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Obrigado a Todos...

por Robinson Kanes, em 13.09.17

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Grupo do Leão - Columbano Bordalo Pinheiro (Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado)

Fonte da Imagem: Própria

 

Nós não estamos no espaço, somo-lo funcionalmente no modo original de nos relacionarmos com o que nos cerca.

Vergílio Ferreira, in "O Existencialismo é um Humanismo"

 

Nascido em finais do ano passado, penso que é chegada uma das alturas em que me parece imperioso agradecer a todos os que ousam e perdem o seu tempo a ler um sem número de disparates... Já perceberam que falo deste espaço.

 

Poderia afirmar que o "Não É Que Não Houvesse" existiria, quanto mais não fosse num caderno cá em casa, sem a vossa presença,  mas não poderia afirmar que teria a riqueza que tem. São vocês que o alimentam com as vossas leituras, com as vossas passagens e sobretudo com os vossos comentários. Muitos comentários são de um conteúdo e rigor louváveis, e face a muito do que vejo, é com bastante orgulho que os acolho. De facto, a primazia da qualidade em alguns de vós é tocante e isso também a mim me faz sorrir e pensar que uma única leitura, uma única visualização ou um único comentário a um artigo tem muito mais valor que milhares de visitas e comentários vazios de conteúdo e até sem paixão.

 

Com o tempo, uma espécie de egoísmo - afinal fui eu quem criou este espaço, pelo que é natural - foi-se desvanecendo e fui levado a reconhecer que os impulsionadores disto são vocês. Penso que fazemos uma boa equipa e que não há aqui um indivíduo que escreve e se coloca por cima a olhar a multidão... Somos todos a multidão. 

 

Mais que o blog do Robinson, este é o vosso blog, pelo que não concebo deixar alguém sem resposta ou sem espaço para se expressar. Aqui não é um espaço para impor regras, tendências ou a minha palavra, é um espaço para todos juntos chegarmos a uma conclusão, seja uma lágrima ou um sorriso, ou até uma debandada popular. Aqui é um espaço onde são sempre bem acolhidas as pessoas verdadeiras, aqueles que são os cidadãos verdadeiros e não pseudo-elites mediáticas ou tecno-provincianas... Aqui os problemas são mesmo problemas e as celebrações são verdadeiras festas de chegar a casa pela manhã com a camisa aberta ou os saltos na mão. Também a revolta aqui pode ser mais descontrolada e... Nem com "zero" visualizações, ostracização, ou obrigação de seguir uma pseudo-elite virtual cederemos à tentação de perder a nossa essência, contudo, temos a humildade de reconhecer erros e aprender. 

 

Foi graças a vocês, mesmo aqueles que acompanham sem opinar, que senti a responsabilidade de não perder o foco, mesmo com todas as implicações que isso possa acarretar. Foi talvez por isso, e mencionei num blog de outrem, que também já tive os meus dissabores perante uma oferta de publicidade que obrigaria à perda de neutralidade da minha parte -  ou seja, dizer menos bem de algo (mesmo sendo verdade) não seria permitido. A minha perda de neutralidade é perder todo o meu carácter perante vós e o "Não É Que Não Houvesse" não é um blog publicitário nem sujeito a pressões, até poderiamos sê-lo e seria legítimo, mas não é, aqui não funciona assim. Também já perdi seguidores por tocar em temas sensíveis, mas isso não vai mudar, não podemos apregoar a bandeira de sermos muito para à frente, mas desde que só concordem connosco ou não nos toquem na ferida. 

 

É com vocês que também tenho aprendido, é com vocês que também tenho rido e é com vocês que tenho percebido: a maior riqueza de um blog são as pessoas - aquelas que frequentam e não a pessoa que escreve! Quem pensar o contrário, quem se achar que é o guru que todos seguem, até pode ter sucesso, mas anda a enganar a "clientela".

 

Obrigado a todos e até breve...

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Fonte da Imagem: AP Photo/Binsar Bakkara

 

Vivemos no século XXI, temos tudo à nossa disposição, desde a tecnologia ao conhecimento, somos todos o máximo. Nunca, como hoje, tivemos tanto material para não ler aquilo que dá título a este artigo, mas...

 

Segundo a "Survival", 10 membros de uma tribo amazona foram massacrados por exploradores de ouro - o famoso mineral que vale tanto como um seixo mas ao qual atribuímos um valor inexplicável. Estamos a falar de tribos que ainda não têm contacto com a nossa sociedade e que vão sendo cada vez mais pequenas. Para que se tenha uma ideia, um quinto da população foi dizimada e podemos falar em genocídio! Esta não é uma temática nova na Amazónia, bem pelo contrário, e o governo de Michel Temer não é o melhor amigo dos índios - não podemos esquecer as ligação aos lobbies agro-industriais. Neste momento, a justiça brasileira abriu um inquérito e está a investigar, tendo já sido detidos dois indivíduos, contudo, continuamos a seguir o espírito de Cortés ou o dos "pacíficos" exploradores portugueses. Interessante... Como hoje ainda vemos com simpatia e fraternidade a evangelização forçada.

 

O vídeo abaixo fala um pouco deste povo... Importa lembrar que o governo federal nega a existência destas tribos e existem Organizações-Não-Governamentais (ONG) que promovem campanhas sob a capa da protecção mas que visam prejudicar e eliminar estas tribos...

 

 

Um outro episódio vem daquela que já foi denominada de capital mundial dos orangotangos: a Floresta de Tripa, terra natal do Orangotango da Sumatra. Este tema não é novo, mas continua a ser ignorado por muitos que a Indonésia é o principal destruidor de floresta do mundo! Os orangotangos vão ser dizimados, maioritariamente, por culpa daquele que surgiu como alternativa ao óleo alimentar convencional. Aquele que foi tão apregoado em dietas e que seria mais saudável que o anterior, mas saudável apenas para as nossas cozinhas... O óleo de palma, pouco tem de saudável para os outros animais, e a sua disseminação está a levar ao fim do Orangotango da Sumatra e até de outras espécies. As causas? Desflorestação que pode ser por abate de árvores, incêndios ou utilização de pesticidas e outras agentes quimicos que levam à destruição da flora e da fauna!

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Fonte da Imagem: https://www.worldwildlife.org/species/sumatran-orangutan

 

Mas a nossa amabilidade não se fica por aqui, quando os orangotangos não são presos e encarcerados até morrerem, são abatidos quando procuram comida e as mães morrem a proteger os filhos que são roubados para serem vendidos como animais de estimação! Actualmente, estima-se que existam 6,600 exemplares destes animais distribuidos por duas ilhas, Sumatra e Bornéu! A Floresta de Tripa (em alto risco de desaparecer) é somente uma parte do Ecossistema Leuser com 2.6 milhões de hectares e o único local da terra onde orangotangos, tigres, rinocerontes e elefantes vivem em harmonia num estado selvagem!

 

Deixo-vos com um vídeo do qual todos nos devíamos envergonhar. As imagens podem chocar, pelo que, quem não se quiser envergonhar e assistir, simplesmente não clique, embora a realidade seja para ser vista...

  

Algumas Notas:

 

Notícia no New York Times:

https://www.nytimes.com/2017/09/10/world/americas/brazil-amazon-tribe-killings.html?ncid=edlinkushpmg00000313

 

Notícia no website da Survival, responsável do alerta para o mundo:

https://www.survivalinternational.org/news/11810?ncid=edlinkushpmg00000313

 

Algumas ONG, que lutam contra a extinção dos orangotangos:

 

Save the Orangutan

http://savetheorangutan.org/

 

Sumatran Orangutan Conservation Program

http://sumatranorangutan.org

 

International Animal Rescue

https://www.internationalanimalrescue.org

 

 

 

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https-::ofpof.com:merak:meslekten-sogutan-musteri-

Fonte da Imagem: https-//ofpof.com/merak/meslekten-sogutan-musteri-tipleri

(artigo publicado originalmente a 13/10/2016, hoje reeditado, após a constante leitura, sobretudo na blogosfera, de autênticos ataques a quem trabalha, por norma, por pessoas que atrás de um monitor descarregam a sua frustração nos outros com o "patrocinio" do "Sapo", tentando sobrepor-se e colocar-se em "bicos de pés face" àqueles que acrescentam algo na sociedade. Como na sociedade, também na blogosfera também nas redes sociais temos o comportamento provinciano que dá grande sentido à expressão popular "não sirvas a quem serviu, nem peças a quem pediu").

 

 

Em Portugal existem algumas elites que, em meu entender, merecem um forte agradecimento - um agradecimento que vai para além do reconhecimento por intermédio de falsas manobras publicitárias.

 

Refiro-me aos políticos, aos directores de grandes empresas, àquele amigo que nos arranjou um bom trabalho mesmo sem termos competências para o mesmo, aos futebolistas, àqueles bloggers que se querem julgar mais que os outros seres da sociedade? Não! As personagens desta peça são outras.

 

Prefiro mencionar os empregados de mesa, os empregados de limpeza (inclui aqueles senhores que nos limpam os vidros e aquelas senhoras que aguentam a nossa falta de higiene e cuidado quando almoçamos no shopping, por muito que passemos a mensagem de que somos todos limpinhos...), as pessoas que nos limpam as ruas e os operacionais de super e hipermercados e que dão o melhor de si para que a nossa vida seja mais agradável e sem percalços.

 

Dirão: “e? Isso qualquer um faz!”. É um facto, então porque não fazem vocês? Direi eu... E se eu vos disser (imaginemos que a alguns bloggers, utilizando esta comunidade como exemplo) que o "texto" que têm nos destaques não vale rigorosamente nada e revela um sentimento de inferioridade atroz camuflado por uma necessidade de se colocar em bicos de pés perante quem não se pode defender? Lamento, ser blogger não é diferente de limpar uma retrete... Lamento mesmo e mais uma vez, não... Não somos assim tão importantes. 

 

Já tive oportunidade de viajar , de conhecer diferentes abordagens e perceber que, se não temos os melhores empregados de mesa do mundo e talvez o melhor atendimento ao cliente nas grandes superfícies não andamos muito longe da perfeição. Não vou nomear cidades europeias nem fora da Europa sob pena de ser injusto com muito boa gente que também dá o seu melhor além fronteiras.

 

Mas o paradoxo atinge o seu expoente máximo de... estupidez (perdoem-me o termo) quando “desancamos” (inclusive online) aquele simpático senhor que nos serviu um saboroso café, mas por lapso lá se esqueceu da colher ou porque trouxe o pacote de açúcar e nós nem tomamos o café com açúcar. No entanto, elogiamos (porque aí já é no estrangeiro) aquele antipático senhor que nos atirou um prato para cima da mesa, não se esforçou em compreender a nossa língua, não nos cumprimentou, ficou de mão estendida à espera de gratificação e ainda nos tratou com algum desprezo . Não fica bem dizer que as coisas correm mal quando estamos fora do nosso país, porque é importante ter uma história fascinante para contar.

 

O reconhecimento necessita de ter a sua origem no cliente, que insiste em não reconhecer muitos destes trabalhadores. Isso pode ser até um grande passo para o reconhecimento por parte dos líderes das organizações empresariais. E não basta espalhar com palavras e textos vagos que temos admiração pela pessoa que trabalha muito e só aufere €550.00 por mês. Vamos lá, até a "Miss Universo" consegue melhor e com sorte ainda são os impostos desses €550.00 que permitem a muitos estar aqui a escrever.

 

A grande maioria não é a mais bem remunerada, mas mesmo assim têm uma capacidade de sorrir e de nos envolver emocionalmente no processo de compra . Sejamos honestos, sorrisos e um total envolvimento não é muito comum.

 

Atentemos nos indivíduos que, por vezes até auferem um vencimento superior e ocupam posições com maior destaque mas que, ao invés do título de assistente de loja ou vendedor, têm o de Sales Assistant ou Account Manager - neste campo existem centenas de exemplos que poderia mencionar, sobretudo de supervisores e directores incapazes de resolver situações perante o cliente e que só são devidamente soluccionadas pelo colaborador da linha da frente - o soldado raso que dá o corpo às balas, utilizando aqui uma metáfora militar.

  

Importa não ver estes indivíduos como sacos de boxe como muitas vezes tenho presenciado – discussões inúteis, desprezo, sobranceria e até um assustador sentimento de superioridade (ou melhor, vontade de) em relação a estes - esquecemos que são pessoas e cujo trabalho muitas vezes até é bem mais honroso que o nosso e não podemos descurar que operacionalmente fazem um esforço que muitos de nós não faríamos... ou não conseguiríamos. E lá diz o povo novamente: "não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu". Permitam-me também usufruir da minha liberdade e defender-me (suportado em Orwell) dizendo que "se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir".  

 

Eles estão a fazer o trabalho que lhes compete? Sim, mas também elogiamos um médico quando ele nos avalia e nos receita uns comprimidos para a nossa doença - afinal também é pago para isso a não ser que se trate de um espécie de João Semana.

 

Da próxima vez que a nossa postura seja a de estar mal com a vida, estar mal connosco próprios ou questionarmos o porquê de termos sido castigados pelos deuses tal qual Sísifo, vamos agradecer e elogiar aqueles que nos servem com um sorriso no rosto e, mesmo perante o nosso estado depressivo ou agressivo, vão servir-nos aquele fantástico Bacalhau com Natas. Aquele bacalhau que nos vai fazer tão bem depois de uma manhã em que a vontade de enfrentar um processo judicial por ter eliminado alguém da face da terra nunca esteve tão presente. Ninguém tem de adivinhar se uma "coca-cola" ou "ice-tea" é com limão ou sem limão. Meus caros, vocês não são a Rainha de Inglaterra... Eu sei que gostariam de ser, mas não são e também não têm valores nem classe para o ser. Talvez sejam vocês, que se tiverem chefias ou clientes que criticam o vosso trabalho, não lidam bem com a crítica e acumulam frustração atrás de frustação.

 

Os mais casmurros dirão, como o fez Ehrenreich numa visão mais individualista, que agradecer, por exemplo, pode ser algo egoísta em prol do nosso próprio bem-estar. A resposta, nesse âmbito, é simples: se o nosso bem-estar gerar o bem-estar de outrem, porque não? A força maior está naquilo que Robert Emmons defende, ou seja, que a gratidão assenta no facto de reconhecermos a nossa ligação ou até mesmo dependência em relação a alguém ou ao trabalho desse alguém. Esse talvez seja um exercício difícil para quem quer ser ouvido, mas não quer ouvir, preferindo assim o debitar de alarvidades. Além disso, dizer bem não pode ser só quando queremos algo de quem dizemos bem ou somos pagos para o fazer.

 

Mas a senhora da limpeza hoje estava de mau humor! Soa a cliché, mas a resposta óbvia é: comportamento gera comportamento e sempre somos humanos... temos emoções. No dia em que todos esquecermos isso então já não podemos falar em Humanidade e será absolutamente necessário partir no encalço de um novo conceito.

 

 

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Depois do pôr do sol na Praia do Beliche existe também, a cerca de 4km, um local onde um outro pôr do sol nos confronta com a imensidão do Universo. Um pôr do sol forte e onde nos sentimos aquele pequeno grão de areia perdido entre milhões de galáxias. Onde reconhecemos, independente do nosso poder que somos aquele pequeno átomo.

 

Estamos em Sagres, ou melhor, na fortaleza que tem o mesmo nome. Localizada na Ponta de Sagres, também denominada de Promontório Sagrado (Promunturium Sacrum), este local vale sobretudo pelo seu entorno natural, pelas vistas únicas e pela voz do mar que nos invade por debaixo da rocha, ora uma vez suave ora outra vez mais forte e agressiva. A prova de riqueza natural e patrimonial está patente na classificação como Monumento Nacional, Zona Especial de Protecção (ZEP), Rede Natura 2000 e ainda como fazendo parte do Parque Natural da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano. Acresce ainda, o facto do Promontório ser Marca do Património Europeu (MPE), distição da União Europeia que visa promover sítios que simbolizam a integração, os ideais e a sua história. 

 

Depois de algumas horas na Praia do Tonel, podemos guardar o fim do dia para seguir as passadas do Infante D. Henrique e gritar ao oceano que se prepare para enfrentar as nossas caravelas em busca de novos mundos. Podemos também apreciar a enseada da Mareta e o Cabo de São Vicente que, ali tão perto, rivalizam no protagonismo com o promontório.

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O que fascina neste local é sobretudo a imensidão e, mesmo desconhecendo a história, muito bem resumida no website do Promontório, é impossível ficar indiferente. Uns falam do seu misticismo, outros falam do contacto com a natureza, eu falaria de uma sensação estranha; talvez da sensação de estarmos numa zona de mudança, numa área em que um sem número de forças naturais terrestres confluem e às quais o nosso corpo e alma não ficam indiferentes. Se quiserem uma banda sonora, nada como entrar na "Câmara Sonora Activada pelo Mar - Voz do Mar" do arquitecto, pintor e escultor Pancho Guedes. Ao início parece-nos mais uma daquelas obras de arte contemporânea sem qualquer sentido, mas só entrando podemos apreciar a magia oferecida pelo autor.

 

Não poderemos esquecer as aves, ou não fosse esta uma zona de rota migratória, sobretudo das aves que viajam de e para o continente africano. Como fanático das aves de rapina, não poderia deixar de mencionar o Grifo (Gyps fulvus), o Milhafre-preto (Milvus migrans), a Águia-cobreira (Circaetus gallicus) e o suspeito do costume: o Falcão-peregrino (Falco peregrinus). A par da área circundante ao Cabo de São Vicente é comum ver estes habitantes a dominar os céus. Sobre isso falei também aqui aquando de um artigo dedicado ao Cabo de São Vicente e à Praia e Fortaleza do Beliche. Ao longo do Promontório existe também informação com as diferentes espécies de aves e de flora que se pode observar.

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Em relação à fortaleza propriamente dita, é uma construção abaluartada com um portal neoclássico. Aí, é também possível visitar os vestígios da "Vila do Infante" (Infante D. Henrique, que faleceria aqui em 1460) anteriores às muralhas setecentistas. Uma nota também para a torre-cisterna, a "rosa-dos-ventos", uma muralha corta-ventos, os restos das antigas habitações e quartéis e a antiga paróquia de Nossa Senhora da Graça. Uma nota particular para as várias intervenções mal sucedidas ou que nem chegaram a sair do papel que percorreram todo o século XX e que actualmente se tentam colmatar com novas intervenções que garantam a autenticidade do espaço.

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A já mencionada "rosa-dos-ventos", é uma das grandes atracções da fortaleza, mas também aquela pela qual muitos passam ao lado. De facto, ainda ninguém conseguiu provar verdadeiramente a sua função, há quem aponte para um "relógio solar" e até para uma construção com carácter esotérico. Ao contrário do que se pensou, durante muitos anos, este espaço não existiria na época do Infante D. Henrique, aliás, mesmo a existência de uma Escola (a "Escola de Sagres") é algo que tem vindo a ser afastado. Já Ayres de Sá afastava essa hipótese dizendo que, a existir, um empreendimento de tal envergadura não poderia ter passado ao lado dos historiadores e cronistas da época.

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Com história ou sem história, com mistérios ou sem eles, de facto estamos perante um lugar único, onde diferentes emoções nos afloram e de onde, com toda a certeza, poderemos sair com a ideia de que estivemos num pequeno canto do mundo; onde realidade humana e natural convivem de braço dado com uma aura indecifrável mas contagiante. Quem sabe, sejamos intrusos no encontro do calor do Levante com a frieza do Oceano.

IMG_3499.jpgAlgumas notas:

 

  1. Como continuamos no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não deixem de consultar e levar convosco o Código de Conduta e Boas Práticas.
  2. Sugestões bibliográficas sobre a temática:
  • Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.
  • Albuquerque, Luís de (1971), Escola de Sagres, Dicionário de História de Portugal. Dir. de Joel Serrão, Vol. III, Lisboa, Iniciativas Editoriais.
  • Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora. 
  • Guedes, Livio da Costa (1988), Aspectos do reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descrição de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar.
  • Magalhães, Natércia (2008), Algarve - Castelos, Cercas e Fortalezas, Faro, Letras Várias.

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O Jovem Que Não Quer Largar as Saias da Mãe.

por Robinson Kanes, em 07.09.17

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Fonte do Gráfico: Cálculos da OCDE baseados em EU-SILC, HILDA (Australia), SLID (Canada), CASEN (Chile), HLFS (Nova Zelândia) e CPS (EUA). Dados publicados em "Society at a Glance" 2016, (figura 3.10).

 

Que os jovens portugueses, como bons latinos da Europa, gostam de viver em casa dos pais até mais tarde é um facto. Todavia, segundo os dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal é dos países onde a taxa é assustadoramente maior, ou seja, 75% nos jovens entre os 15 e os 29 anos. Não será de estranhar, sobretudo num país onde são poucos aqueles que arriscam ir à luta sem muletas.

 

Não me cabe a mim analisar os motivos que podem ser de vária ordem (abordarei apenas superficialmente mais para o fim), no entanto, devemos pensar que estes números não trazem uma boa mensagem, sobretudo se aos mesmos nos fosse possível adicionar aqueles "jovens" que vivem sozinhos ou numa relação (casamento e existência de filhos incluídos) com a ajuda dos pais.

 

Portugal, nestes números, só é ultrapassado pela Itália (tradicional país onde os filhos "morrem" em casa dos pais e com números a rondarem os 81%) e muito ligeiramente pela Eslovénia, Grécia e Eslováquia, todos com taxas na ordem dos 75%. Se tivermos em conta que a média da OCDE é de 59%, estamos realmente a viver demasiado tempo em casa dos nossos pais. Uma nota para o Canadá e países nórdicos que apresentam taxas entre os 38 e os 31%.

 

Um destes dias alguém me dizia acerca dos indivíduos entre os 20 e os 40 (não vou utilizar rótulos geracionais): "estas gerações se não tivessem tido os pais a usufruir dos anos de bonança ou a trabalhar no duro para os sustentarem já nem existiam". Aliás, acrescentou mesmo que a faixa dos 40-45 não andava muito longe dessa realidade também. Eu dou alguma razão e também acrescento um efeito de acesso a coisas que outrora não existiam e que hoje são "obrigatórias". Como exemplo, recordo-me do meu pai e os mais velhos me dizerem que sem esforço nada se consegue. Se utilizar esse discurso hoje sou apedrejado...

 

Será que aquilo que leva os jovens a ficar em casa até tão tarde é somente por incapacidade total para terem uma vida independente? Será por preguiça? Será por razões económicas? Neste último não me abstenho de incluir que a razão económica possa revestir a ambição de atingir um patamar de bem-estar superior à sua realidade. É um tema interessante, sobretudo porque alguém me dizia também, acerca de alguns indivíduos com responsabilidades profissionais sobre outros, que "quem não consegue viver sem os pais ou a equilibrar a vida sem bengalas nunca estará preparado para conduzir seja o que for de forma autónoma".

 

São questões às quais cabe a cada um de nós reflectir e responder... A minha declaração de interesse é de que não permito qualquer ajuda da minha mãe (as "discussões" são hábito neste campo), até porque esta foi a responsável, com o meu pai e com a minha irmã, pelo meu sustento durante a minha infância. Além disso, tenho-lhe uma divída enorme que foi o apoio que me deu durante o meu primeiro curso. Se às vezes custa? Custa! Mas é o preço a pagar por dizer que sou independente (sem pontas soltas). Se às vezes custa? Já dizia um conhecido banqueiro: "Ai aguenta, aguenta"...

 

 

 

 

 

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O "Lapa" do Posto de Combustível...

por Robinson Kanes, em 06.09.17

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 Fonte da Imagem: http://www.movies.ie/wp-content/uploads/2017/03/scarface.jpg

 

Lapa

Grande pedra ou laje que, ressaindo de um rochedo, forma debaixo de si um abrigo

Gruta ou galeria originada por erosão; furna

Molusco gastrópode, de concha univalve, pertencente à família dos PAtelídeos, utilizado na alimentação, que aparece com muita frequência preso aos rochedos do litoral, e que, quando grande, é denominado laparão

Pessoa importuna; maçador

Bofetada

lapa in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-09-05 18:51:37]. Disponível na Internet:

 

Sempre preferi lapa a emplastro. Além de ser mais saborosa, adoro arroz de lapas. A lapa é um petisco dos deuses e a figura de emplastro lembra-me sempre indivíduos com dores ou uma figura desdentada e com uma grande pancada.

 

Mas a verdade é que andam por aí umas lapas - ou mesmo laparões- bem estranhas e, por sinal, bem espertas.

 

Começa esta história quando, ao mudar de direcção para um posto de combustível, quase atropelo um indivíduo que se arrastava na entrada de acesso ao mesmo. Não havia passadeira e o mesmo estava escondido por arbustos. Confesso que levava alguma velocidade, o suficiente para o atropelar e lhe causar danos. Sim, basta ir a 40 ou até menos para o fazer.

 

Abro a porta para abastecer... Mas eis que aquele indivíduo de meia-idade, de aspecto algo descuidado e com um caminhar cómico à Cantinflas ou de quem acabou de sair de uma festa bem regada, passa junto a mim e, muito baixinho, solta um “deves estar cheeeeeiiiinho de pressa”.

 

Fiquei com o “cheeeeeiiinho” para mim e continuei a abastecer. Não vendo reacção, aquela personagem digna de programas de fim-de-semana à tarde vira-se para trás e solta mais um “deves estar cheeeeeiiiinho de pressa”. Ignorei, estava num bom dia, aliás, era bem cedo e sou um indivíduo calmo demais para começar o dia a distribuir chapadas. Além disso não sou violento e não procuro agredir indivíduos quando existem câmeras por todo o lado.

 

Não contente com as provocações e, tendo percebido que a miúda do Robinson estava na fila para o pagamento (viu-a abandonar o veículo), colocou-se atrás da mesma, já dentro da área de pagamento e eis que destila mais um pouco do seu veneno com um:

-está cheeeeeeeiiiinho de pressa o seu amiguinho.

 

"Amiguinho", "cheeeeeeeiiiiinho" e um "empurrãoziiiiiiiinho" para a valeta? 

 

Mas, quem conhece a miúda do Robinson, sabe que pode estar a decorrer um bombardeamento que ela simplesmente caminha tranquilamente entre as bombas até encontrar um abrigo chamando para o mesmo todos os que fogem na direcção errada. Perdeu-se um colosso na diplomacia...

 

Eis que senão quando, vem mais uma provocação:

 

- Anda com muita pressa, deve ir a algum lado o engravatadinho, tá cheeeeeiiiinho de pressa.

 

Por acaso nesse dia estava de gravata, e se me tivesse dito isso a mim tinha cometido ali um crime! Não por isso, mas a expressão “engravatadinho”! Lembra-me sempre aquele indivíduo cinzento, desagradado com a vida e sempre apoquentado com o crédito do carro mas que se liberta depois de umas cervejas assim que sai do trabalho.

 

Segundo a miúda do Robinson, o senhor, que por acaso até era parecido com o Chalana, ficou por aí. Embora eu não acredite...

 

Em suma, a história ficaria por aqui e não teria qualquer interesse, se é que tem, se alguém não nos tivesse dito que naquela zona era comum existirem indivíduos que viviam de subsídios ou de sabe-se lá do quê (este é um piscar de olhos ao André Ventura), a provocarem subtilmente outros indivíduos com o intuito de fazer os mesmos "perder a cabeça" e consequentemente partirem para a agressão. Tendo lugar a agressão são chamadas as autoridades que levantam o auto que irá ter continuidade até acabar em tribunal com um pedido de indemnização por parte dos “lesados”. Por norma, escolhem sempre locais com muita gente e com videovigilância.

 

E é assim que um indivíduo calmo e tranquilo fica metido numa grande alhada e perante a luta interior pela qual também o Condenado de Vitor Hugo teve de passar. Eu sei que não é fácil mas, por vezes, ignorar é o melhor remédio...

 

Scarface? Al Pacino? Sempre!

 

Actualização a 09 de Setembro de 2017 - 19h:20m 

 

Muitos Parabéns para:

 

Ana Walgode - Vice-Campeã Mundial em Solo Dance Sénior

Beatriz Sousa - Vice-Campeã Mundial de "Solo Dance Júnior" - Patinagem

José Cruz - Vice-Campeão Mundial de "Solo Dance Dance Júnior" - Patinagem - era o anterior campeão.

Pedro Algode - Medalha de Bronze em Patinagem Artística

Ricardo Pinto - Campeão Mundial de Patinagem Artística

 

Muitos parabéns para a Selecção Nacional de Hóquei em Patins que continua no Mundial da Modalidade, lutando contra o abandono a que este desporto, onde éramos os melhores, tem sido deixado.

 

Parabéns ao Rui Costa e ao Nélson Oliveira que continuam a dar o seu melhor na "Vuelta".

 

Porque desporto não é só futebol... E porque não... Parabéns a todos aqueles que hoje fizeram algo por alguém...

 

 

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Portugal: O País da Fartura!

por Robinson Kanes, em 05.09.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

A  Terra, disse ele, tem uma pele, e esta pele tem doenças. Uma destas doenças, por exemplo, chama-se homem.

Friedrich Nietzsche, in "Assim Falava Zaratustra"  

 

Este país é um local mágico. O meu pai costumava dizer que não havia melhor país que este, pois bastava percorrer as estradas e as ruas para se encontrar mobiliário para a casa - são os colchões, as cadeiras, os móveis de sala, as camas e um sem número de coisas atiradas para a berma ou largadas no meio da floresta. Quem quiser um animal de estimação facilmente encontra um, sobretudo nos meses de verão.

 

É um país de fartura, onde estudos encomendados dizem que andamos todos muito entusiasmados e confiantes com a nossa situação económica, mas onde a dívida não pára de subir, esperemos que a situação se inverta. No meio de tudo isto, sempre é bom para dinamizar a economia, embora ainda não tenhamos percebido que os anos dourados não voltam, ou voltam, mas daqui a meia dúzia de anos voltam também os anos negros... E cada crise económica, tende a ser pior que a outra... Mas por aqui a comida vai parar ao lixo ou não fôssemos um país onde a alimentação até é barata (infelizmente).

 

Mas a fartura é tanta que até despejamos comida em condições de consumo para o lixo. Digam lá que não somos um país rico? Depois de ter fotografado aquilo que vos é apresentado no topo da página ainda remexi o lixo e encontrei pacotes de leite dentro da data de validade e iogurtes em iguais condições. Somos gente fina que não se limita a colocar o lixo no local próprio (quando coloca) mas ainda dá um bónus às gaivotas e às ratazanas que deambulam pelos aterros. Um dos bolos, que é visível, estava totalmente selado.

 

Um destes dias teremos o Banco Alimentar Contra a Fome a fazer recolhas junto aos caixotes do lixo com os senhores mais adultos em amena cavaqueira enquanto as crianças à civil ou vestidas com a farda dos escoteiros entregam sacos e pedem donativos. Chama-se a isto ser solidário.

 

P.S: o bolo acabou comido pelos corvos, cortesia do Robinson...

 

 

 

 

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 Fonte das Imagens: Própria.

 

Não é novo que um mês em Istambul me deixou agarrado àquela cidade e ao próprio país. Também por aqui já abordei um sentir da cidade de todas as culturas...

 

Se podemos falar de sugestões, nada como uma leitura por Orhan Pamuk, sobretudo do seu penúltimo livro "Uma Estranheza em Mim". Pamuk é o cronista de Istambul na primeira pessoa e foi também graças a escritor que me foi possível compreender a dinâmica desta cidade, fora dos livros de história e sociologia, bem para lá de Sultanahamet ou Galata... O que parece um livro sem fim e que lentamente vai contar a história do vendedor de boza (Mevlut Karatas) sem grande entusiasmo, transporta-nos para as ruas dos "novos" bairros pobres que contribuiram para que entre 1969 e anos mais recentes a cidade aumentasse de 3 para 13 milhões de habitantes. Mas a história começa numa aldeia Anatólia Central e é aí que vamos sendo levados pontualmente numa espécie de contraste com a própria Istambul, ou entre a Turquia profunda e a Turquia mais cosmopolita.

 

Não é de todo um livro inacessível, aliás, é uma lição de história, cultura, antropologia, urbanismo e até felicidade... Com especial interesse nessa última área, encontrei aí um bom exemplo de estudo, embora seja pouco ou nada mencionado nas criticas que vi à obra, por norma sempre pesadas e que tendem a afastar leitores mais cépticos - aliás, em música, literatura, pintura e outras artes nunca entendi esta forma europeia de complexificar tanto as coisas que a dita democratização das artes parece uma miragem. Não se assustem, assim que começarem a ler não vão querer parar e o discurso é simples, é mais fácil compreender o livro que as análises ao mesmo. 

 

IMG_20170904_091802.jpgPode também parecer "tolo", mas a par das peripécias que envolvem o casamento de Mevlut, não consegui deixar de pensar na prática do "casamento e fuga" também alvo da etnologia no contexto da comunidade piscatória da Nazaré. É Istambul no seu dia-a-dia, da pressão do Estado, das máfias "bondosas" que acabam por comandar os submundos e os destinos de muitos, é a felicidade com pouco, mas com fortes alicerces na família (primos), nos amigos (Ferhat) e naqueles que encontramos dia-a-dia - interessante a relação que Mevlut acabará por ter com o " Santo Guia". É um relato realista, sem qualquer fantasia mas também sem qualquer necessidade de adensar a tristeza. Discordo quando a obra é tida como uma "novela trágica"... Só de um sofá numa confortável cidade europeia podemos tecer tal afirmação...

 

 É a realidade aqui tão bem escrita e que me transporta para aquele mês em que vi muito do que nestas páginas é apresentado. Como eu, chego à conclusão que no misto de tristeza e encanto com Istambul, também Mevlut é um apaixonado pela mesma.

 

 

É envolvente como, com o livro a meio, e ainda antes de fecharmos os olhos, nos deitamos na nossa cama e temos a sensação de ouvir lá fora a personagem de Mevlut a apregoar "Boooooooo-zaaaaaaaa". Experimentem e deixem a noite alta chegar e ouçam o som da vossa cidade, vila ou aldeia...

 

Finalmente, uma nota musical para me lembrar esta cidade: os "Light in Babylon", uma banda turca de Istambul com várias influências, ou não fosse Istambul uma mescla de povos e culturas. Não sou confesso adepto da voz da vocalista, contudo, não deixa de ser um banda que me atrai pelos temas explorados, pelas letras e sobretudo pelos ritmos árabes, turcos e judaicos. Uma das minhas composições preferidas tem o nome da cidade: "Istambul".

 

 

É uma das companhias para alguns crespúsculos e sobretudo para recordar terras distantes ou, como Mevlut, percorrer os diferentes bairros de Istambul. A encontrar o vendedor de boza - coisa rara - e a descobrir naqueles olhos as inquietações do seu dia-a-dia que só era, apesar do cansaço e árduo trabalho, enriquecido com a venda desta iguaria. Talvez as ruas de Istambul sejam perfeitas para isso, talvez sejam um misto de inquietação e paz que nos transporta para outra dimensão enquanto um simit nos alimenta o estômago e a alma.

 

Deixo mais uma das músicas que aprecio desta banda, 

  

 

 Boa Semana...

 

Boza: bebida tradicional asiática à base de trigo fermentado, de consistência grossa, cor amarelo-torrado e de baixa graduação.

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 Fonte da Imagem: AP Photo/Uttam Saikia

 

 

A fatalidade faz-nos invisíveis.

Gabriel García Márquez, in "Crónica de uma Morte Anunciada"

 

Enquanto o foco da atenção mundial se concentra nas cheias de Houston (nada contra) e nos 20 anos da morte de uma Princesa, parece que existe algo que anda a passar ao lado da actualidade. De facto, é do conhecimento público que só nos lembramos da Ásia quando falamos de viagens ou quando queremos imitar as pseudo-celebridades em destinos exóticos, todavia, rapidamente nos esquecemos do que é viver longe de um resort 365 dias por ano nessas regiões. Há períodos próprios para sermos apaixonadamente étnicos.

 

As monções sazonais já provocaram cerca de 1200 mortos e estão a afectar cerca de 50 milhões de pessoas na Índia, Nepal Paquistão e Bangladesh. Mortes provocadas por deslizamentos de terras, picadas de cobra - é verdade, morre-se de picadas de cobra - desmoronamentos de edifícios e afogamentos são as principais causas. Na Índia, nem o Parque Natural Kaziranga escapou, contando-se até ao momento cerca de 250 animais mortos entre rinocerontes, veados e um tigre de bengala - a primeira foto fala por si!

 

Todavia, no nosso pequeno mundo, andamos preocupados com séries televisivas, com princesas defuntas e opiniões de humoristas com carácter vinculativo. "Menos mal" que dos Estados Unidos sempre nos cheguem notícias do Texas, mas até algumas delas servem para bater em Donald Trump e na Primeira-Dama, ou até para nos assustarem com o preço da gasolina. O Texas pode desaparecer do mapa, a gasolina é que não pode aumentar. Alguém ontem falava do "jornalixo", não andará longe, pelo menos em muitas redacções... 

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Fonte da Imagem: AP Photo/Manish Paudel

 

Pior que as mais recentes actualizações, serão também aquelas que nunca saberemos pelos media que actualizam cada passe de um defesa da selecção nacional, mas não actualizarão o número de vítimas quando as águas descerem e as lamas forem removidas... A realidade, é que a época das monções acontece todos os anos... E todos os anos morrem milhares de pessoas naquela região, mas todos os anos são mais importantes a "época de transferências" e as contratações do Real Cascalheiro de Frielas ou do Solteiros e Casados de Muge do que um sem número de seres-humanos, fauna e flora... Mas também não será de admirar, no que depender dos cidadãos, uma tragédia bem "menor" que matou mais de seis dezenas de pessoas e feriu ainda mais de duas centenas vai passar impune...

 

A globalização pode ser uma realidade, mas existem países cujas cabeças dos cidadãos, instituições e media insistem no provincianismo bacoco que nem Verney e os seus pares conseguiram vencer. Antes de falarmos de isolacionismo na Coreia do Norte, seria prudente pensarmos em nós...

 

Finalmente, confesso que, depois de pensar que após a primeira foto já nada me espantaria, a segunda imagem fez-me engolir em seco ao ver o sorriso destes homens e destes jovens - quando por cá choramos simplesmente porque não encontramos aquele par de sapatos que tanto queremos, ou porque amanhã não estão 35º mas estão 30º, ou simplesmente porque a isso chamamos stress e entramos em depressão porque ainda não fizemos as malas para a próxima viagem e caos maior, até estamos de férias. Faz-me questionar onde estará a pobreza, se em Mumbai ou se em Lisboa, Porto ou outra qualquer cidade portuguesa.

 

Hoje esperava publicar um texto e sugestões literárias e musicais (ficará para segunda-feira), mas efectivamente não posso ficar indiferente a tantas palas (voluntárias?) nos olhos...

 

Bom fim-de-semana...

 

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Fonte das Imagens: Própria. 

 

Desde a passagem pela Cordoama que esta temática andava adormecida, pelo que, nada como 15km a caminhar ou a pedalar até ao Cabo de São Vicente (desde a Cordoama), sem esquecer a praia da Ponta Ruiva. Também é possível seguir por estrada, via Vila do Bispo (EM1265 e EN268).

 

O Cabo de São Vicente, além de uma viagem ao nosso passado de navegadores e conquistadores, é também o local onde podemos apreciar um dos melhores crepúsculos da Europa ou despedirmo-nos do farol guardião em direcção ao atlântico profundo. Em tempos, no século IV, foi também um local de peregrinação dos cristãos que visitavam aqui o túmulo de São Vicente (até ser destruído pelos muçulmanos no século XII), daí o nome Cabo de São Vicente. Aliás, S. Vicente e a sua lenda terão grande impacte também na história de Lisboa e justificam o porquê dos Corvos no brasão da cidade, mas isso será outra matéria.

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Convido a que nos abriguemos na fortaleza, não a original mandada erguer por D. João III e terminada por D. Sebastião, mas sim naquela de planta poligonal que foi erguida por D. Filipe III de Espanha, após a anterior ter sido arrasada pelo célebre Francis Drake, um dos mais famosos corsários ingleses que espalhou o terror também no Algarve. Com poucos turistas ao fim do dia, é algo único, sobretudo para aqueles que já trazem o cansaço e o encanto de um passeio pela Costa Vicentina ou pelo Barlavento Algarvio.

 

Uma das atracções deste local, além do sem número de visitantes que aqui acorre em épocas mais turísticas, é sem dúvida a presença de várias aves. Destaco algumas, nomeadamente a Cagarra (calonectris diomedea), o Ganso-Patola (Morus Bassanus) que infelizmente ainda não consegui apreciar,  e a minha paixão, nomeadamente algumas aves de rapina como o Bútio-Vespeiro (pernis apivorus), a Águia-Calçada (aquila pennata), a Águia Cobreira (circaetus gallicus) e os Grifos (gyps fulvus). Devido a número de pessoas que por ali deambulam, nem sempre é fácil observar estes reis dos céus pelo que é necessária alguma cautela a quem ousar procurar locais mais recônditos e potencialmente mais perigosos.

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Mas não é só no Cabo de São Vicente que podemos ter um óptimo final de tarde. Nada como continuar a caminhar e seguir em direcção à Praia do Beliche (ou Belixe) e apreciar daí também o espectáculo crepuscular e com os pés na água, na areia ou então abrigados na sua gruta que atrai imensos visitantes. Em época baixa, ou já com a noite a aproximar-se, é um espectáculo singular! Aproveitem com conta peso e medida e cedam à tentação da massificação... O segredo deste pôr do sol está na paz que se sente e no sentimento de isolamento.

 

Do Cabo de São Vicente a esta praia são somente 3,5km a caminhar, praticamente o mesmo que por estrada, pelo que poderão fazer uma pausa a meio e recuperar forças na Fortaleza do Beliche (ou Belixe) e olhar o promontório que já se começa a perder de braço dado com o oceano. Esta fortaleza, de origem ainda desconhecida, tem um percurso semelhante à Fortaleza de São Vicente, ou seja, também foi atacada por Francis Drake e posteriormente reconstruída por Filipe III de Espanha. Para quem aprecia arquitectura militar de defesa de costa vai apreciar este local e tentar imaginar as "batarias" a disparar rajadas de projectéis acompanhadas pelo fogo da Fortaleza de São Vicente contra as frotas de piratas e corsários. Em dias de sol parece impossível que em águas daquelas, tão duros combates se tenham travado, um pouco à semelhança do que sentimos em Barbate, Cádiz.  Neste monumento existe também uma pequena capela, a Capela de Santa Catarina, embora seja dedicada a Santo António.

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E chegados aqui, sigamos então para a praia, estendamos a toalha, tiremos uns refrescos e umas sandes da mochila e esperemos que o sol se despeça e o cheiro do mar nos traga uma das melhores experiências do mundo... E tudo isto, todo este glamour, a um preço fantástico de zero euros. E sendo que o mesmo é grátis, colaborem reduzindo a vossa pegada ecológica ao máximo.

 

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 Algumas notas:

 

 

  • Sugestões bibliográficas sobre a temática, porque aqui citamos as fontes:

Coutinho, Valdemar (1997), Castelos, fortalezas e torres da região do Algarve, Faro, Algarve em Foco Editora.

Almeida, João de (1948), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses Volume 3, Lisboa, Edição de Autor.

 

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