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Um Lanche com o Zagal no Generalife.

por Robinson Kanes, em 27.03.17

 

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 Fonte das Imagens: Própria

 

A tarde caminha para o fim e tanto eu como o Zagal já nos encontramos cansandos, sobretudo o segundo - o peso da idade e as preocupações com o reino proporcionam tamanho estado de cansaço físico e mental.

 

Saímos da área do Pátio dos Leões passando pelos banhos e por salas que anos mais tarde virão a ser ocupadas pelos reis católicos – isso não disse àquele soberano – e pela sua corte.

IMG_6429.JPGChegamos a uma área com vistas fantástica para o Albaicín e para o Sacromonte. Escusado será dizer que por muito que estejamos impressionados, o Alhambra oferece-nos sempre mais uma emoção e desta feita dou comigo na área do Palácio do Partal, ou simplesmente Partal, como é conhecido. Um conjunto de jardins projecta-se diante deste pequeno palácio, transportando-nos, mais uma vez, para um cenário do médio oriente, para um cenário difícil de igualar na Europa! Um pórtico com cinco arcos acolhe as fragrâncias que chegam dos majestosos jardins e é ultimado pela Torre de Las Damas. Aqui está a essência do Alhambra, pois atribui-se a sua construção a Muhammad III, ou seja, o mais antigo palácio do complexo. Sento-me junto ao enorme tanque que antecede a entrada pelo pórtico e lavo o rosto, à boa maneira árabe.

 

O Zagal, orgulhoso do seu reino e da sua cidade, convida-me para me aproximar da varanda e aí ouvir o fervilhar do Albaicín, escutar pregões, chamadas para orações e o vai e vem de mercadores e clientes que ecoa por aquelas ruas e se estende até ao Sacromonte. Quem diria que o Partal só recentemente (há cerca de um século) foi considerado como parte do complexo... aliás, o tecto em madeira da Torre de Las Damas é um dos ex-libris do Museum für Islamische Kunst del Staatliche Museen Preussischer Kulturbesitz em Berlim.

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Na varanda deste palácio sou convidado para um lanche no Generalife. Aceitei de imediato... até porque é de mau tom recusar estas ofertas, eu que o diga desde que coloquei os meus pés pela primeira vez num país muçulmano. Passamos pelo que é agora a Capela do Partal, - que de capela tem pouco ou nada – e percebo que sou levado pelos majestosos pátios e jardins na direcção do Generalife. Atribui-se este nome ao termo “jardin”. Contudo, existe quem lhe dê outras origens como “Huerta del Zambrero”, “el más elevado delos jardines”, “casa de artifício y recreo” e muitos outros, sendo o mais consensual “Jardin o Jardines del Alarife”, ou seja o Jardim dos Arquitectos ou Jardim dos Construtores.

 

Tão perto, mas tão longe do complexo principal, este jardim era o local perfeito para o descanso da família real muçulmana, com uma vegetação singular. Não faltam as tradicionais árvores de fruto - ainda hoje é possível roubar um dióspiro - e com enormes pátios. Estamos numa Villa que permite esquecer todas as dificuldades da administração de um reino e consequentemente repousar, nem que por breves horas, no paraíso.

 

Observo o caminho dos ciprestes e o caminho das nogueiras, ambos ladeados pelas árvores que lhe dão o nome, até entrar num edifício com um enorme tanque central onde, num dos cantos, se encontra uma mesa com tudo o que um rei merece: sumos naturais (laranja sempre), infusões várias, doces e compotas de todas as origens, pão e alguma carne, sem esquecer uma pastelaria singular, ao nível das melhores de Istambul e Ankara!

 

Sentamo-nos, o Zagal mostra um sorriso e diz-me para transmitir um recado a Castela, nomeadamente que o reino não cairá nas mãos destes e só após a morte do último soldado isso poderá eventualmente acontecer. Convida-me para visitar o mundo muçulmano: conhecer Orão, ir ao Egipto, deambular por Marrocos, IMG_6568.JPGentrar no médio-oriente, passar em Samarra e por lá me deixar contagiar vagueado por diferentes países e reinos até encontrar o descanso em Samarcanda! Prometo-lhe que tudo isso farei, como também lhe prometo o respeito pela sua cultura e pela neutralidade na batalha que se desenrola. Também ao Zagal, sobretudo ao seu povo, agradeço a herança que me deixou: o sangue árabe que também em mim corre e que no fundo se mistura também com o sangue judeu, romano, fenício e IMG_6566.JPGoutros tantos que me percorrem as entranhas.

 

Após o lanche despedi-me e abandonei o Generalife pelo Pátio da Sultana, um jardim mágico com fontes que outrora alimentaram os banhos de todos aqueles que tiveram a honra de habitar dentro do complexo.

 

Saio pela maior e mais impressionante porta do complexo, a Porta da Justiça (existem mais quatro, a Porta dos Sete Pisos, a Porta do Arrabal, a Porta d’Armas e a Porta do Vinho) desejando que essa mesma Justiça presida aos combates que aí virão.

 

Levo comigo também a mágoa, de conhecer o destino do Zagal e saber que não mais o verei.

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Para os recém-chegados a esta aventura:

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/a-conversa-com-o-zagal-na-sala-dos-25527

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/ainda-com-o-zagal-o-palacio-e-o-26537

 

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Fim de Semana de um Estranho no Paraíso...

por Robinson Kanes, em 24.03.17

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Tinha vontade de falar de Londres, sobretudo porque tinha “pessoas” no Parlamento, mas... será que vale mesmo a pena? Não. Até porque hoje já todos regressaram aos trabalhos e só o “sensacionalismo” de uns ainda está focado na temática. E além disso, a história, neste caso, é de quem a vive... falem da Síria, de África, da Ásia, ou até de certas coisas que envergonhariam o próprio Satanás. Estou religioso, de facto...

 

Mas é fim de semana e já não falava aqui um pouco das limpezas e do estar agarrado ao ferro e à tábua. Também vai ter de ser...

 

Entretanto descobri que perder em média 45 a 60 minutos a preparar uma carta de apresentação bem bonita e um CV adequado à posição não traz resultados. Diz-me o marketing que pelo menos em cada 10, um cai! E em cada 500 ou 1000 não cair nenhum? Talvez porque o produto nem seja visto ou o “marketeer” é mau. Todavia, no que toca a este aspecto quero continuar firme como o Ethan Hawley de Steinbeck.

 

Para o fim de semana sugiro que vejam um filme bem adequado à semana que passou e aos tempos actuais... não, não é o Exterminador Implacável (embora pudesse ser, se nos lembrarmos da inteligência artificial). É o “Homem Elefante” de David Lynch, revi esta semana... se há um filme brilhante deste realizador é este! Uma história de dignidade humana que não deixa ninguém indiferente... à diferença. Além do excelente realizador (nem sempre...) ajoelhem-se perante Anthony Hopkins, John Gielgud, John Hurt e Anne Bancroft! O filme é de 1980 mas a preto e branco para dar mais enfâse ao cenário Vitoriano e à história. Deveria ser uma visualização obrigatória...

 

Se me é permitido, uma música... uma música que traz Borodin para o palco, pois a melodia é do mesmo, foi herdada deste compositor para posteriormente ser interpretada no musical “Kismet”. Confesso-vos que cantada pelo Tony (não é o Carreira) consegue projectar um halo de sensações múltiplas, sobretudo para aqueles que se sentem... estranhos no paraíso (talvez como John Merrick, o Homem Elefante, quiçá...). Tony Bennett pode ser música de velho, mas é dos meus preferidos, além disso foi o único que conseguiu fazer a Lady Gaga cantar alguma coisa com nexo e aproveitar a boa voz que a mesma tem.

 

 

E hoje há jackpot! E uma “passeata”? Vamos ao Ribatejo? Os “piquininos” já nasceram...

 

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Bom fim de semana...

 

O Homem Elefante (trailer... um trailer dos bons...)

 

Tony Bennett - "Stranger in Paradise" 

 

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Dijsselbloem ou Dissaborem?

por Robinson Kanes, em 23.03.17

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Gerrit van Honthorst, O Violinista Alegre (Museu Thyssen-Bornemisza)
Fonte da Imagem: Própria

 

Racismo: teoria sem quaisquer fundamentos científicos que defende a existência de uma hierarquia entre grupos humanos, definidos segundo carateres físicos e hereditários como a cor da pele, atribuindo aos grupos considerados superiores o direito de dominar ou mesmo suprimir outros considerados inferiores,

racismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:15:58]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/racismo

Xenofobia: antipatia ou aversão pelas pessoas ou coisas estrangeiras; preconceito ou atitude hostil contra o que é de outro país

xenofobia in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:16:47]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/xenofobia

Sexismo: discriminação de pessoas ou de grupos de pessoas de determinado sexo, feita com base em noções de superioridade de um sexo sobre o outro (geralmente do masculino sobre o feminino)

sexismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 20:28:56]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/sexismo

 

E o senhor Dijsselbloem, “dijsse” aquilo que ninguém queria ouvir...

 

Não é em Amesterdão que as prostitutas são colocadas em montras como carne no talho? Já estive no Red Light District e foi o que vi. Também estranho é o coro daqueles que achavam ser muito para a frente essa forma de actuação agora criticarem a mesma. Também não é na Holanda que se assistem a autênticas pielas que chegam a acabar com corpos a boiar no rio ou no mar? Isto para dizer que alguém tem de olhar para dentro de casa antes de atirar uma pedra à janela do vizinho... mas o vizinho também...

 

Nem vou para Espanha, nem para Itália (que na defesa dos países do sul nem mencionou Portugal), França (sim, também é um país do sul), Grécia, Malta ou Chipre. Vou ficar pelo nosso país.

 

Reparo que Primeiro-Ministro, Governo, Presidente da República, deputados e outros ficaram bastante ofendidos com as palavras do "Sr. Dissaborem". O "Dissaborem" só teria feito sentido se alguém dissesse que os portugueses são um povo que gosta de brinquedos caros (citando um antigo embaixador Americano em Lisboa) e de luvas.

 

Censuro a atitude, mas acusar ao mais alto nível diplomático uma opinião vulgar (infeliz ou não) e catalogar a mesma com conceitos de racismo, xenofobia e sexismo não é ir longe demais?

 

Hoje em dia não posso dizer que gosto mais de "Paella" do que de "Cozido à Portuguesa" que já estou a ser xenófobo! Também não posso dizer que não gosto de porco preto porque estou a ser racista! Não posso chamar preguiçoso a um nórdico, porque este vai partir do principio que estou a dizer que o mesmo é magrebino. E em Portugal? Não existem prostitutas? Mas onde é que está uma ofensa às mulheres? Quando muito é aos homens!

 

O circo, contudo, permite a alguns países desviarem as atenções de temas, esses sim que mereceriam uma palavra, pelo que… pergunto?

 

Que nome se dá a um indivíduo que diz que o um país tem milhares e milhares de casos de crime de colarinho branco provados e só umas poucas dúzias de penas aplicadas?

Que nome se dá a um Governo que sustenta Secretários de Estado que se deixaram comprar a troco de bilhetes de futebol e continuam no Governo em processo sensíveis com as mesmas organizações que pagaram os bilhetes e as viagens?

Que nome se dá a uma política totalmente corrompida e ao serviço de aparelhos partidários ao invés dos interesses da res publica?

Que nome se dá a um Primeiro-Ministro que acusa um Ministro das Finanças de Racismo e Xenofobia, mas é oriundo de um país (à época sob governação portuguesa) onde o sistema de castas vigora? Aliás, o mesmo esteve lá recentemente e não o vi chocado.

Que nome se dá a um Presidente da República que dá um puxão de orelhas a um ministro porque este não deu o dinheiro dos contribuintes para que os amigos continuassem a ter um teatro que não era rentável?

Que nome se dá a um país que, ao invés de limpar a casa dentro de portas, insiste em mostrar-se lá fora com uma propaganda que desaponta muitos empresários estrangeiros quando estes se debatem com a realidade intra-muros?

Que nome se dá a comissões de inquérito a bancos e off-shores que não trazem resultados e perpetuam a impunidade?

Que nome se dá a um Primeiro Ministro que alegadamente tentou obstruir a justiça num caso de pedofilia?

 

Pedofilia: atração sexual patológica de um adulto por crianças

pedofilia in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2017. [consult. 2017-03-22 16:37:48]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/pedofilia

 

Foram comentários infelizes, mas não temos moral para punir alguém que deu um soco em outrem, com um pelotão de fuzilamento e… sobretudo, quando os vidros do nosso telhado estão a estalar. Os comentários a que tenho assistido mostram uma resposta de metralhadora a alguém que nos arremessa pedras. Quem são os piores?

 

E porque não pensar que, tendo em conta o meio onde o Sr. Dijsselbloem se move, que é a política, não é também daí que encontra uma base para os comentários?

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Da "Instamum" à "Depressedmum"...

por Robinson Kanes, em 22.03.17

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 Fonte da Imagem: http://www.shapefit.com/wp-content/uploads/2014/12/smartmag-featured-image-tammy-mom.jpg

 

Estar grávida está na moda, mas quem quiser ser trendy, além da gravidez tem ainda de contar com o facto de os gémeos serem a opção mais in.

 

Mas... vamos focar-nos nas senhoras, porque afinal também existem os pais.

 

Actualmente as mães são umas verdadeiras instamums (Instamães), ou pintemums (pintmães) ou até facemums (facemães). E o que é isto? Mães que são o último grito da gravidez e até do pós-parto, sobretudo nas redes sociais. A pressão social e mediática é tal, que o ideal é aparecer grávida mas com um look de quem passa os dias no ginásio. Uma grávida elegante, sorridente e de bem com a vida. Uma gravidez perfeita sem os percalços habituais é coisa do passado. Estar grávida é cool! Partilhá-lo nas redes sociais ainda é mais cool... desde que não se esteja gorda, flácida ou pouco atraente.

 

Onde é que isto começa? Nas “celebridades”, nas “bloggers” e naquelas amigas que ficam grávidas mas que têm aparência de monitora de aulas de fitness. Daqui às partilhas de corpos elegantes e “photoshopados” (photoshopados? Oh Robinson...) vai um passo, e daqui à pressão para se ser uma instamum vai outro passo, e daqui para chegar à depressão e desejar nunca vir a engravidar novamente vai outro.

 

Mas as coisas até começam bem... aquela “celebridade” com barriga lisa antes e depois do parto surge como a inspiração... o problema surge é quando passamos o nosso tempo a olhar a inspiração - que virtualmente continua inspiradora - e a nossa forma física continua deplorável, aos olhos da instamum. Aos olhos da instamum, porque aos olhos de um indivíduo normal é um físico... normal?

E há instamum que goste de se sentir gorda, sem poder partilhar as fotos da boa forma no facebook, quando a cunhada de cinco em cinco minutos mostra aquele corpo invejável e só pariu há uma semana?

 

A verdade é que existem casos em que a depressão é tal que as senhoras se esquecem do que é uma gravidez e do que é real e não é! Existem situações em que as depressões arrasam o casamento. Deixar que as redes sociais, as opiniões dos grupos de pseudo-amigos contagiem o bem-estar das mães é um passo atrás, inclusive no ser mãe e no ser mulher! Mesmo os pseudo-detentores de opinião não são "ninguém", quando muito... são um canal para ajudar ao nosso pensamento e, ter tempo para pensar, é fundamental. Caso contrário, entraremos na desculpa da falta de tempo, mas aí faço minhas as palavras de Steinbeck quando dizia que a ausência de tempo para pensar era o equivalente ao não ter vontade de pensar.

 

Sejam mães e não queiram ser estrelas, se eu pudesse escolher, era o que eu fazia... e provavelmente não seria o meu filho que faria de mim uma estrela. Deixem de passar horas a fazer scrolling (o típico sobe e desce com as páginas de internet) às outras mães no computador, no tablet ou smartphone e sejam mães!

 

E porque não escolher não querer engravidar? É um direito, e honestamente louvável, tendo em conta que existe gente a mais neste mundo! Digam que sou egoísta mas... analisem os números e veremos quem está a ser mais egoísta na equação.

 

A gravidez é uma escolha, é uma fase e uma das coisas mais normais no reino animal. Estar grávida é a coisa mais normal do mundo! Estar gorda por causa da gravidez, cheia de estrias, flácida, desesperada, cansada, irritada é a coisa mais normal do mundo! Comer doces e milhões de porcarias que nunca se comeriam antes é a coisa mais normal do mundo (se tivermos dinheiro para tal)! E não minhas senhoras, quem já teve filhos não é a única pessoa a saber tudo sobre crianças como também o vosso bebé quando nasce não é lindo. Não é... é feio, cor-de-rosa, a maioria das vezes, mas fica bem dizer “ai que bonito bebé sai ao pai”! Um dia ainda me terão de explicar como é que olham para um bebé com horas e dizem estas coisas! E não, ninguém é perfeito, só serão perfeitas se pagarem a alguém para espalhar que vocês são perfeitas.

 

Em conclusão, minhas senhoras se existir quem não goste das vossas estrias, das vossas peles, da vossa irritação, do vosso mau-humor, honestamente... fizeram um erro de cálculo na escolha do pai e daqueles que vos rodeiam.

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 Fonte das Imagens: Própria

 

Após tomarmos um chá na Sala dos Embaixadores, o Zagal convida-me para um passeio pelo complexo. Interessante ouvir este guerreiro que demonstra uma vontade inultrapassável de defender o reino a todo o custo, inclusive encontra-se disposto a matar o sobrinho Boabdil se tal for necessário.

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O Zagal conta-me a história de Boabdil, “El Chico” que à nascença trouxe marcada a queda do reino. Fala-me das indecisões e da aproximação ao reino de Castela a que também fui aludindo ao longo desta aventura. É alguém apaixonado pelo seu povo e isso nota-se pela forma como trata os guardas do palácio, com um respeito e nobreza tais que ficamos sem saber quem é o verdadeiro Governador do Reino.

 

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Saímos da Sala dos Embaixadores e caminhamos um pouco. O Zagal, perante a minha admiração e encanto com aquela infraestrutura, olha-me e esboça um sorriso – estranho vindo de tão nobre e duro guerreiro – penso que aprecia esse meu encantamento.

 

É lado-a-lado que entramos no Pátio dos Leões, o símbolo máximo do apogeu da Dinastia Nasrid a grande herança de Muhammad V, a conclusão e mescla de todos os estilos do Alhambra num local mágico. Este pátio, que fica ao centro do Palácio dos Leões, tem a sua linha de água que alimenta uma fonte mágica suportada por majestosos leões que a guardam dos mais ousados usurpadores.

 

Fico sem palavras e confesso ao Zagal que fiquei a entender o porquê deste lutar com toda a sua força na defesa de Granada.

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Abdicar de tamanho tesouro seria uma tremenda loucura.

 

As salas que ladeiam o pátio são algo que nos transporta para um outro mundo, que nos fazem sonhar e indagar se estaremos mesmo no planeta terra ou na Ásia.

 

Sou levado para a Sala dos Reis, o Zagal percebe que tem de me puxar pelo braço, tal o meu espanto, mas aí... espera-me outra grande surpresa. As pinturas, a planta longitudinal e a imaginação a permitir-me vislumbrar as recepções que ali teriam lugar, os turbantes, a mescla de vestidos e a habitual agitação e simpatia daquele povo. Contudo, sou alertado pelo Zagal... diz-me que nem tudo é tão belo, posto que, foi no Pátio dos Leões que muitos perderam a vida em disputas dinásticas e intrigas palacianas. Alerta-me, aliás, que estamos prestes a entrar numa das mais importantes salas do Palácio dos Leões: a Sala dos Abencerrajes. Conta-me o Zagal que foi aqui que ordenou a ida do irmão, Abén Hacen, para Salobreña e que, também foi aqui que teve grandes disputas com o sobrinho Boabdil.

 

O que o Zagal não me confessou, foi que ele e o irmão haviam sido os responsáveis pela morte da família dos Abencerrajes por serem uma família forte e poderosa do reino e também por serem uma ameaça à governação destes, sobretudo depois da revolta de Málaga em 1469. Todavia, esta é uma discussão que ainda hoje perdura, pois Irving, nos Contos de Alhambra, afirma que o assassinato foi ordenado por Abu Nasr Sad, conhecido como (Ciriza). Diz-se que, à época, o sangue dos mortos foi tanto que tingiu a transparente água do Pátio dos Leões de vermelho...

 

Noto a respiração do Zagal a acelerar e uma certa dureza no rosto, pelo que agora sou eu quem o guia para a Sala das Duas Irmãs.

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Aqui nos sentámos a contemplar o espaço, sobretudo a cúpula moçárabe que se desenvolve com base no conhecido Teorema de Pitágoras.

 

O silêncio passou a reinar, ambos ficamos perdidos nos nossos pensamentos, o Zagal a pensar no futuro do seu reino, ou talvez no triste episódio que não me relatou e eu... eu fiquei a tentar reconstruir esse acontecimento tendo como base a pintura de Marià Fortuny que se encontra no Museu Nacional de Arte da Catalunha e que não é nada mais nada menos que “La Matanza de los Abencerrajes”.

 

 

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

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O Taxista, a Ilda e o Cemitério dos Olivais.

por Robinson Kanes, em 20.03.17

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 Fonte da Imagem:http://news.maisturismo.pt/sites/default/files/styles/large/public/field/image/taxis_in_portugal2.jpg

 

Sexta-feira, 17 de Março... um tempo abafado, aquele que se encontra junto ao Coliseu de Roma antes de uma grande chuvada. Eu encontrava-me dentro do carro junto ao Cemitério dos Olivais, em Lisboa. Não é a mesma coisa mas ambos exalam histórias de morte.

 

Sentado dentro do carro a ultimar um documento no computador e eis que ao meu lado estaciona um táxi! Um Mercedes daqueles beges que muito circula pelas nossas cidades. Do lado do pendura uma senhora jovem. Uma senhora jovem que baixou a cabeça e desviou o olhar da minha pessoa, uma senhora jovem daquelas que não quer ser vista no local errado à hora errada. Do lado do motorista sai o estereótipo da classe: sujeito de grande perímetro abdominal, despenteado, com um certo ar de sabujo, calças de tecido castanho e uma camisa aos quadrados qual pescador da Nazaré. Os sapatos pretos, gastos e em bico fecham o leque da indumentária.

 

Dou por mim a observar aquela personagem a dirigir-se para umas árvores que existem junto ao muro e eis que me deparo com o indivíduo a baixar um pouco as calças e a começar a urinar... os primeiros a não gostarem da invasão de espaço foram os pombos que esvoaçaram de imediato, quiçá para cima de uma campa. Ainda ouvi um deles murmurar: “a nós matam-nos porque urinamos e defecamos em todo o lado!”. Também me custa a entender porque é que existem pessoas que compram calças com braguilha se depois não dispensam o ritual de desapertar o cinto e baixar as mesmas para urinar.

 

A distração de ver um indivíduo a urinar à minha frente atrasou a minha observação de que o mesmo se encontrava também  a urinar à frente da senhora que se encontrava no carro e... enquanto me interrogava acerca do cavalheirismo de tão perdigueira personagem, eis que ouço um berro do mesmo enquanto mantinha a mão no órgão: “ooooooh IIIIIIIIIIIIIIlda eh eh eh”.

 

“Oh Ilda eh eh eh!”, dá que pensar se chamava pela esposa, pela senhora que se encontrava no veículo ou então também seria um daqueles sujeitos que dá um nome ao pénis. Sempre me interroguei o que leva um homem a chamar nomes ao pénis, então quando estamos perante diminutivos... e não, não tentei fazer uma piada com a palavra diminutivo.

 

O urro que ecoou pelo estacionamento levou a que dois cães a ladrar se dirigissem àquela personagem... confesso que pensei: “ai agora à conta do cota é que eu vou partir o caco a rir” e desejei até que os cães atacassem aquela criatura, afinal... teatro sem alguma tragédia, não é teatro.

 

Todavia, talvez pelo cheiro da urina ou pelo “ai ai ai aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” que o indivíduo soltou, os cães lá travaram a marcha. De regresso ao carro (ainda a puxar as calças para cima), a tradicional e já considerada Património de Interesse Nacional... cuspidela para o chão seguida do não menos tradicional destravar do veículo antes de ligar a ignição. 

 

Fiquei a pensar... vivemos, somos enterrados e ainda corremos o risco de um indivíduo com ar de braco alemão urinar no solo sob o qual jazemos. Quero ser cremado.

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Fonte da Imagem:https://www.newsbreak.ng/wp-content/uploads/2016/07/Cristiano-Ronaldo-Airport-main.jpg

 

Hoje era dia de escrever sobre o fim de semana. Contudo, não posso deixar passar em claro, até porque temo ser detido caso não aborde o tema, a questão que mais preocupa os portugueses e que é:

 

Os offshores?

Os casos de corrupção em vários sectores da sociedade, inclusive até naqueles que andam sempre a mendigar apoios?

O Montepio ou a Caixa Geral de Depósitos com certeza?

A dívida pública que teima em não parar de aumentar?

A manipulação da sociedade portuguesa pelos media?

 

Não! O nome do Aeroporto da Madeira. O Aeroporto da Madeira tem gerado um buzz (excelente palavra) na medida em que se vai tornar mais... fashion (outra excelente palavra). O “novo” aeroporto vai ser “adquirido” pela CR7, o primeiro aeroporto público, embora concessionado, a ter um nome de uma marca associada a “luxo”. Ainda vou ver a Gucci, a Hugo Boss, ou até a C&A e porque não a Primark a terem o seu próprio aeroporto. Porque não? Aeroporto Primark só para Low Cost! CR7 é uma marca comercial, parece que nos esquecemos disso... os do costume também vão boicotar a promiscuídade com o poder político?

 

Ao que sei, até o Presidente da República vai inaugurar o espaço, mas... o Aeroporto da Madeira não existe há anos? Porque é que vamos gastar mais uns milhares de euros de fundos públicos para inaugurar um aeroporto que já funciona há mais de 60 anos? Perdoem a crítica ao Pop President mas ainda guardo rancor por não me pagarem, como outros fizeram, para dizer bem de políticos num blog. Ainda vou ver a marca MRS4 a ser vendida em lojas portuguesas de recordações turísticas, pelo menos marketing não lhe irá faltar. Por vezes tenho a sensação de que vivo num país como os que são satirizados em filmes de autor de leste...

 

Mas eu até concordo, afinal chamar João Gonçalves Zarco a um aeroporto de uma ilha descoberta pelo próprio é no mínimo... descontextualizado, ninguém sabe quem era este senhor. Ninguém sabe quem era este senhor e ninguém sabe quem foi Gago Coutinho ou até Sacadura Cabral... eu digo-vos, foram jogadores de futebol do União da Madeira. Mas... a Madeira é Cristiano Ronaldo, Portugal é Cristiano Ronaldo, por isso... nada como homenagear em vida alguém que é admirado, não pelo futebol que pratica, mas pela riqueza que acumulou em tão pouco tempo e somente a jogar futebol. Ganhasse Cristiano Ronaldo mil euros por mês e gostaria de ver se era admirado... mesmo a praticar um bom futebol.

 

Mas de facto, concordo com o nome e com a chancela de MRS4 para esta nova denominação, afinal Munique tem o aeroporto Franz Joseff Strauss, Veneza o Marco Polo, Lyon o Saint-Exupéry, Madrid o Adolfo Suárez, Granada o Garcia Lorca, Nova Iorque o JFK e até Budapeste tem o Ferenc Lizt (Franz Liszt).

 

Também concordo que o conhecimento histórico dos portugueses ou é fraco ou então reconhecer aqueles que fizeram alguma coisa pelo país é algo que não é muito comum... sabem que o Aeroporto até tem nome? Chama-se Santa Catarina.

 

Permitam-me que deixe uma sugestão: eu acredito piamente que o Aeroporto de Porto Santo deveria ser chamado de Aeroporto Internacional Santa Dolores.

 

Finalmente, também acredito que alguns dirão: “mas o nome de Ronaldo está em todo o lado e quando se fala de Portugal é o Ronaldo que vem à tona”... pois vem, e é isso mesmo que me deixa infeliz. Porque quando se fala de Espanha, é todo um povo que é recordado, quando se fala da Alemanha, são séculos de história e toda uma indústria que é recordada, quando se fala em França são todas as políticas e inovações sociais que são recordadas, quando se fala na Irlanda (um país no mesmo patamar de Portugal) é a inovação e crescimento que saltam à vista e até... quando se fala na Grécia, é todo um passado glorioso que vem à nossa memória.

 

Bom fim de semana... 

 

P.S: E se querem engalanar o Aeroporto da Madeira, tratem de homenagear aqueles 131 indivíduos que perderam a vida em 1977 no voo TP425.

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À Conversa Com o Zagal na Sala dos Embaixadores...

por Robinson Kanes, em 16.03.17

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Fonte das Imagens: Própria 

 

Está a ser difícil sair dos pátios do Alhambra e continuar a história. Desta vez fui empurrado para uma conversa com o Zagal. Lembram-se da luta e do empenho desta personagem na defesa do Reino de Granada?

 

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Numa ausência de Boabdil, fui recebido pelo Zagal na Sala dos Embaixadores do Alhambra, mais propriamente no conjunto que hoje se denomina de Palácios Nasrid. Admito que me senti bastante respeitado, sobretudo porque tinha diante de mim um bravo guerreiro sempre fiel à sua cultura e... ser recebido na Sala dos Embaixadores não era para qualquer um.

 

Mas antes de entrar na sala, onde este respeitável guerreiro me esperava, dei comigo a passar pelo Pátio de Comares ou Patio dos Arrayanes - a água, a mármore, o verde, característica tão muçulmanas – perguntei ao soldado que me acompanhava se podia lavar a cara naquele espelho de água lindíssimo antes de me encontrar com o Zagal. Após um gesto de assentimento por parte daquele fiel guardião de Granada, deixei que a água me lavasse o rosto e me contaminasse com a magia daquele espaço. Cheguei a questionar-me se os meus olhos estariam suficientemente lavados e preparados para o que ainda iria ver... ergui a cabeça e vislumbrei a Torre de Comares (a mais alta do complexo, com 45m, e que alberga a Sala dos Embaixadores), e caminhei em direcção ao Zagal.

 

Após de ter sido recebido por este, confessou-me, enquanto estávamos sentados, que havia sido fundamental para o reino a expulsão de Abén Hacen e da respectiva família para Salobreña. Informou-me de que o reino precisava de sangue novo para combater o poderoso exército de Castela e Abén Hacen já nada podia fazer, inclusive até por culpa da tensão que grassava na cidade.

 

Admito que escutava com atenção o Zagal, mas os meus olhos passavam pela arte e engenho que permitiram que a maior sala

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do Palácio de Comares e de todo o Alhambra fosse tão bela... afinal encontrava-me na sala das grandes recepções, uma espécie de sala do trono. Interessante que nesta sala a luz é reduzida, somente entrando por pequenos orifícios e frestas que lhe dão um certo ar de recato, de sobriedade e até de temor. Aqui desvendamos o interior da Torre de Comares e ficamos apaixonados. Respira-se história, as grandes decisões, pelo menos as mais formais, passaram por aqui. Centenas de anos de reino aqui encerrados e as almas dos diferentes governantes a pairar em cada feixe de luz que ilumina, parcamente a sala. Resolvi não desvendar o futuro ao Zagal e de como a sua alma não tardaria também a pairar sobre aquele espaço.

 

O Zagal, "raposa velha" como era, percebendo a minha admiração e espanto, bem como algum desinteresse pela sua exposição, resolveu brindar-me com uma surpresa, uma surpresa que abordarei em breve...

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 Todavia, já é altura desta aventura ter uma banda sonora, pelo que abaixo encontram talvez, a mais perfeita de todas... Os "Recuerdos de la Alhambra" de Francisco Tárrega e cuja composição, terminada em Granada, data de 1896. Esta versão é interpretada por um Andaluz, como não poderia deixar de ser, o "malagueño Pepe Romero! Não é difícil deixarmo-nos envolver por este espaço, pela história de Granada, pela aventura da reconquista ao som de cada acorde...

 

Para os recém-chegados a esta aventura:

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/aben-hacen-e-zahara-17518

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/el-zegri-e-ronda-18287

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/salobrena-e-a-morte-de-aben-hacen-19240

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/cordoba-o-quartel-general-cristao-19524

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-inicio-das-hostilidades-20973

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/malaga-o-desastre-e-a-capitulacao-21257

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/da-serra-nevada-e-das-alpujarras-se-22619

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/granada-cada-vez-mais-perto-23369

http://naoequenaohouvesse.blogs.sapo.pt/o-alcazaba-do-alhambra-e-a-inspiracao-24720

 

 

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O Mundo Envia-nos Lixo e Nós Damos-lhe Música!

por Robinson Kanes, em 15.03.17

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Fonte das Imagens: Orquesta de Reciclados de Cateura

 

No seguimento de um artigo muito interessante que tive oportunidade de ler (http://quimeraseutopias.blogs.sapo.pt/do-lixo-para-a-boca-38578) e que me chocou profundamente, aproveito esta minha exposição, não só para divulgar o mesmo – posto que a comunicação social em Portugal prefere virar o foco para o futebol e para o fútil – mas também para abordar uma iniciativa que é um verdadeiro exemplo de como se pode sair do lixo... ainda tive esperança de ver aquele artigo em destaque...

 

Cateura, no Paraguai, é a maior lixeira daquele país, aliás, é considerada uma zona inabitável face à degradação que aí se encontra e ao elevadíssimo risco de cheia. Inabitável... mas local de residência para 2500 famílias!

 

0c2f2c_e5e7546a109849b6bc0b23b206f01add.jpgFoi entre esta degradação que um indivíduo encontrou uma forma de criar valor acrescentado... valor acrescentado numa lixeira. Começou por fazer instrumentos com o próprio lixo e o resultado foi que um grupo de crianças completamente esquecidas pela sociedade se transformaram em artistas e deram origem à “Landfil Harmonic” ou, menos sonante mas mais genuíno, a “Orquesta de Reciclados de Cateura”.

 

O lema da orquestra é algo extraordinário e ao mesmo tempo provocador: “O Mundo envia-nos lixo e nós damos-lhe música”. Num só projecto temos uma lição ambiental, uma lição educacional e uma lição social. Do atelier, porque existe um atelier, saem todos os instrumentos feitos à base de... lixo... são esses instrumentos que vão acompanhando um grupo de crianças na sua educação e viagens pelo mundo, crianças perdidas e entregues a uma sorte que... de sorte tem pouco.

 

Lembro-me de ter partilhado esta temática com muita gente (sobretudo da área social e ambiental em Portugal) que, simplesmente, olhou para mim com um desprezo tal que me fez pensar onde estaria a lixeira... se em Cateura, se numa mentalidade triste e tacanha que habita na cabeça de muitos portugueses que se orgulham de ter dado mundos ao Mundo, mas cuja cabeça e visão não vai além do seu pequeno quintal.

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Todo este projecto começou sem apoios do Estado, afinal falamos de pobreza em Portugal, mas não sabemos realmente o que é ser pobre. Hoje, além de vários prémios (inclusive para um documentário) e apoios de vários mecenas esta orquestra é um verdadeiro sucesso. Mas há países onde alguns indivíduos, que se dizem homens e mulheres de terreno, ou os apóstolos da felicidade, cujo suícidio é iminente se ficam sem o relógio de marca, se riem e exclamam: “instrumentos de lixo, que estupidez!”.

 

Talvez a música que nos chegue desta orquestra possa inspirar muitos que andam por aí, numa lixeira diária... e se esquecem que... mesmo com talas nos olhos, cavalos e burros caminham em frente... talvez a inspiração possa vir do texto de Agustina em “Fanny Owen” porque muito provavelmente “ as grandes obras nascem assim: dum sujo porto, entre fezes e urina”.

 

Um pequeno vídeo, resumo da "Orquesta de Reciclados de Cateura"

 

 

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Caritas et Lucrum.

por Robinson Kanes, em 14.03.17

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Hieronymus Bosch, Cristo Coroado com Espinhos (National Gallery)

Fonte da Imagem: Própria

 

Recentemente chegou-me aos ouvidos que a Cáritas Diocesana de Lisboa se encontrava sob investigação do Ministério Público por práticas de corrupção. E eu pergunto, na área social é só a Cáritas? É um começo. Contudo, até a acusação estar formalizada vamos partir do principio que não existe dolo. Procurei algumas notícias mais, mas confesso que não encontrei muitas...

 

No entanto, é admissível que uma instituição solidária (seja ela qual for, pois existem outras bem mais “lucrativas”) tenha lucros na ordem dos 110 000 euros? Que eu me recorde, sempre que menciono o contexto de empresa social geradora de lucros sou linchado em praça pública - mas afinal elas estão aí - não se pode é falar em empresa social que isso é legalizar e dar regras a uma prática totalmente desregulada e repleta de contrariedades. Não se deve também confundir lucros, com dividendos e muito menos com excedentes, pois aí a questão é outra. Lucros numa instituição não lucrativa é, no mínimo, paradoxal. Quero acreditar que foi gralha jornalística.

 

Todavia, como é que uma instituição com um património imobiliário de milhões, altos donativos e dependente de uma instituição cuja riqueza é das maiores do planeta ainda recebe subsídios estatais?

 

A Cáritas Lisboa apresenta mais lucros que um sem número de organizações empresariais em Portugal, organizações essas que além de gerarem riqueza ainda pagam um maior número de impostos e outras tantas taxas. Aproveitando este exemplo, não é altura do Governo Português através dos Ministérios competentes, olhar para estas instituições de outra forma? Como é possível que a Autoridade Tributária aplique multas de milhares de euros por uma empresa se atrasar um minuto a efectuar um pagamento e depois o Ministério da Solidariedade e Segurança Social distribua muitos outros milhares por estas instituições? E onde estão os estudos em Social Return on Investment (SROI)? Existem instituições que fogem desta temática e, recorrendo a um dito bem oportunista, como o Diabo da Cruz.

 

E se o Governo Português promovesse a Responsabilidade Social Corporativa nas organizações empresarias, criando, aí sim, incentivos para que muitas vezes não estivéssemos somente com manobras de “marketing” e a verdadeira génese do conceito fosse eficientemente implementada... sem espinhos?

 

Começo a pensar que a máxima de Robin dos Bosques começa a ficar desactualizada e que afinal andamos a tirar aos pobres para dar aos ricos que tendem a não promover a venda de canas de pesca aos pobres, porque é mais rentável dar-lhes o peixe.

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