagem: Própria

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Marcelonite Aguda!

por Robinson Kanes, em 28.12.16

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 El Greco, A Cura do Homem Cego (Gemäldegalerie Alte Meister)

 

Esta época de Natal fez-me passar mais tempo em casa de familiares e, como tal, o acesso à informação televisiva foi maior (infelizmente).

 

Na verdade, e não querendo focar-me na questão política, não é isso que venho aqui abordar, sou só eu que sinto que existe uma “Marcelomania” nos media nacionais?

 

Confesso que não quis chegar aqui e debitar matéria ao acaso, pelo que aproveitei a disposição e parti em busca de matéria por outros meios de comunicação para além da televisão.

 

De facto, pessoas como as Kardashians encontraram um rival à altura: o nosso Presidente da República. Deduzo que o tempo de antena de Marcelo é superior ao destas e... reparem que os Estados Unidos são um país bem maior.

 

Tive oportunidade de reparar que o senhor comenta tudo, desde as fotografias do ano em semanários, aparece na capa da “Caras” – grande órgão de informação – comenta a morte do gato da D. Matilde que vive no Samouco, comenta uma rixa popular em Sendim, sem esquecer de sugerir a ceia de Natal e a bucha ideal para qualquer montador de andaimes. Denoto que comenta também o facto de existir muita gente que coloca xarope nas panquecas ao invés de doce ou mel.

 

Também reparei, juntando toda a matéria recolhida, que existe uma máquina poderosa de comunicação, paga pelos contribuintes, a dar azo a toda esta patologia... pois, até a mais “inocente” visita a um hospital à meia-noite foi seguida por um batalhão de jornalistas... e não é que cerca da meia-noite, no dia de consoada, nessa mesma visita "informal" a um hospital central, ainda por lá estava o Director Geral de Saúde... contudo, para mim, o melhor ficou guardado para o fim, com aquele beijo a uma agente da PSP.

 

Falamos de Trump, mas fomos nós os primeiros a ter um Presidente Pop (como já li ser apelidado) que utilizou os media (ou foi utilizado) como ninguém para atingir um objectivo... apesar de tudo, mal ou bem, Trump ainda deu ideias.

 

Ao pensar neste estado de coisas, só me consigo recordar de um dos pensamentos de Vergílio Ferreira... na obra Pensar e que dizia o seguinte:

 

Fala baixo, não te estafes a falar alto, deixa que os outros se esfalfem até ficarem calados. Falar alto é compensar o que em ideias é baixo. E essa é a compreensão dos que escutam. Não te esforces a falar alto. Serás ouvido quando os outros se esfalfarem e já não tiverem voz. Como o que se ouve num recinto depois que o comício acabou.

 

Temo que o nosso Presidente da República esteja a esquecer o essencial e a acompanhar uma tendência com repercussões nefastas a longo prazo.  Estamos perante o “não importa o que faço, o que importa é aparecer”. Para um povo descuidado de cidadania, a estratégia é brilhante... mas para o país... aguardemos para ver se não estaremos perante mais um mau exemplo de Liderança camuflado por uma cegueira colectiva.

 

Fonte da Imagem: Própria

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Os Tupolev e o Alexandrov Ensemble

por Robinson Kanes, em 27.12.16

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Antes de falar do Alexandrov Ensemble, também conhecido pelo Coro do Exército Vermelho, não gostaria de deixar passar em claro o seguinte:

 

Cai um Tupolev-154 com o Ensemble Alexandrov e a quem é dado o destaque nos media? Aos jornalistas que iam a bordo (CNN, BBC e tantos outros canais em Portugal). Parece-me bem, tendo em conta que seguia uma tripulação e um coro, também com nomes e rostos. Mas a cereja no topo do bolo surge quando, sob o dito modelo de aeronave, caem todas as criticas e uma lista de acidentes, como que querendo passar a imagem de que viajar num Tupolev 154 é uma espécie de viagem com bilhete... só de ida.

 

Os Tupolev são aviões bastante seguros e quando, em número de acidentes, até comparados com alguns modelos ocidentais (Boeing e Airbus) não se pode dizer que fiquem tão mal na fotografia... mas isso não foi falado. Acredito até, que muitos aviões Tupolev acabem por ter acidentes devido à falta de manutenção, ou não fossem muitas companhias que operam os mesmos, proibidas de viajar em espaço aéreo europeu e norte-americano.

 

Mas o Coro? Provavelmente, o facto de ser russo e a recente morte de George Michael ofuscarem a perda desta obra-prima importa referir que é qualquer coisa. É um prolongamento da Rússia em todo o Mundo e escutá-los é realmente algo de único... e não é só o coro, mas também a orquestra e o corpo de dança. É uma clara imagem de tempos idos, mas também de uma cultura, de uma força e de uma disciplina... que é para nós, erradamente, por vezes assustadora. Para perceber um pouco da Rússia, para o bem, ou para o mal, este é sem dúvida um dos veículos.

 

Só lamento não ter tido oportunidade de ver este coro... ainda... pois não me parece que o mesmo vá ter um fim. Fica uma pequena anotação do que acabámos de "perder"...

 

 

Fonte da Imagem: http://www.sovmusic.ru/person.php?idperson=147

 

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"Jorge Miguel" e Eu.

por Robinson Kanes, em 26.12.16

 

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Acabei de receber um telefonema e, do outro lado, perguntam:

 

-Sabes quem morreu?

-O Mário Soares? – Perguntei eu.

Do outro lado, a resposta crua e dura:

-Não! O George Michael!

 

Confesso que não procurei notícias, para mim basta-me a notícia da morte e... não fosse ter escrito recentemente um texto sobre Bowie, provavelmente não estaria a escrever este... confesso que abomino os escritos imediatos que surgem após a morte de alguém... desconfio, muito seriamente, que existem pessoas que já têm textos escritos para a morte deste e daquele indivíduo e contam ansiosamente o tempo para os publicar, tal como os "humoristas". Por vezes, ainda o indivíduo está a “fechar os olhos” e já estão a sair artigos e opiniões...

 

Hoje, e durante os próximos dias, George Michael vai ter mais fãs do que alguma vez teve, chega a hora de todos, especialmente as pseudo-celebridades, dizerem que adoravam o senhor.

 

Conheci o “Jorge Miguel” tarde... a minha irmã era altamente viciada no senhor, sobretudo durante os anos 80. Mas... durante os anos 80, era eu um miúdo sem qualquer sensibilidade para essas coisas, aliás, não poderia mesmo e a Rua Sésamo era o meu passatempo (graças a Deus que em Portugal não existiam Telteubbies).

 

Foi, efectivamente, em meados dos anos 90, que ouvindo os discos dos Wham (todos temos as nossas pedras no sapato e... quem nunca fez figuras tristes a dançar o “Wake Me Up Before You Gogo” que atire a primeira pedra”) lá fui entrando no universo deste senhor.

 

O apogeu deu-se quando ouvi “Jesus to a Child” e especialmente o “You Have Been Loved”. Numa época de miúdo armado em galã, ouvir esta última e passear pela escola de “peito feito” com a mais desejada da turma... a mistura não poderia ter sido melhor. 

 

Songs From The Last Century” e, mais recentemente, “Symphonica” fizeram-me apreciar, não só as músicas deste senhor, mas a voz (lembram-se que foi o único músico que, após a morte de Freddy Mercury, reuniu consenso entre os fãs de Queen, para o substituir?). Ainda hoje, sinto que vou pegar no último e deixar que ecoe pela sala... afinal, estas coisas têm de ser recordadas com alegria.

 

 

People

You can never change the way they feel

Better let them do just what they will

For they will

If you let them

Steal your heart from you

People

Will always make a lover feel a fool

But you knew I loved you

We could have shown them all

We should have seen love through

(Kissing a Fool do álbum “Faith”)

 

Num mundo, onde as referências, sobretudo na música, vão sendo menos, estas perdas fazem-nos pensar... não na morte dos mesmos em si, afinal a morte faz parte da vida, mas em como vão sendo cada vez menos os bons artistas e como o futuro não é propriamente recheado de qualidade no que a esta temática concerne. 

 

O Jorge Miguel vai continuando por aqui... bem vivo, em cada música, em cada disco e cd que vai girar vezes sem fim, fazendo companhia a outros grandes mestres.

 

Fonte da Imagem: Própria.

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Natal Para Todos!

por Robinson Kanes, em 23.12.16

 

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Vou escrever algo sobre o Natal? Vou desejar um Feliz Natal aos dois indivíduos que seguem atentamente o meu blog? Eles estarão à espera disso, sobretudo vindo de alguém como eu... sem jeito para isto?

 

Falar de Natal... acredite-se ou não que o Deus menino nasceu e ficou nas palhas deitado... ou nas palhas estendido... o que importa é passar esta época e todas as outras com aqueles de quem gostamos – “Ah! Mas não me apetece estar na mesa de Natal com aquele meu cunhado que não posso ver à frente!” – afinal há sempre remédio para tudo. Que tal sugerir a reconciliação ou então deixar a hipocrisia para trás e convidar a família/amizade mais próxima e... apanhar um voo para Sidney e passar o Natal a surfar com aqueles que nos dizem algo? Quem diz Sidney, pode falar de Esposende, da Costa Nova ou até da praia artifical com ondas de Castanheira de Pêra, é tudo igual.

 

Esta Natal pensem naqueles que estão convosco, não adiem aquele elogio, aquele momento... (Pingo Doce, vocês têm “o meu momento” não estou a plagiar”), não adiem aquele beijo, aquele abraço e deixem de ser caras de atum... sejam genuínos e não tenham medo de dizer que amam aquela pessoa! Pensem naqueles a quem já não podem dizer ou até naqueles que não têm essa oportunidade porque têm de estar num bunker para não levar com uma bomba em cima. Lembrem-se que, enquanto muitos de nós, nos enchemos em silêncio de bombas calóricas, outros desejam que bombas vindas do céu, qual estrela cadente de Natal, não lhes caiam em cima da cabeça.

 

Este Natal, abracem alguém de quem gostem ou até aquele “atrasado” da contabilidade... sabiam que vive sozinho há anos? Arranquem-lhe um sorriso, pode ser que em Janeiro lhe arranquem mais facilmente uma folga no orçamento.

 

Desejo a todos um Bom Natal, independentemente do credo, filosofia ou até gosto pela época, na medida em que, mais que o Natal, são os valores que se impõem, e esses... esses atravessam toda e qualquer convicção.

 

Façam um esforço e como Dickens o faria, honrem o Natal nos vossos corações e procurem mantê-lo todo o ano.

 

P.S: não pensem que estou a ficar "mole", ok?

 

Fonte da Imagem: própria.

 

 

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Não tendo televisão em casa, vou vendo, involuntariamente, algumas coisas (casa da mãe, casa dos amigos, no café...). Dos atentados de Berlim ainda não tive oportunidade de ver, ainda por cima é uma cidade que me diz muito e provavelmente até conheço o local. No entanto, enquanto procurava informação sobre os atentados em meios estrangeiros, por mim seleccionados, acabei por cair numa rádio nacional portuguesa, pois o título era este: “Português em Berlim. Há dois anos decidimos não frequentar mercados de Natal”.

 

Pensei que seria a verdadeira noção de que estamos numa guerra religiosa. Celebrar o Natal em tempo de guerra com os Árabes (muitos pensam isso) pode ser uma heresia!

 

Mais elucidado fiquei com a pequenez, não territorial, mas sobretudo mental de muitos portugueses quando dou comigo a ler “Eu e a minha família estamos bem porque, devido a esta mudança de realidade na Alemanha e na Europa, decidimos - há cerca de dois anos - não ir a mercados de Natal com medo que alguma coisa acontecesse.”.

 

Uma questão que se coloca: mas este senhor ainda vive em Berlim?

 

Alguém envie rapidamente uma SMS e lhe mencione que a Alemanha, especialmente Berlim, são alvos prioritários dos terroristas e que já está um avião… um avião? Outro alvo predilecto! Um carro! Um carro à espera para o transportar para o Nepal! Mas o Nepal... aquilo com a China não descamba de vez em quando? Está um carro à espera para o levar para Mem Martins, consta que é uma zona pacífica onde é mais fácil ser atropelado numa passadeira do que "levar" com uma bomba em Mossul.

 

Com cidadãos assim, o terrorismo tem tudo para ser bem sucedido!

 

Confesso que, para não influenciar este artigo, não procurei informação sobre o indivíduo em causa... todavia, no artigo disponibilizado pela rádio, este identificou-se como blogger de viagens. Será que sai de Berlim?

 

Fonte da Imagem: Própria. (Não deixem de visitar!)

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Falar de Bowie e da Morte...

por Robinson Kanes, em 19.12.16

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Agora que os ventos estão mais calmos e em que tudo já se escreveu sobre David Bowie - que ficaria feliz ao perceber que afinal tem o quádruplo dos fãs que pensava - escrevo eu quando pouco falta para o primeiro aniversário da sua morte. Sobretudo porque, sempre que morre alguém, tenho a sensação de que já existem rascunhos prestes a serem publicados para não se perder a corrida das lamentações e com isso os holofotes.

 

De repente fiquei a saber que poderia ter falado de "Absolute Beginners", de "Ziggy Stardust" ou de outros temas com tanta gente que eu pensava não conhecer muito da vida e obra deste senhor... possivelmente não as conheciam mesmo. Nada que no prazo de um dia umas pesquisas na internet não resolvessem e... a cada aniversário lá virá mais uma colectânea para o lembrar.

 

Bowie, apesar de ter trabalhado uma vida inteira e de, por isso, ter sido reconhecido também em vida, teve de morrer para chegar a número um nos Estados Unidos. Isto faz-nos pensar um pouco... afinal, quer queiramos, quer não, as conquistas, os prémios e os reconhecimentos depois de mortos de nada valem para os artistas. “Vou ser reconhecido pelo meu trabalho... fantástico!... mas estou morto e, mesmo que até na minha fé esteja a visualizar tudo o que se passa na terra, convenhamos, de pouco ou nada me serve”. Somos nós, sobreviventes (por mais algum tempo), que podemos lucrar e transportar para aí um pouco a nossa crença de imortalidade.

 

Falou-se muito de David Bowie, sobretudo em termos de aprendizagem organizacional, de como era inovador, diferente e até de como a sua atitude se reflectiu numa carreira que se prolongou por várias décadas. David Bowie foi sempre ele próprio e a “única” coisa que teve de inovador foi isso mesmo: ser ele próprio. David Bowie não cedeu às muitas inovações (absurdas) de que o mundo musical foi sendo alvo nos últimos anos. Aproveitou como ninguém a tecnologia, mas jamais se deixou contagiar pelo muito lixo musical que foi sendo produzido. Podemos nesse aspecto continuar a falar de inovação? Claro que sim! Também isto é ser inovador – cada vez mais...

 

Outra descoberta: a apropriação da morte de Bowie por todos nós - “o meu Bowie”; “quando ouvia a música do Bowie”; “foi um cd do Bowie que...”; “como vai ser sem a música do Bowie” (interessante que também descobri no decorrer deste ano que a maioria dos portugueses e não só tem dificuldade em pronunciar o nome do senhor).

 

Tudo isto é interessante, e eu aí também sou apanhado na teia, mas esquecemos que o Bowie era uma pessoa e não pensamos muito nisso. Não pensamos muito no lado de lá... na família, no próprio (afinal morreu)... Não conseguimos ir mais além do “eu” que aqui também ganha destaque. É lugar comum falar em sociedade individualista, mas não vamos ao encontro dos focos desse mesmo individualismo. Não me alongo muito nesta matéria, deixo-a para os especialistas.

 

Finalmente, falar da morte de Bowie é também, passe a redundância, falar de... morte! Bowie é um cidadão da Idade Média. Ou melhor, é gente da Idade Média, pois o conceito de cidadania nessa época, com a queda do Império Romano do Ocidente, ficou um pouco marginalizado. Bowie soube preparar a sua morte com discrição - convidou a senhora da foice, sentou-a à mesa e discutiram todos os preparos para a festa que se seguiria. Uma das coisas em que a nossa sociedade não evoluiu, pelo contrário, foi a questão da morte. Talvez por perda de fé; talvez pelo simples facto do homem estar entregue a si próprio; talvez porque nos julgamos imortais; talvez porque perdemos aquele ente querido mas acreditamos poder viver eternamente porque a medicina nos vai salvar... até ao dia em que corremos o risco de morrer “velhinhos”. E quando a morte nos pisca o olho, temos um medo terrível e lutamos com todas as nossas forças, pois ainda há esperança de sermos salvos, mesmo quando não somos mais que um vegetal condenado a essa mesma morte.

 

Bowie foi gente da idade média, basta ler Ariés para perceber em que medida, naquela época, a Ocidente, o cerimonial da morte era preparado: morrer fazia parte da vida e a aproximação da morte era como que celebrada. Era o próprio moribundo que, apercebendo-se da aproximação do fim, preparava todo o cerimonial. Não existiam pontas soltas, quer em termos de heranças, quer em termos de palavras ou gestos. Havia tempo para serenamente discutir as questões da morte, não só entre o moribundo e os médicos da morte, mas também entre o moribundo e todos aqueles que o rodeavam. Segundo Ariés a morte era uma cerimónia pública e organizada e mais importante que isso, a simplicidade com que os ritos da mesma eram aceites e cumpridos, sem qualquer drama ou emoção excessiva. Fugir da morte, esconder o moribundo é uma prática recente do início do século XX.

 

Bowie não teve medo da morte. Preparou-a aliás, com um sorriso no rosto e trabalhou em parceria com ela no sentido de deixar tudo finalizado apesar de possivelmente ter travado uma luta interior que nos é desconhecida. Quantos clientes com esta postura não adoraria ter a morte?

 

No entanto, não esqueçamos... isto não é coisa que se faça cinco minutos antes de termos aquele AVC que nos vai levar de vez... este é um projecto também de vida, pois a serenidade da morte tem a ver com a serenidade da vida, caso contrário teremos aquilo a que Sartre chamava de “viver” e não a “aventura” (da vida) que só existia quando pudesse ser contada e acrescento eu, realmente sentida...

 

Talvez uma das maiores lições e inovações de Bowie tenha sido essa: a morte é normal, faz parte da vida e, fazendo parte dessa vida, também nós, “pseudo-imortais”, temos de estar preparados para a receber. Foi essa a última grande inovação de Bowie, ser gente da Idade Média em pleno século XXI.

 

Fonte da Imagem: http://thefashiontag.com/2016/01/13/david-bowie-a-style-icon/

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Je Suis Palmira... Je Suis Aleppo...

por Robinson Kanes, em 17.12.16

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Je suis Palmira ou Je suis Aleppo não é tão pomposo como Je suis Charlie Hebdo ou Je suis Bataclan e existem algumas razões, nomeadamente...

 

Em Aleppo e Palmira não se compram discos, não se arranjam empregos e há pouca gente interessada no local onde fomos jantar ontem. Os “famosos” não encontram, aí também, gente que esteja muito interessada nestes - ou seja, gente que não permite que os primeiros se perpetuem com pequenas mensagens egoístas de solidariedade – mas gente que somente procura fugir da guerra e isso não é lucrativo para a imagem de bom cidadão das redes sociais mas que nem se levanta da cama se a casa do vizinho estiver em chamas.

 

Dar um concerto de “solidariedade” no Bataclan é mais interessante para as vendas do novo disco, do que arriscar a pele num Estado Árabe.

 

Aleppo e Palmira estão cheia de gente esfarrapada que convive “bem” com a morte e (in)felizmente está até preparada para morrer. Na Europa e na restante sociedade ocidental, a morte é somente um espectáculo a que todos gostam de se associar. Fica bem dizer que estou solidário com uns atentados na Alemanha, mesmo que não entenda o contexto em que os mesmos ocorreram... afinal, para os canais noticiosos é mais fácil e... barato... conseguir imagens praticamente em directo de todos os acontecimentos cá em casa do que esperar três dias para que os preços praticados pelas grandes agências noticiosas baixem e estes possam adquirir uma versão low-cost do que se passa lá tão longe. Aquela morte espectáculo chega-nos com outro impacte.

 

“A Síria é longe, quero lá saber”... é verdade, mas também é verdade que foi por ali perto que cedo se ficou a conhecer o termo “civilização”. Ou seja, como sociedade que somos devíamos estar gratos por ser ali a nossa génese (como organização de pessoas).

 

Também é verdade e... paradoxal, que num mundo globalizado, onde estamos todos interligados olhemos para esta realidade como... distante... A Síria faz fronteira com a Turquia que por sua vez ocupa também um espaço na Europa e onde em menos de meia dúzia de horas é possível chegar de avião.

 

Morrer na Síria e em massa... ou em muitos outros países não é notícia, não é uma tragédia... nem é uma estatística como diria Estaline, é ignorar... é não existir. Morrer na Europa é diferente, é alguém que morre na nossa casa, é um cidadão que tinha nome, vida, família e um sem número de características que a sociedade ocidental tem e os outros não... os outros não, pensamos nós de forma arrogante... Morrer na Europa é caro, morrer na Síria sai barato.

 

Na Síria morre-se porque sim, não existe uma ideia para dar ao gatilho como dizia Vergílio Ferreira, morre-se sem saber porquê... um tiro, numa conjuntura destas, nunca poderá ser eficaz.

 

Falar da morte de Mário Soares (poderia ser outro) antes do mesmo morrer efectivamente, mesmo que mais de metade dos portugueses não nutram por este grande simpatia, é mais lucrativo e sempre abre mais umas portas do que pensar no que se passa ali ao lado, também em hospitais (hospitais?) da Cruz Vermelha, mas com tanta gente como nós que... humildemente só quer paz.

 

De facto, pensar nas coisas não é algo que se partilhe nas redes sociais, mas talvez permita construir seres-humanos mais atentos à realidade. A verdadeira rede social somos todos nós... independentemente da localização ou do credo.

 

Fonte da Imagem: http://imguol.com/c/noticias/5d/2016/02/06/6fev2016

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É Hoje! É Hoje!

por Robinson Kanes, em 14.12.16

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Sempre que chega o dia 20 de Dezembro é como se sentisse uma espécie de taquicardia a apossar-se do meu coração. Sinto-me de tal forma afectado que tenho de recorrer a uma amálgama de medicamentos para controlar tamanha situação.

 

Mas o que provoca isto? É a questão que se impõe. Se já tiveram oportunidade de ler alguns artigos meus, decerto já perceberam que "cunhas" e favorecimentos para encontrar emprego não são o meu forte. Deste modo, tal como qualquer pessoa que pense assim, tive/tenho de procurar emprego como um ser normal. E é aí que tudo começa.

 

Lembro-me de uma bela tarde de Outono, estava em Lisboa a travar conhecimento com um pastel de nata e não aguentei... antes da primeira dentada, vi um email que tinha acabado de chegar. Dizia algo como isto: Robinson, gostei muito do seu currículo e queria agendar uma reunião consigo. Nada mau, parecia uma coisa interessante e prometia. 

 

Lembro-me perfeitamente de ter chegado, esperado, com um sorriso na cara, uma hora e meia pelo Director e ter pensado... "mas o que é que eu estou aqui a fazer?".

 

Depois do muito português "desculpe o atraso eh eh, é que tinha ali umas coisas"... conversa puxa conversa, lá se falou e até se deambulou pelos espaços da organização. Pareceu-me bem, mas aquela espera... foi atenuada com um "gostei muito, quando pode começar?".

 

Pedi uns dias para pensar e lá respondi que valia a pena passar à fase seguinte... a fase seguinte... como me recordo de ter esperado mais quarenta e cinco minutos e ter estado uma hora a ver uma personagem algo boçal a comer presunto, queijo (de Nisa penso) e pão fatiado (com mau aspecto), tudo regado com uma magnifica cerveja... até me recordo do... "Robinson, quer um bocadinho?". Não, não me recordo, porque ninguém me ofereceu nada. No fim, não se falou de nada... pensei que seria "reunite aguda", algo também muito lusitano. Aliás, falou-se de uma enorme "tanga" que exaltava as qualidades do indivíduo que tinha um pouco de gordura de queijo no queixo.

Terminámos com um "então pense lá nisso e diga-me quando pode começar e quanto espera auferir" - Outra vez?

 

Enfim, já a pensar no que poderia ser o meu futuro, sobretudo quando estávamos perante uma posição estratégica, lá fui contra o meu orgulho e apresentei uma proposta. Por norma é ao contrário, eu sei. E eis que... aquele indivíduo, apreciador de mau presunto de embalagem, má cerveja importada, mas bom queijo de Nisa (pelo menos pelo cheiro parecia, visto que não lhe toquei), desapareceu. 

 

Como sou um indivíduo profissional, lá fiz o follow up, vulgo seguimento - "estamos muito interessados, aliás, ando só aqui a arrumar a casa, mas sim, conte com isso". Novo follow up, afinal gosto das coisas bem feitas e no papel e... "sim, é verdade, ando aqui a arrumar a casa (casa muito suja, tanto tempo) até dia 20 com toda a certeza envio a proposta".

 

Dia 20... Só não me disse de que ano. E é por isso, que ainda hoje quando está perto de chegar aquele dia 20 de Dezembro, entro numa ansiedade que nada nem ningúem me consegue ajudar a controlar - acredito que vai ser o dia em que aquela proposta vai chegar. É hoje - digo eu - é hoje!... é hoje que vou esperar por alguém horas a fio para reuniões onde se fala de tudo, menos de trabalho, e ainda vou ter de lidar com alguém que não sabe assumir posições.

 

Faltam 6 dias!!! Vai ser desta!

 

Fonte da Imagem: https://cretoniatimesdotcom.files.wordpress.com/2014/10/bricktop13.jpg

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